Sintoma Fest, 10 de Dezembro de 2015

Sintoma Fest

Sonho, confiança e festa

texto Rui Eduardo Paes fotografia Catarina Louro

A editora encabeçada por Desidério Lázaro e João Firmino comemorou o seu terceiro aniversário com quatro concertos de enfiada que ocuparam o Hot Clube até altas horas da madrugada. Ouviram-se várias concepções do jazz, com a maior surpresa guardada para o fim: uma revisão do “Ode Portrait” por Marco Santos que deixou todos de queixo caído.

Faz todo o sentido, e é mesmo justo, começar esta crónica pelo fim, ou seja, pelo último concerto do Sintoma Fest, realizado no passado dia 8 de Novembro no Hot Clube de Portugal para assinalar o terceiro aniversário da editora Sintoma Records. E isso pelo peso simbólico que a actuação do novo quarteto de Marco Santos teve, numa inesperada repescagem dos temas incluídos no álbum “Ode Portrait”, publicado em 2014.

O baterista e compositor residente na Holanda veio demonstrar-nos que não há obra feita que esteja realmente acabada, que a música, num contexto como o do jazz, está em constante reformulação. Com uma instrumentação totalmente distinta da do CD, e com outros intervenientes, designadamente o trompetista Diogo Duque, o acordeonista João Frade e o contrabaixista Romeu Tristão, Santos como que exemplificou o papel a que se propõem os mentores da Sintoma, Desidério Lázaro e João Firmino: dinamizar, criar condições, juntar músicos, mexer com a cena, o que é muito mais do que dar oportunidades de gravação e edição a quem de outro modo muito provavelmente não as teria e do que ocupar um palco só porque sim.

Não poderia ter acabado melhor esta festa, quando já passava das duas da madrugada. Mais de metade do público que apinhava o Hot já lá não se encontrava, porque o dia seguinte era de trabalho e de aulas, mas o concerto ficará decerto na memória dos poucos a que assistiram a momento tão precioso. Se o disco já tinha sido bastante convincente, Marco Santo tornou aquela mesma música ainda melhor. E não foram apenas os timbres associados do trompete e do acordeão, numa combinatória pouco usual, que engrandeceram os temas, foram sobretudo as capacidades dos improvisadores em cena.

Apesar do seu “low profile”, Duque é, sem dúvida, um dos melhores trompetistas do circuito jazz nacional, e se Frade tem como rival, no seu instrumento, um músico tão extraordinário quanto João Barradas, os seus solos de cortar a respiração não o colocaram atrás. Pelo seu lado, o mesmo Tristão que se tem revelado no quarteto de Ricardo Toscano é, apesar da sua pouca idade, um farol seguríssimo, mantendo a intriga musical viva e pujante. Quanto ao próprio Santos, desdobrou-se em figuras rítmicas que ora passaram pelo drum ‘n’ bass, por referências latinas e africanas (mais claras ainda quando pegou num “talking drum” e o colocou debaixo do braço), por batidas rock e, como não podia deixar de ser, pelo mais implacável “groove” jazzístico. Foi lindo de testemunhar e, para este ouvidor, conquistou o lugar de um dos melhores concertos do ano.

O outro mais relevante “set” da noite esteve a cargo de uma formação também com CD já lançado pela Sintoma Records, “Saturday”, a liderada pelo igualmente baterista Alexandre Coelho. A prestação demorou a instalar-se, parecendo avançar a medo, mas quando os quatro músicos se atiraram para a frente percebeu-se que estava ali um projecto que merece de nós levá-lo muito a sério. Coelho é um ritmista nervoso, multiplicando a sua presença em toda a música, em todas as peles e em todos os pratos que tinha diante de si e criando uma densa base de sustentação para tudo o que de mais acontecia.

Marco Santos

Diogo Duque e Romeu Tristão

Alexandre Neto

João Mortágua

Isabel Rato

Luís Barriga

Com um “swing” cerrado, que só não podíamos conotar com o hard bop dos Jazz Messengers de Art Blakey porque as dimensões melódica e harmónica eram bem portuguesas, foram exímios  o pianista Gonçalo Moreira e o contrabaixista João Cação, mas coube a João Mortágua lançar os foguetes. Sobretudo quando se centrou no alto: o saxofonista do Porto está a ganhar uma relevância que nos obriga a acompanhar o seu trajecto com toda a atenção. Fez um trabalho notável, do melhor que por estes dias podemos ouvir neste país.

As outras duas actuações foram de desvelamento de edições da Sintoma marcadas para Março de 2016. Curiosamente, ambas incluindo vozes. A pianista e compositora Isabel Rato apresentou “Para Além da Curva da Estrada”, disco em que o jazz se cruzará com a música clássica (houve até fraseados que nos remeteram para… Bach) e a nossa tradição popular e que terá como foco, não propriamente o piano, mas os vocais de João David Almeida. A interpretação deste do poema “Guardador de Rebanhos” de Alberto Caeiro demonstrou que temos cantor.

Com Rato, reforçando o plano harmónico, estava a guitarra de Gonçalo Neto, talvez demasiado discreta, ocupando André Rosinha e Alexandre Neto os lugares do contrabaixo e da bateria, também eles comedidos e ao serviço do colectivo. Quem mais sobressaiu, além de Almeida, foi Desidério Lázaro, que assinou dois excelentes solos de sax soprano.

A restante antecipação foi protagonizada por Luís Barriga, com “Songs With and Without Words”. O que o pianismo de Isabel Rato tivera de colorido, o de Barriga definiu-se pelo seu carácter luminoso, com um estilo brilhante, assertivo e grávido de argumentos. Foram duas as cantoras que chamou, Guida de Palma e, no lugar de Sofia Vitória (que surgirá no disco mas não pôde participar), Rita Maria, que até aí surgira como apresentadora do evento. Uma das melhores canções teve-a como intérprete. Sopros eram dois, o de Edgar Caramelo, em saxofone soprano, e o, novamente, de Lázaro, primeiro em clarinete e depois também no sax com que já o ouvíramos.

Não teve particular consequência em contexto comemorativo tão informal e despreocupado como o do Sintoma Fest, mas tornou-se evidente que o grupo não estava ensaiado. Caramelo teve mesmo uma entrada falsa, mas a música seguiu sem maiores problemas. Alexandre Alves voltou a surgir na bateria e o contrabaixista Mário Franco teve a oportunidade de fazer o mais empolgante solo da sessão.

Os quatro concertos programados foram uma esclarecedora montra daquilo que é a Sintoma Records, uma editora que reúne a pluralidade de vias que o jazz segue em Portugal, sem circunscrever abordagens estéticas ou tendências estilísticas. Ao terceiro ano, a festa a que assistimos confirmou que continua a mesma determinação que conduziu ao estabelecimento desta plataforma de acção dos próprios músicos e, sobretudo, o sonho que os seus aderentes perseguem. Foi uma maratona bem-disposta, confiante e obreira, mostrando a todos que vem aí muito futuro.