Eduardo Raon / João Lobo, 2 de Novembro de 2015

Eduardo Raon / João Lobo

Uma maravilha

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

Um veio de Ljubljana e o outro de Bruxelas. Os dois músicos portugueses que escolheram a emigração encontraram-se na Parede para o segundo concerto apenas de um duo estreado em Viena, na Áustria. Tudo indica que terá continuidade e dará muito que falar.

Tocaram em duo (ou melhor: num encadeado de dois solos e dois duos) no passado dia 31 de Outubro, noite de Halloween, na SMUP. Foi apenas a segunda vez que o encontro se proporcionou, depois de um concerto em Viena que lhes deu a impressão de abrir a possibilidade de um novo projecto merecendo investimento. Virá ao caso referir que Eduardo Raon e João Lobo são dois nossos músicos que, à semelhança de tantos outros portugueses em diversas áreas de actividade, tiveram de seguir o rumo da emigração? Vem, e em vários aspectos… Primeiro porque não é habitual encontrá-los nos nossos palcos, pelo que cada oportunidade surgida torna-se preciosa. Depois, porque figuras como estas que escolheram outros países da Europa para viver, estudar e trabalhar (Raon na Eslovénia, Lobo na Bélgica) trazem consigo os resultados de experiências musicais bem diferentes daquelas que habitualmente circulam nos meios do jazz nacional.

Com um instrumento pouco habitual nas lides da improvisação, a harpa, Raon vem revelando uma elasticidade de abordagens notável: membro do Powertrio, formação que denota largas influências da música contemporânea agora com novo disco, “Di Lontan”, colaborou também com Maria João e Mário Laginha no álbum “Iridescente”. Pelo seu lado, Lobo tem no currículo tanto uma participação como baterista de uma das estrelas maiores do jazz europeu, Enrico Rava, como a co-liderança de um projecto que desafia catalogações, o sexteto com o guitarrista Norberto Lobo que lançou “Oba Loba”. Era essa comum flexibilidade, não uma coincidência de orientações, que tornava este concerto na Parede particularmente aliciante. Pois saímos dele com um sorriso nos lábios: a música que ali aconteceu chegou a níveis bem altos não só de entrega como daquela extravagância a que só a criatividade, quando é deixada livre, consegue chegar.

Foi Eduardo Raon que abriu a actuação, com Lobo a observá-lo entre o público. Recorrendo a pedais de “delay” e a preparações, construiu uma malha que combinou insistentes repetições de motivos rítmicos e “loops” fortemente processados com espaços de silêncio, subtis melodias e constelações harmónicas de uma beleza que raiou o lirismo camerístico. A intervenção fez-se com desenvolvimentos lentos, parecendo suspender o tempo, mas igualmente com súbitas mudanças de direcção, procurando cobrir a maior diversidade de situações tímbricas. Sempre, de qualquer modo, com a perspectiva numa formulação estrutural unificadora, marcada por intercalações de recorrência e derivação.

A transição para o solo de bateria fez-se com Raon a esfregar crinas de cavalo pelas cordas e Lobo a passar um arco de violino num prato. Daí, o sobrinho do escritor António Lobo Antunes partiu para a manipulação de uma chapa que nos arrancou arrepios da espinha, numa lógica de contraste com a etérea sonoridade que se instalara. O que se seguiu, mais uma vez com sentido composicional, foi uma articulação de confluências e divergências, estabelecendo e desfazendo padrões. As polirritmias, os cruzamentos de métricas distintas, os acelerandos e desacelerandos, as inversões de elementos e as multiplicações de parâmetros foram como que uma extrapolação dos labores de “looping” e do enfoque minimalista antes ouvido. O mesmo, mas diferente, muito diferente, com utilização de percussões metálicas e, na parte final, o acrescento vocalizado de uma repetida frase em falseto.

Às tantas, Eduardo Raon juntou-se a João Lobo e formou-se o esperado dueto. Mantiveram-se os princípios, mas a interacção levou-os para outros lados. Logo nos primeiros momentos ficou definido que não haveria qualquer hierarquização concordante com o tipo de instrumentos associados e com os usos vulgares das suas respectivas histórias – a bateria não estava ali para acompanhar e a harpa para se colocar à frente. Ainda que baseando-se na escuta um do outro, Raon e Lobo não procuraram fechar-se no mesmo plano. Antes pelo contrário: complementaram-se por meio da diversidade dos seus discursos. Agiram em paralelo, sem estabelecerem compromissos a meia distância. Era o esqueleto da música que os ligava, montado passo a passo, não a carne que o ia cobrindo. Uma maravilha.