Out.Fest, 14 de Outubro de 2015

Out.Fest

Improvisação no Barreiro

texto Nuno Catarino fotografia Vera Marmelo / Out.Fest

Como vai sendo de regra, também na edição deste ano do festival do Barreiro houve jazz, música improvisada e concertos próximos das coordenadas destas tendências da presente música criativa. Históricos como Peter Brötzmann, Eddie Prévost e Akira Sakata passaram por lá.

Dedicado à música experimental, o Out.Fest – Festival Internacional de Música Exploratória do Barreiro, tem apresentado regularmente grandes nomes internacionais da música improvisada e do jazz. Esta edição de 2015 não foi excepção e ao longo de três dias, em espaços diferentes, foram apresentadas várias propostas ligadas à improvisação. 

Da tranquilidade à pujança

Akira Sakata 

Giovanni Di Domenico

Matana Roberts

Pedro Sousa

O festival arrancou no Be Jazz Café, com a actuação de Akira Sakata e Giovanni Di Domenico, duo que tem como único registo o disco “Iruman”, edição da portuguesa Mbari. Com um longo percurso que remonta aos anos 1970, Sakata abriu o concerto no saxofone alto, desde logo em alta intensidade. Destacou-se primeiro o japonês, numa toada ayleriana, enquanto o piano se mantinha mais sóbrio.

A dupla desenvolveu uma improvisação aberta, assente no diálogo. Ao segundo tema Domenico foi explorando o interior do piano, enquanto Sakata passou para o clarinete. Nesta peça, mais tranquila, assistimos a momentos de perfeito classicismo, de verdadeiro entendimento comunicante. Domenico esteve sobretudo em segundo plano, cumprindo o papel de McCoy Tyner, presente e preciso, mas quase sempre na sombra do soprador. Ao terceiro tema, Akira Sakata regressou ao saxofone e, apesar de o arranque ter sido tranquilo, a dupla foi construindo uma música estruturada que concluiu a actuação com um final pujante.

O segundo concerto da noite não teve lugar no Be Jazz Café, mas na porta ao lado: foi num grande salão da Escola de Jazz do Barreiro que actuou a americana Matana Roberts. Na altura em que acaba de editar o terceiro volume da série “Coin Coin”, “Chapter Three: River Run Thee”, Matana apresentou-se a solo.

A actuação decorreu sobre um fundo de imagens projectadas, com Matana Roberts a alimentar uma massa sonora composta de sons pré-gravados, com o saxofone alto e a sua voz (a cantar ou a declamar textos). As intervenções no saxofone eram esparsas, alternadas com as intervenções vocais. Apesar do esforço de fusão dos vários elementos, essa união sonora não resultava fluída como acontece em disco, soando mais desligada. Matana ia repetindo algumas frases-chave, «I was born», «Come away with me», e até revisitou o hino “Amazing Grace”, numa versão despida. «I like to tell stories», justificou a saxofonista e compositora no final.

De regresso ao Be Jazz Café, a primeira noite do Out.Fest fechou com a actuação do trio constituído por Pedro Sousa (saxofone tenor), Miguel Mira (violoncelo) e Afonso Simões (bateria). Já não tivemos oportunidade de assistir a este concerto (era imperioso apanhar o barco para o regresso a Lisboa), mas ouvimos relatos da alta intensidade desta actuação. 

Música imprevisível

John Tilbury

Eddie Prévost

Norberto Lobo

O segundo dia de concertos no Out.Fest teve lugar no espaço do Museu Industrial, no agora parque empresarial Baía do Tejo (antiga Quimiparque e antiga CUF). Na noite de sexta-feira foram os AMM a abrir a noite, projecto que, 50 anos passados desde a sua génese, assume agora a forma de duo, com John Tilbury (piano) e Eddie Prévost (percussão). É verdade que temos tido oportunidade de ver ao vivo os membros do grupo (Tilbury tocou no Maria Matos em 2011; Prévost esteve no festival Rendez-Vous, em Setúbal, em 2010; Keith Rowe, que já não integra o grupo, tocou na ZDB em 2006). Mas poder assistir a uma apresentação do colectivo que gravou o histórico “AMMMusic” (de 1966) é uma ocasião mais rara e um momento imperdível para os adeptos da música imprevisível.

Tilbury mostrou-se tranquilo, num registo assumidamente minimal, delicado na forma como trabalhava lentamente cada nota, tendo ainda explorado o interior do piano. Já Prévost serviu-se do arco de violino, aplicando-se sobre vários objectos percussivos e pratos de bateria. Assim nasciam texturas rugosas, contrastantes com a doçura do piano esparso de Tilbury, num confronto de tensão e contenção. A acústica impressionante do Museu Industrial, que amplificava qualquer pequeno som, favorecia aquela música próxima do reducionismo e evocativa do minimalismo de Glass & Companhia. Entre a simplicidade de processos e a tensão projectada, foi uma actuação verdadeiramente memorável.

A segunda performance da noite reuniu um quarteto com David Maranha, Helena Espvall, Ricardo Jacinto e Norberto Lobo. Se a dupla Maranha & Espvall editou recentemente o disco “Sombras Incendiadas” (Three:Four Records), este grupo funcionou como uma versão expandida da música registada nesse disco. O concerto arrancou com um ensemble de cordofones: Maranha no violino, Espvall e Jacinto nos violoncelos e Lobo na guitarra. O quarteto foi desenvolvendo desde logo um som denso, pantanoso. Maranha passaria posteriormente para órgão, aí acentuando uma música estática, condensando os sons dos vários instrumentos numa massa sonora comum, um nebuloso “drone”.

Poderia pensar-se que Norberto Lobo seria o “joker” do grupo, com o seu dedilhar melódico, mas a guitarra deixou-se ficar abafada, integrada no seio da música, com um som muito processado por efeitos electrónicos. Esta segunda noite de actuações fechou com a electrónica do finlandês Vladislav Delay. 

Com sujidade

Peter Brotzmann 

Jason Adasiewicz

Filipe Felizardo

Gabriel Ferrandini

Bernardo Álvares

Na terceira sessão, o Out.Fest mudou-se para o espaço da ADAO - Associação Desenvolvimento Artes e Ofícios. Neste último dia o festival apresentou 14 (!) concertos, distribuídos por cinco salas. A actuação que mais expectativas gerava era a do veteraníssimo Peter Brötzmann, que já tinha actuado no mesmo festival no ano passado com outro duo, apresentando-se desta vez com o vibrafonista Jason Adasiewicz.

Brötzmann arrancou desde logo com o saxofone tenor, com a ferocidade, a energia e a intensidade que sempre o caracterizaram e nem o peso da idade amansa. O vibrafone arrancou escondido, complementando o saxofone e tentando manter o nível de fogo, embora com dificuldade. Ao segundo tema, Brötzmann assumiu uma postura mais tranquila, abrindo espaço para o vibrafone imaginativo de Adasiewicz, que conseguiu definir uma relação de forças mais equilibrada. Também com uma intervenção enérgica, Jason Adasiewicz revelava uma expressividade que se reflectia não só musicalmente, como também no imenso suor que escorria do seu rosto. Mais para o final, Peter Brötzmann retomou a postura incendiária, como no início, deixando o público fascinado com a eterna vitalidade daquela música.

Além de Brötzmann, houve mais improvisação no festival, de forma mais ou menos assumida. Os nova-iorquinos Zs apresentaram um rock experimental abrasivo, acompanhado por um saxofone desviante. Filipe Felizardo tocou a solo, mostrando na sua guitarra eléctrica uma certa veia atmosférica, complementada por uma visita à América profunda (da folk ao rock), sempre com sujidade.

Também digna de nota foi a actuação dos Caveira, formação de Pedro Gomes (guitarra eléctrica) que agora integra Miguel Abras (baixo) e dois músicos oriundos da cena jazz e improvisada: Pedro Sousa (saxofone tenor) e Gabriel Ferrandini (bateria). O festival contou ainda com o trio Alforjs, de Bernardo Álvares (contrabaixo), Mestre André (electrónica) e Raphael Soares (bateria). A avalanche de sons que encheu este último dia do Out.Fest - do rock à electrónica e à improvisação – foi um bom reflexo da diversidade da música exploratória na actualidade.