Atomic, 13 de Novembro de 2015

Atomic

Altas temperaturas na Parede

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

O quinteto escandinavo está em Portugal para dois concertos na SMUP. Ontem foi o primeiro e dele aqui falamos. Hoje repete, com lotação já quase esgotada. O grupo de Ljungkvist, Broo, Wiik, Haker Flaten e Hulbaekmo combina organização e visceralidade e consegue ser tão excêntrico quanto concêntrico, numa espécie de bop / pós-bop do século XXI.

Há alturas em que o centro fica na periferia, e o centro da audição jazz em Portugal foi ontem, e será esta noite outra vez, não Lisboa, mas uma vila a 15 Km de distância da capital, Parede. E porquê? Porque a vinda ao nosso país daquele que é um dos mais duradouros e talvez o mais importante grupo escandinavo, referido pela crítica também como uma das mais aliciantes formações em construção permanente na Europa, veio até cá exclusivamente para duas apresentações na SMUP, parte da Combat Jazz Series produzida pela Clean Feed e programada por Pedro Costa. A de ontem esgotou rapidamente, e a de hoje, porque é sexta-feira e vem aí o fim-de-semana, já estava quase esgotada muito antes de o primeiro “gig” ter início.

O concerto começou com bastante atraso, mas ninguém arredou pé. Os Atomic de Fredrik Ljungkvist, Magnus Broo, Havard Wiik, Ingebrigt Haker Flaten e Hans Hulbaekmo, há ano e meio o substituto de Paal Nilssen-Love, apenas conseguiram chegar ao local pelas 20h00, e havia que fazer montagem e ensaio de som. Vinham da Polónia, aterraram em Frankfurt e foram apanhados pela greve da Lufthansa. O seu voo para Lisboa atrasou-se sete horas. Estavam cansados («este foi um longo dia», lamentou Ljungkvist, o saxofonista e clarinetista), mas nem por um momento isso transpareceu na música. Talvez no início, mas muito depressa o quinteto aqueceu. Depois, foi vê-los e ouvi-los a arder…

Como que para frisar a circunstância de o centro ter passado para a periferia, ou a periferia se ter tornado centro, dada a importância crescente da SMUP no roteiro de concertos do jazz, da livre-improvisação e da generalidade da música criativa no nosso país, até a música tocada evidenciou as dúplices características excêntricas e concêntricas que colocaram os Atomic num lugar à parte na cena mundial. Com o lançamento do novo álbum “Lucidity”, isso ainda se tornou mais evidente. Activo há 15 anos, o grupo atingiu um elevadíssimo nível de maturidade e a sua visão do jazz parece mesmo ter ganho aquele tipo de lucidez que só o tempo e uma insistente dedicação permitem.

Regra geral, quando se cuida tão empenhadamente das estruturas e do trabalho composicional é a improvisação que fica a perder, e quando se dá largas à espontaneidade e à interacção entre os músicos a escrita torna-se secundária. Os Atomic conseguem congregar os dois planos e fazer com que cada um deles intervenha no outro. Ou seja, sabem, como poucos, conjugar organização e visceralidade. Tanto assim que, ontem, foi muitas vezes difícil distinguir o que era apenas interpretação do que estava na pauta – e nas estantes o que estava eram peças de enorme complexidade – e do que era criado no momento. A leitura apresentava-se viva, transformadora, e os solos improvisados tinham eles próprios um pendor estruturante.

Os Atomic foram excêntricos quando se afastavam dos centros temáticos por eles próprios urdidos e fizeram-no cumprindo as definições de excentricidade dadas pela Mecânica (o eixo de rotação sai do centro, transformando o movimento contínuo em outros movimentos) e pela Geometria (por via de distanciações relativamente ao centro). O mais incrível é que essa metodologia era simultaneamente contrariada por processos concêntricos, de retorno aos esqueletos ou aos pontos de referência. Não se tratava, propriamente, de desconstrução e reconstrução, mas de interpolações construtivas dissemelhantes, mas articuladas.

Magnus Broo

Havard Wiik

Hans Hulbaekmo

Fredrik Ljungkvist e Magnus Broo

Desde Anthony Braxton estamos cientes de que uma abordagem assim tão “científica” pode ser gerida com alma e expressão, mas o certo é que, com os Atomic, o que ouvimos é acessível e extremamente claro, dando-nos uma ilusão não só de simplicidade como de facilidade. É certo que muito devido ao vocabulário utilizado, e este remete-nos para o bop e o pós-bop. O que não quer dizer que sejam esses subgéneros do jazz o que nos propõem os Atomic, e sim uma transferência de tais modelos para a actualidade. Isto é, um bop e um pós-bop como nos seus respectivos períodos áureos nunca soaram. Isso ficou muito evidente, ontem, no penúltimo tema tocado, algo que nos lembrava imediatamente Charles Mingus, mas que era um Mingus do século XXI.

Essa peça serviu, aliás, para desvelar a influência mingusiana na identidade musical dos Atomic, explicando muito do que antes sucedera. Uma influência interferida, ou alimentada, por outras. Se Wiik ia constantemente introduzindo motivos clássicos contemporâneos que nos evocavam Messiaen, as súbitas mudanças de métrica e de tonalidade vinham do lado de Frank Zappa. Eram tão desarmantes, tão surpreendentes, tão eficazmente enriquecedoras das tramas quanto as extravagâncias daquela singularíssima figura do rock.

Imaginem um sólido, dinâmico e “groovy” bloco rítmico, com um baterista “à antiga” (apesar da jovem idade de Hulbaekmo) que se diria ter voltado a “Baby” Dodds para a partir daí firmar um estilo que é tão vernacular quanto “à la page”, mais um contrabaixista possante e afirmativo como já bem sabemos, de actuações por cá do trio The Thing, que é Haker Flaten e mais um pianista (Wiik) cuja mão esquerda funciona como um coração palpitante. Agora imaginem sobre essa primeira camada uma dupla de sopros, constituída por Ljungkvist e Broo, que estudou o contraponto de Bach de trás para a frente e ao contrário e encontra formas de se associar que vão muito para além das normais combinações entre um sax tenor e um trompete. Foram estes dois os responsáveis dos mais incríveis solos da noite, imprevisíveis nas direcções tomadas, incendiários, grávidos de argumentos, incómodos, problematizadores, delirantes. A assistência entrou em rubro – ouviam-se assobios, gritos, ovações entusiasmadas.

Hoje os Atomic voltam a tocar na SMUP. Só eles sabem se o alinhamento será o mesmo ou não, mas é provável que em grande parte voltem a pegar no repertório de “Lucidity”. Uma coisa é certa: não vai ser igual, apesar dos rigorosos contornos das composições. Outra certeza ainda nos dá esta paragem na Parede desta superbanda: se ainda não têm bilhete para ir, vão ter dificuldade em entrar…