Gonçalo Almeida / Rodrigo Amado / Marco Franco, 24 de Dezembro de 2015

Gonçalo Almeida / Rodrigo Amado / Marco Franco

Que se lixe o Banif

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

Foi uma festa, o último concerto de jazz do ano na SMUP. De regresso aos palcos, o projecto que reúne três dos nossos melhores músicos apresentou-se em registo de combate, brincando com a tendência portuguesa para salvar bancos. O público, numeroso, exultou.

Quando chega o Natal, chegam também para um reencontro com as famílias os homens e as mulheres da diáspora portuguesa. E se uns vão para as aldeias dos seus pais e avós para aí retemperarem forças, outros manifestaram-se diante das sedes do BES e um deles aproveitou para tocar com músicos seus conterrâneos e recuperar projectos que a distância geográfica havia interrompido – radicado na Holanda, Gonçalo Almeida escolheu a época do bacalhau e do pery para se reunir a Rodrigo Amado e Marco Franco num concerto na Parede que, pelo número de gente, logo se revelou como um acontecimento especial. O já famoso sótão da SMUP estava à cunha.

Tratava-se de mais uma sessão da Combat Jazz Series promovida pela Clean Feed, editora discográfica agora sediada na vila do concelho de Cascais. A última do ano (22 de Dezembro). Na apresentação, Pedro Costa, o programador, lá foi dizendo que também o jazz tem sempre algo a combater, e que o combate da semana era contra o Banif. Risada geral na sala. Voltou-se a falar da propensão dos contribuintes nacionais para salvar bancos no “encore”, quando Almeida anunciou a “Canção do Banif”: um violento assalto sonoro entre o seu contrabaixo, o sax tenor de Amado e a bateria de Franco que mais parecia o súbito jorrar de sangue de uma jugular aberta na pele da realidade. Quando já não havia mais líquido vital no corpo daquela música a intensidade foi decrescendo, lentamente.

O público aplaudiu, assobiou e gritou com um entusiasmo que não desmereceu daquele que agitara as cadeiras do entretanto desaparecido Dramático de Cascais, ali perto, na altura em que Charlie Haden dedicou o tema “Song for Che” aos movimentos de libertação das ex-colónias, na histórica actuação de Ornette Coleman no primeiro Cascais Jazz.

Gonçalo Almeida

Rodrigo Amado

Marco Franco

Tudo o que acontecera até então tinha arrebatado a assistência. A começar pelo próprio mentor do trio. Almeida demorara-se numa introdução com arco cujos multifónicos quase, quase lembraram o grande Stefano Scodanibbio. O mesmo Almeida deliciou quando, em vez de beliscar as cordas, as premiu como se fossem teclas de piano. E deixou-nos maravilhados todas as vezes que desviava o eixo de rotação das construções musicais ora para o lado do saxofone, ora para o lado da bateria, com as consequentes mudanças de inter-relacionamento instrumental. Muito evidentes ficaram os motivos porque é hoje unanimemente considerado um dos nossos melhores contrabaixistas e um dos improvisadores que, entre nós, mais pensam composicionalmente. Apesar de viver longe.

Rodrigo Amado e Marco Franco estiveram à sua altura, numa noite em que ambos se mostraram particularmente inspirados. Se bem que centrado na sua habitual abordagem por fraseados melódicos, o primeiro parecia querer torcer o saxofone que tinha entre as mãos, torturando-lhe o vibrato, os sobreagudos, os “overtones” e os mais pastosos e rugosos graves que por cá irrompem de um tenor. Pelo meio, deixou-nos ouvir o seu próprio sopro, a acção da saliva, os movimentos da língua, como que expondo o esqueleto de uma escultura. Ia de Sonny Rollins a Albert Ayler como se ambos partilhassem a mesma mãe. Embicou, arrancou o mato que se lhe atravessava no caminho, rasgou a terra e deixou nuvens de pó atrás de si – fez, nem mais nem menos, os melhores solos que lhe ouvimos este ano.

Pelo seu lado, o baterista chegou à essência do seu estilo toca-e-foge, com medidas intervenções e amplo efeito, num autêntico festival de dinâmicas, tempos quebrados, linhas inacabadas e saltos totalmente imprevisíveis. Não lhe bastou dar uma base de tensão aos procedimentos: deu-lhes nervo. Irrequieto, nevrótico mesmo, mas ao mesmo tempo com uma cuidada gestão de movimentos e sons, tornou um discurso todo feito de fragilidades num sustentáculo de força. Foi extravagante e preciso, duas qualidades que habitualmente não se associam. Ele mesmo era a imagem do que fazia, com um barrete enfiado até aos olhos e meias-luvas em que se viam caveiras a sorrir. Acabou em festa, este 2015 de tão boa música na Costa do Sol. Pois, que se lixe o Banif.