Gabriel Ferrandini, 23 de Outubro de 2015

Gabriel Ferrandini

Parabéns a você

texto Rui Eduardo Paes fotografia Joana Barra Vaz e Cláudio Rêgo

O baterista do Red Trio e do Rodrigo Amado Motion Trio comemorou o seu aniversário, no passado dia 22 de Outubro, com um concerto a solo na Parede. Foi uma extravagância feita de polirritmias e arritmias que, se umas vezes pareceu um gamelão travestido, noutras funcionou como uma versão acústica de música electrónica.

Havia no ar a impressão de que este concerto a solo de um baterista – já por si coisa rara – era algo de especial, e não apenas pelo formato escolhido. Quando, já na fase final da actuação de Gabriel Ferrandini na SMUP, a 22 do passado mês de Outubro, o público começou a cantar o tradicional “Parabéns a Você”, percebeu-se que o membro do Rodrigo Amado Motion Trio e do Red Trio estava a celebrar musicalmente o seu aniversário. Num local, de resto, com um particular simbolismo: foi na linha de Cascais que Gabriel viveu durante muitos anos, e a Parede era durante esse período o lugar que mais frequentava. A audiência que sobrelotou o sótão da Sociedade Musical União Paredense acorrera para homenagear um “filho da terra” que tem sido largamente aplaudido pelos seus feitos artísticos nos meios internacionais do jazz e da música improvisada.

Logo nos primeiros minutos Gabriel Ferrandini agarrou os presentes pelos colarinhos e fê-los mergulhar no seu emaranhado de padrões polirrítmicos e arrítmicos e nos seus intrincados tapetes de texturas, dinâmicas e síncopes quebradas. Ouvimos o ressoar metálico de um gamelão extravagante, “drones” que mais pareciam de produção electrónica e fraseados constituídos por fragmentos de métricas e conteúdos totalmente distintos, tocados a uma velocidade estonteante. Ora cerrava os materiais utilizados, fazendo-nos zumbir os ouvidos, ora abria um súbito abismo de serenidade e subtileza. Fosse intempestivamente ou com delicadezas de Lilliput, Ferrandini trabalhou, sobretudo, com essa magnitude abstracta a que chamamos energia: a sua, física, e a invisível dos sons, controlando uma e moldando a outra.

Foto Cláudio Rêgo

De improvisação se tratou, mas algo que ficou depressa a claro foi que o cérebro intuitivo, imediatista e muito flexível de Gabriel Ferrandini pensava tudo o que fazia em termos estruturais. Assim comprovando, pela enésima vez, que improvisar é, ainda, compor, com a diferença apenas – relativamente à escrita composicional – de que tal acontece no próprio momento da interpretação. Inclusive, o ainda jovem músico desmentiu na prática a noção defendida por Gavin Bryars de que a composição notada é necessariamente mais complexa do que qualquer música que se improvise: cada peça tocada tinha tanto de visceral quanto de elaborada.

Sabe-se, à partida, que um solo de bateria implica quase sempre um elevado nível de espectacularidade. Infelizmente, muitas das intervenções solísticas de um baterista no jazz e no rock incorrem na provocação de pasmos fáceis. Há mais “show” do que substância. No caso de Gabriel é a substância que se traduz em “show”. O que fez na SMUP foi espectacular, mas pelo facto de ter resultado de uma técnica aprumadíssima e, mais importante ainda, de ideias fortes e muito próprias. Definitivamente, Alexandre Frazão (que foi professor do aniversariante), José Salgueiro, Bruno Pedroso e João Lencastre têm a seu lado mais um baterista fora de série. Um baterista que já é apontado fora de Portugal, pela crítica e por outros músicos, como estando entre os mais convincentes de toda a Europa.