Color Sound Frames, 25 de Novembro de 2015

Color Sound Frames

Improvisação sinestésica

texto Rui Eduardo Paes fotografia Fundação de Serralves

Num ciclo de três dias dedicado por Serralves à interacção do cinema e do vídeo com a música, estiveram em grande plano práticas de improvisação que coabitam com as do jazz e da música improvisada. Razão pela qual improvisadores como Werner Dafeldecker e Joachim Nordwall estiveram envolvidos. A jazz.pt foi lá espreitar. 

Não é só na música, com o jazz e a chamada música improvisada, que se pratica a improvisação. Outras tendências da arte dos sons e outras disciplinas artísticas, em especial a dança, o teatro e a performance, adoptaram essa metodologia. Até em domínios menos previsíveis, como os do cinema experimental e da vídeo-arte, a criação no momento tem-se desenvolvido exponencialmente – o que é, de todo, natural, pois desde pelo menos a passagem do século XIX para o XX as aspirações à sinestesia vêm procurando a instantaneidade da fruição combinada dos sentidos. O ciclo Color Sound Frames, promovido pela Fundação de Serralves entre 20 e 22 de Novembro passado, associando som e imagem, foi uma esclarecedora mostra disso mesmo.

Ao longo dos últimos 100 anos a evolução da tecnologia tem permitido surpreendentes desenlaces nesse campo que, pela sua natureza, se designou por “intermedia”, e a série programada por Pedro Rocha no Porto focou-se, precisamente, na utilização de diversos equipamentos e “instrumentos”, uns de ponta, digitais, e outros recuperados do tempo, como o Super 8, os projectores de 16mm, velhos osciladores e dispositivos electrónicos “vintage”. O facto de a série de eventos ter recuperado o nome de um filme de Paul Sharits datado de 1974, e intitulado “Color Sound Frames”, mais iluminou essa perspectiva de desbravamento de caminhos. Mesmo no sentido em que, com meios obsoletos, ainda é possível fazer algo de novo ou, pelo menos, algo que dá uns passos adiante relativamente àquilo que foi realizado pelos pioneiros.

Rothko em movimento

Guillaume Cailleau e Werner Dafeldecker

Resonator I

Resonator II

Cipher Screen

Como não podia deixar de ser, músicos com importantes trajectos na improvisação, e até no jazz, estiveram envolvidos. Foi o caso de Werner Dafeldecker, contrabaixista austríaco que conhecemos dos Polwechsel e de associações com Axel Dorner, Burkhard Beins, Mathias Muller, Kai Fagaschinski, Andrea Neumann ou Michael Thieke – apresentou-se duas vezes ao lado do cineasta Guillaume Cailleau . Nas mesmas circunstâncias esteve o sueco Joachim Nordwall, parceiro de figuras como Mats Gustafsson, Christine Abdelnour e Mark Wastell, e que na ocasião estreou uma parceria com Greg Pope. Muito por via da plena assunção do factor “improv” por parte destes dois artistas sonoros, bem como da relevância que tem a improvisação no trabalho de Cailleau e, mais ainda, no de Pope, foram as suas intervenções que mais se destacaram neste festival de três dias.

Guillaume Cailleau e Werner Dafeldecker tiveram duas sessões, uma com “Resonator I” e a outra com “Resonator II”, bastante diferentes em termos de aplicações tecnológicas. A primeira foi a mais primária, analógica e manual, envolvendo dois projectores Super 8 e dois geradores de sinal. O que surgiu na tela parecia Rothko em movimento, com sucessões rapidíssimas de manchas de cor. Pelas colunas saíam estalidos percussivos com diferentes velocidades, em sincronia com o próprio ritmo das imagens. A simplicidade dos recursos contrastava com a eficácia e a beleza dos resultados. A segunda peça já era de laboração mais complexa, por um lado contextualizando digitalmente o aproveitamento de restos de películas e o efeito de agentes químicos e por outro adicionando mais camadas e mais detalhes no plano auditivo.

Greg Pope e Joachim Nordwall apresentaram o projecto “Cipher Screen”. Com um passado no punk e na performance-arte , o fundador do colectivo Loophole Cinema e nome incontornável do “live cinema” vem destruindo a noção de que cinema significa filmar imagens para mais tarde as reproduzir – o seu cinema tem o tempo real como factor distintivo. E destruir, para ele, é a forma como cria. No auditório de Serralves, Pope foi intervindo na película de 16mm com um berbequim e outras ferramentas perfuradoras, assim produzindo não só o que víamos como a base do que ouvíamos, com a mediação dos processamentos de Nordwall. A actuação remeteu-nos para a personagem de um inesperado texto de Walter Benjamin, “Der Destruktive Charakter”, com a substancial diferença de que o destruidor do filósofo alemão «evita a criatividade» e Pope procura-a.

Coincidências electromagnéticas

Billy Roiz

Tilling Sessions

Shxcxchcxsh

Le Révélateur

Se ambas estas participações eram colaborativas, juntando artistas do olho e do ouvido para a obtenção do que era pretendido, já no caso da austríaca Billy Roiz – que em outras circunstâncias trabalhou com improvisadores como Martin Brandlmayr, eRikm, Burkhard Stangl ou Jerôme Noetinger – imagem e som tinham a sua simultânea produção dependentes apenas de si. Com um computador, gira-discos, baixo eléctrico, sintetizador de vídeo, mesa de mistura de vídeo e outra parafernália numa mesa emaranhada de cabos, o que fez foi gerar e gerir coincidências electromagnéticas. Com a vivacidade das situações efémeras e irrepetíveis.

Também o britânico Theo Burt integrou as duas abordagens em “Tilling Sessions” (substituin o programado “Colour Projections”, devido a problemas técnicos), mas fê-lo de outro modo, e bem dentro do espírito da “computer art”. O mesmo algoritmo com que formava as figuras geométricas que surgiam no ecrã era o que originava a trama musical. A um poliedro, um círculo, um quadrado correspondia uma determinada onda sonora, e a sua sucessão traduzia-se no alucinante disparar de metralhadora a que assistimos e que fez tremer o chão da sala.

Menos interessantes foram as duas restantes sessões do Color Sound Frames. Sofrível a que juntou o português, residente em Berlim, Pedro Maia com os suecos Shxcxchcxsh, por desmérito destes, e francamente decepcionante a da dupla canadiana Le Révélateur. O filme em celulóide com elementos de “feedback” de Maia esteve bem, mas o “glitch” e os “broken beats” do duo de capuz, anónimo e sem rosto, não só soaram datados, lembrando-nos a electrónica dos anos 1990, como tiveram uma actuação descosida e derivativa. Por sua vez, o músico Roger Tellier-Craig – que chegou a integrar conhecidos grupos como Godspeed You! Black Emperor e Fly Pan Am – e a videasta Sabrina Ratté propuseram algo que destoou de tudo o mais: um pobre videoDJing e uma música de frágil e vazia grandiosidade “sinfónica”.

Faria bem ao jazz e à música improvisada deixarem de mirar o seu próprio umbigo e observarem o que se cria em outras áreas com a improvisação, mas no público sempre numeroso do ciclo não reconheci nenhum músico deste circuito. É pena, porque havia algo para aprender…