Duot & Rodrigo Pinheiro, 13 de Novembro de 2015

Duot & Rodrigo Pinheiro

Intensidade e subtileza

texto Nuno Catarino fotografia Joaquim Mendes

O termo da West Iberian Tour dos Duot de Albert Cirera e Ramon Prats fez-se no Hot Clube, em Lisboa, com Rodrigo Pinheiro como convidado. A jazz.pt esteve lá e conta o que ouviu…

O saxofonista catalão Albert Cirera é já uma figura bem conhecida da cena jazz e improvisada lisboeta. Cirera tem participado em múltiplos projectos com músicos nacionais, do jazz mais conservador até à improvisação mais abstracta. Com o também catalão Ramon Prats (baterista), Cirera mantém um duo chamado Duot, nascido quando ambos ainda estudavam na Escola Superior de Música de Catalunya.

Cirera e Prats tocam juntos há mais de dez anos e planearam uma pequena digressão de Duot por meia-dúzia de cidades de Portugal e Espanha, que designaram pomposamente de West Iberian Tour. Esta arrancou em Lisboa no dia 5 de Novembro, numa actuação do ciclo Nervo no bar Damas, com o convidado Carlos “Zíngaro”; passou depois por mais duas localidades portuguesas (Coimbra e Montemor-o-Novo) e duas cidades espanholas (Salamanca e Sevilha); e terminou de volta ao lugar de partida, em Lisboa, agora no Hot Clube e com um outro convidado, o pianista Rodrigo Pinheiro (do Red Trio).

Trabalhando uma música exclusivamente improvisada, o trio arrancou de forma tranquila, demorando-se numa pesquisa de sons e na procura de diálogos. O saxofone de Cirera (inicialmente no tenor) mostrou-se primeiro subtil, contido. Prats e Pinheiro pareciam estar no mesmo espírito, controlados e atentos. Contudo, rapidamente os músicos chegaram a uma zona de conforto comum. A música evoluiu para momentos de tensão crescente, com aqueles crescendos enérgicos tão típicos do free jazz.

O saxofone de Cirera não só desenvolve um fraseado original como destila uma alta intensidade enérgica, e foi sobretudo por essa energia que passou a actuação do grupo (sobretudo na primeira parte). O trabalho de percussão de Prats é atento e preciso, muito dialogante – e conseguiu desenvolver excelentes momentos de comunicação com o piano. Como se conhece do Red Trio, Pinheiro é absolutamente original, e na ocasião foi fundamental para desviar o duo Duot para outros caminhos - embora por vezes o som do piano ficasse abafado pelos restantes instrumentos, nos momentos de maior explosão.

Também no saxofone soprano, Cirera assumiu o papel de principal instigador da fogueira, Ramon Prats contribuiu activamente para as chamas e Rodrigo Pinheiro arrastou o seu piano imprevisível para a combustão. Se a criatividade de Cirera e de Pinheiro já não será surpresa, foi especialmente interessante ver e ouvir a bateria de um Prats meticuloso e irrequieto – até esticando a perna sobre a tarola, como Han Bennink.

Após um primeiro “set” muito intenso, a segunda parte arrancou em modo mais tranquilo, com os músicos a optarem por soluções menos óbvias. Rodrigo foi explorando o interior do piano; a bateria mostrou-se mais subtil e textural; o saxofone deslocou-se para os micro-sons. Se anteriormente Cirera já se tinha revelado profundamente ayleriano, soava também como se fosse o canto de pássaros. A música do duo, transformado temporariamente em trio, evoluiu para diversas formas, mas naquela noite de terça-feira ouviu-se sobretudo muita inventividade.

O histórico clube da Praça da Alegria não encheu (estariam umas 30, 40 pessoas), mas quem lá foi apreciou sobejamente.