Ches Smith / Craig Taborn / Mat Maneri , 19 de Janeiro de 2016

Ches Smith / Craig Taborn / Mat Maneri

Hora e meia de consagração

texto Nuno Catarino fotografia Rosa Reis

O novo grupo que se estreou com o álbum “The Bell” apesentou na Culturgest uma música muito contida e sem grande abertura, mas que convenceu o público com a riqueza dos seus detalhes.

Com um disco acabadinho de editar, o trio constituído por Ches Smith, Crag Taborn e Mat Maneri foi à Culturgest, em Lisboa, no passado dia 17 de Janeiro para se apresentar ao vivo. Nesta sua estreia na histórica editora ECM, na condição de líder, o versátil baterista Ches Smith apresentou com o disco “The Bell” um conjunto de composições originais, desenvolvidas por um trio pouco usual. O Ciclo “Isto é jazz?”, programado por Pedro Costa (Clean Feed), levou ao pequeno auditório uma rara combinação instrumental, juntando a bateria e a percussão de Smith ao piano de Taborn e à viola  de Maneri.

Perante a sala esgotada, o trio tocou um conjunto de composições muito estruturadas, com papéis instrumentais bem definidos. A viola de Maneri surgia como o principal instigador, com o arco sempre muito activo, desenhando as cornucópias das melodias. Num papel mais secundário ficava o piano de Taborn, a assumir uma função estabilizadora – também muito presente, mas mais estático. A percussão de Smith acabava por ser o elemento mais surpreendente, introduzindo mudanças e pormenores, transformando cada tema por dentro.

Se Ches Smith vem desenvolvendo um percurso ímpar como instrumentista - tanto colabora com gente do rock (Xiu Xiu, Secret Chiefs 3, Mr. Bungle) como com nomes grandes do jazz (Tim Berne, John Zorn, Marc Ribot, Mary Halvorson) – isso reflecte-se na sua própria música, que absorve essas múltiplas influências para gerar algo de novo. As composições do baterista são originais, partem de uma toada atmosférica ou minimal, mas podem evoluir para outros ambientes mais densos e, por vezes, até se aproximam da vertigem rock (como no fecho da belíssima “I’ll See You on the Dark Side of the Earth”).

Ches Smith

Craig Taborn e Mat Maneri

Craig Taborn

Por vezes a música soa contida, quase repetitiva, com o trio a esboçar lentamente os rabiscos de uma melodia que vai crescer. Viola e piano combinam inteligentemente, sem se atropelarem. A percussão de Smith, irrequieta, não só provoca, como também fermenta. Já sabíamos da qualidade individual de cada um dos músicos envolvidos, todos eles com provas dadas em múltiplos projectos. Mais importante do que essa confirmação ao vivo, além da mestria instrumental sobressaiu no palco da Culturgest uma perfeita combinação instrumental, com o trio a entrelaçar as contribuições individuais de forma fluída. E cada elemento contribuiu na dose certa, sem exageros, de forma controlada (demasiado controlada?).

O grupo fez uma irrepreensível apresentação ao vivo do disco “The Bell” – que, pela reacção do público, certamente terá vendido alguns exemplares à saída do espectáculo. Não sendo uma música imediata - rica em detalhes, está recheada de deliciosas particularidades -, o material sonoro trabalhado por Ches Smith & comparsas é de absorção lenta, mas extremamente prazenteira. Apesar de tudo, a actuação deixou-nos a pensar: os temas poderão soar demasiado fechados e castradores, faltando alguma liberdade improvisacional (é sempre bom vermos músicos deste nível a explorar sem limites). Ficou também a vontade de ouvirmos Taborn numa toada mais expansiva e com mais espaço (especialmente neste contexto, sem teclados electrónicos, focado apenas no piano clássico).

Para lá destes aspectos de gosto e curiosidade pessoal (sempre discutíveis, naturalmente), facto é que se tratou de uma actuação irrepreensível e que conquistou o público, que aplaudiu entusiasticamente o trio no final da performance. Não chegou a haver “encore”, mas tal não seria necessário: a música apresentada ao longo de cerca de hora e meia bastou para a consagração.