Guimarães Jazz, 16 de Novembro de 2015

Guimarães Jazz

Muito mais do que um palco

texto Gonçalo Falcão fotografia Paulo Pacheco

Com a regularidade das coisas que funcionam bem, assim correu a 24ª edição do Guimarães Jazz nas duas últimas semanas. A jazz.pt foi ouvir a segunda para confirmar o que antecipou: grande música num grande festival.

Na primeira noite da segunda semana do Guimarães Jazz deste ano, a de quarta-feira, tocou o quinteto de Taylor Ho Bynum, concerto a que não pudemos assistir. Chegados na quinta a tempo de ouvir Joshua Redman com os James Farm, sentámo-nos para – ainda não o sabíamos – um grande concerto. Das centenas de músicos que as escolas de jazz americanas formam anualmente, há uma elite que é capaz de juntar a uma capacidade técnica gigantesca a de escrever música original e, provavelmente, a mais difícil de obter, gerar e integrar ideias musicais interessantes em grupo. Digo provavelmente porque o esforço técnico que é requerido a estes jovens músicos – que aprendem intensivamente aquilo que há meio século atrás levava 10 ou 20 anos de prática diária, proporciona que se privilegie o fazer e a técnica em detrimento de ter alguma coisa para dizer.

Novos músicos

Os James Farm são quatro destes novos músicos excepcionais (o que torna injusto destacar Redman): Aaron Parks no piano, Matt Penman no contrabaixo e Eric Harland na bateria tocam música de dupla face, com temas simultaneamente simples e complexos e uma complexidade rítmica e melódica que é clarificada pela forma como os músicos tocam e solam, de tal forma que a audição se torna por vezes paisagística, contemplativa, de uma enorme nitidez e naturalidade. Ouvimos Eric Harland a tocar tempos irregulares, o grupo em paralelo noutro ritmo que não o da bateria, o solo com o tempo também descentrado da bateria e da estrutura melódica do grupo, e tudo isto a construir um todo coerente e interessante dá uma ideia do que foi o concerto.

As melodias iniciavam-se quase sempre com um ambiente cinematográfico, em planície, depois decompunham-se em múltiplos ângulos melódicos, como num processo cubista, sem perderem o sentido da beleza conjunta e – mais difícil – sem instalarem a sensação de uma dificuldade infundada. Tudo ali fazia sentido e era belo e estimulante de ouvir. O discurso solista de cada um dos músicos tinha uma personalidade própria e envolvia o ouvinte. Matt Penman, no contrabaixo, fez o solo mais marcante no meio de vários solos bons. Um concerto admirável que anulou rapidamente o cansaço de quem largou a vida pendular e intensa de Lisboa e repõs parte do sentido da vida. 

No infinitesimal e no quilométrico

 

No dia seguinte subiu ao palco um nome histórico do jazz mundial, infelizmente muito difícil de ouvir em Portugal: Archie Shepp. Não vou repetir o que tenho dito, que a história não toca e que não raras vezes os concertos dos “históricos” são uma enorme desilusão – se isto é verdade, também será justo reconhecer que os ditos históricos têm também dado alguma da mais interessante música das muitas edições deste festival (ainda não me saiu da memória o concerto de Wayne Shorter no Guimarães Jazz, por exemplo).

Shepp vinha em quarteto com nomes pouco conhecidos. Não havendo disco novo, nem um motivo celebrativo, o concerto era difícil de antecipar e poderia ir dos espirituais negros ao free jazz. Ouviram-se temas de Shepp intercalados por clássicos (Ellington, Strayhorn) de forma notável. O saxofonista está em grande, capaz de tocar no infinitesimal e no quilométrico em simultâneo: por um lado foi interessantíssimo nos solos e no arranjo de temas clássicos e por outro foi de um notável detalhe em cada nota e mostrou-se capaz ainda de trabalhar a expressividade de cada som. “Mamma Rose” foi o tema mais intenso da noite e o seu «and turn it into a revolution!....revolution… revolution” ainda é cantado com a intencionalidade e a razão com que a cantou em 1982 (o álbum “Mama Rose” é uma obra-prima, muito criticada na altura, mas que vale a pena reouvir e reavaliar).
Muito mais que o acompanhante de Coltrane em “New Thing at Newport”, como é simplificado para os “media”, Shepp é um dos grandes saxofonistas da história mundial do jazz.

Usa toda a música afro-americana – os espirituais e sua versão profana, os blues, o jazz em todas as suas manifestações estilísticas –, para passar a sua mensagem de consciencialização para as desigualdades, para a paz e a beleza. Em Guimarães esteve excelente e as limitações impostas pelos seus quase 80 anos de idade desapareceram em palco durante duas horas de concerto, para dar lugar a um grande músico, que não precisa da história para justificar a sua presença no palco principal de qualquer grande festival de jazz. 

Calcanhar de Aquiles

 

Como sempre, o encerramento do Guimarães Jazz é feito com uma orquestra, e desta feita tal aconteceu com a de Maria Schneider. A maestrina, compositora e arranjadora tem uma escola enorme e sabe tudo o que se pode fazer com aquele leque de instrumentistas. Dispõe de um grupo altamente competente, e não só a tocar - com um rigor de mecânico de Fórmula 1 - como a solar. Contudo, a sua escrita actual é demasiado evidente, cheia dos clichés das pradarias americanas. Sempre na fronteira com o “kitsch”, passou por vezes para o lado de lá, onde está o “Local Hero”: vimo-nos num filme mau sem filme, com música descritiva e com as mesmas emoções a serem repetidas vezes sem conta. Ouvimos detalhes orquestrais pormenorizados e soluções sonoras de enorme beleza. Em igual proporção, levámos com as mesmas cores orquestrais até ao enjoo e com as mesmas ideias para acompanhar os solos.
Deve ser difícil manter o projecto de uma orquestra a funcionar, dado que se trata de uma unidade grande, cara e difícil de movimentar. Mas parece igualmente haver uma preocupação exagerada em encaixar “big bands” no perfil (imaginado?) do público de Guimarães. As orquestras têm sido o calcanhar de Aquiles das últimas edições do Guimarães Jazz, com música demasiado evidente, fórmulas emocionais fáceis e recursos estilísticos vindos da cultura de massas. 

Audi alteram partem 

Apesar de repetido, é justo referir que o Guimarães jazz é muito mais do que um palco com concertos. É antes de mais uma equipa de organização e produção competentíssima que tudo faz para resolver as inúmeras solicitações. É também a reflexão sobre o universo do jazz que anualmente surge publicada no “jornal” do festival, da autoria de Ivo Martins. Textos sobre o que é um festival de jazz, o que é ser programador, o que é ser crítico de jazz e muitos outros temas que orbitam as noites dos concertos e vão construindo um corpo de pensamentos em letra de imprensa. Este ano, o texto foi dedicado precisamente a uma das questões que regularmente me assaltam, bem como – julgo – a todos aqueles que escrevem sobre jazz: o que é que eu estou a fazer/o que é que eu devo fazer. Isto tem certamente gerado reflexões individuais em todos os que, como eu, exercem esta incumbência crítica; porém, sendo uma actividade de escrita, são raros os escritos que analisam as reflexões publicadas pelos próprios. Ivo Martins usa Alan Badiou e Walter Benjamim como referências e dedica-se à crítica da crítica, num texto muito útil: “Audi alteram partem”.

O Guimarães Jazz é também formação e os jovens músicos da ESMAE integram um “workshop” com a duração do festival no qual têm a oportunidade de se aperfeiçoarem com outros músicos de outras escolas. Estes animam a festa tocando em “jam sessions” à noite. A edição é outro dos elementos do festival que, num primeiro tempo com a TOAP e actualmente com a Porta-Jazz, estimula encontros e o registo desses encontros, não só para memória futura como também para a vitalidade dos projectos editoriais “a Norte”.

E o Guimarães Jazz é também turismo, impossível de não reconhecer pela quantidade de Espanhol e de vários sotaques nacionais ouvido nos “foyers” de um projecto notável que contribui para a promoção e a identidade de uma cidade. Neste esboroamento progressivo da cultura e das condições de vida das pessoas que “os mercados”, por via da sua divisão de “entertainment” (“a política”) têm imposto, é bom saber que podemos voltar a Guimarães e que por aqui a vida e a arte se mantêm elevadas. Até breve.