Winter JazzFest , 21 de Janeiro de 2016

Winter JazzFest

Vendaval de jazz em Nova Iorque

texto Carlos Filipe Freitas fotografia Maria Clara Pereira

De 13 a 17 de Janeiro, Nova Iorque foi palco do maior festival de jazz da cidade, estabelecido em 2005 pelos produtores Adam Schatz e Brice Rosenbloom. Cinco dias de concertos à desfilada, muitos deles ocorrendo em simultâneo. A jazz.pt esteve no centro da tempestade (foto acima: George Coleman)…

O primeiro dia do Winter JazzFest arrancou no Le Poisson Rouge, situado na Bleecker Street, cuja ampla sala recebeu três concertos totalmente distintos. Abriram os Happy Apple, trio de Minneapolis que inclui o habilidoso baterista David King, mais conhecido pelo trabalho que desenvolve com The Bad Plus. O trio fez as delícias dos presentes, misturando com peso, conta e medida melodias jazzísticas com ritmos aguerridos de rock. O inventivo baixista Erik Fratzke mostrou-se fundamental nas suas (des)conversações com o baterista, formando um veículo perfeito para a linguagem fluida e conexa do saxofonista Mike Lewis, músico que assegurou mais uns quantos fãs entre os presentes.

Seguiu-se o concerto-choque do festival, proporcionado pelo talentoso, prolífico e versátil baixista Bill Laswell, a quem se juntou o saxofonista Colin Stetson, dono de um som robusto, tanto no sax alto como no baixo, e de um fôlego invejável, ao recorrer à respiração circular para manter as penetrantes e repetitivas texturas que compuseram esta hipnótica “missa negra”. Os músicos criaram um universo fantasmagórico arrepiante, composto por sons guturais de saxofone sobrepostos aos “loops” hipnóticos e cavernosos engendrados por Laswell. Atónito, o público reagiu a este caos ressonante com um misto de admiração e consternação.

David King por Maria Clara Pereira

Bill Laswell por Maria Clara Pereira

Colin Stetson por Maria Clara Pereira

A primeira noite do festival encerrou com o quarteto anarco-punk holandês The Ex, que mesmo entretendo alguns dos presentes com a sua rebeldia, deixou a sensação de que estava totalmente fora de contexto. Aqueles que foram para ouvir jazz, incluindo eu próprio, viraram-lhes as costas. 

Negativo e positivo 

Dois acontecimentos relevantes marcaram o segundo dia do Winter JazzFest, um negativo e outro positivo. Foi com grande tristeza que recebi a notícia de que Kamasi Washington, o espectacular e emergente saxofonista de Los Angeles que no ano passado lançou um álbum épico intitulado precisamente “The Epic”, havia cancelado o seu concerto no Le Poisson Rouge. Motivo: tinha sido submetido a uma cirurgia a um tornozelo partido durante a sua “tour” europeia. A consolação veio com o anúncio de que, no próximo dia 24 de Fevereiro, actuará finalmente em Nova Iorque, com o patrocínio deste mesmo festival.

No entanto, o dia não foi dado como perdido, pois, em parceria com o Winter JazzFest, ocorreu no The Quaker Friends Meeting Hall um concerto de beneficência associado à Disability Pride NYC, organização sem fins lucrativos iniciada pelo pianista Mike LeDonne. Realizado pelo segundo ano consecutivo, este incluiu verdadeiras lendas da “velha guarda” do jazz, caso dos trompetistas Wynton Marsalis e Eddie Henderson, dos bateristas Jimmy Cobb e Louis Hayes, dos pianistas Monty Alexander e Harold Mabern, dos baixistas Bob Cranshaw e Buster Williams, e do saxofonista George Coleman, que com 80 anos, e apesar de fisicamente debilitado (actuou todo o tempo sentado), mostrou ainda possuir um som rico, assente no hard bop.

Buster Williams por Maria Clara Pereira

Participaram ainda outros “monstros” da actualidade, como o guitarrista Peter Bernstein, o baixista John Webber, o pianista Bill Charlap e o saxofonista Joe Lovano, que à última hora substituiu Benny Golson, ausente por doença. O evento, com duração de três horas, foi composto exclusivamente por “standards”, fazendo assim as delícias dos amantes do jazz mais “mainstream”. 

Maratonas

Para abrir a primeira das duas maratonas jazz, cujos concertos decorrem simultaneamente em diversas salas espalhadas por Greenwich Village, optei pelo guitarrista David Torn a solo, que actuou no bonito Tishman Auditorium da New School, cujo palco ficou reservado a artistas ligados à famosa editora alemã ECM. Esta esteve representada pelo seu fundador, Manfred Eicher, presente em ambos os dias. Torn entrou em palco com duas guitarras, mas acabou por só tocar numa, estando mais preocupado em manipular as múltiplas camadas sonoras (criadas através de electrónica) que mais conviessem às suas investidas na guitarra. Inventivo e contemporâneo, sem dúvida, mas sem conseguir impressionar com as suas texturas sem tempo nem espaço, ora calmas e flutuantes, ora abstractas e sofríveis, ora ocasionalmente explosivas e poderosas. Foi um arranque morno e a impaciência fez-se sentir.

No mesmo palco, seguiu-se o quarteto do saxofonista Mike Turner, que interpretou algumas das magníficas composições do seu mais recente álbum ‘Lathe of Heaven’, o primeiro para a ECM. Assim como no disco, Turner fez-se acompanhar pelo trompetista Avishai Cohen, com quem construiu uma agradável e interessante interacção melódica pontuada por motivos rítmicos, e por uma secção rítmica fantástica, composta pelo contrabaixista Joe Martin e pelo baterista Marcus Gilmore. Competente, mas longe de arrebatadora, a actuação decorreu numa toada constante a nível de intensidade, sempre na tentativa de erguer os cenários urbanos que o álbum sugere.

Para variar de ambiente, mudámos para outro palco (também na New School), a fim de assistir ao melhor concerto da noite. Por vezes acusado de enveredar por um estilo mais comercial, o virtuoso contrabaixista Christian McBride mostrou que não estava para brincadeiras e trocou as voltas a quem aguardava o seu concerto com alguma desconfiança. Montando um articulado frenesim swingado juntamente com o superbaterista Nasheet Waits, que nos sacudiu com o seu “groove” incansável e intrincado, McBride teve também no trompetista Josh Evans outro elemento valioso, contribuindo com solos memoráveis para o musculado pós-bop com rasgos de vanguarda. O saxofonista Abraham Burton (substituiu o inicialmente anunciado Marcus Strickland), a optar no último tema por uma improvisação mais “bluesy”, completou o pujante quarteto, que deixou saudades mal o concerto terminou.

David Torn por Maria Clara Pereira

Mark Turner por Maria Clara Pereira

Christian McBride por Maria Clara Pereira

Oscar Noriega por Maria Clara Pereira

David Virelles por Maria Clara Pereira

O multi-instrumentista e compositor Oscar Noriega, altamente requisitado na cena jazz contemporânea (os Snakeoil de Tim Berne e os Endangered Blood com Chris Speed são dois exemplos), foi protagonista de uma excelente actuação no Glass Box Theater da New School. Munido de temas bem trabalhados, vigorosos e criativos, Noriega foi exemplar a comandar e nunca perdeu protagonismo, mesmo tendo ao seu lado um guitarrista incrivelmente expressivo, Brandon Seabrook, que também actuou à parte com os seus Power Plant. Este desdobrou-se em contorções não apenas harmónicas e rítmicas, mas também corporais e faciais, roubando assim a atenção do público que esboçava largos sorrisos ao som do seu “comping” dissonante e por vezes estridente. Trevor Dunn no contrabaixo e Dan Weiss na bateria mostraram porque é este considerado um quarteto de peso.

A primeira noite terminou novamente no palco destinado à ECM, ao som do dotado pianista David Virelles, que apresentou peças do seu novo álbum, “Mbókò”. Dos elementos que participaram no disco apenas esteve presente o cubano Ramon Diaz, na percussão. Ausentes estiveram ambos os baixistas, Robert Hurst e Thomas Morgan, substituídos sem sobressaltos pelo portentoso Matt Brewer, enquanto Marcus Gilmore deu o seu lugar a Eric McPherson na bateria. Bem menos impactantes ao vivo do que em estúdio, os temas de “Mbókò” deixaram a plateia sonolenta. 

A noite mais apetecível 

O polivalente clarinetista, saxofonista e compositor Don Byron foi o escolhido para o começo da noite de sábado, que viria a revelar-se a mais apetecível a nível de concertos. Ao seu bom estilo comunicativo e utilizando uma linguagem solta, Byron começou com uma homenagem a Ornette Coleman, tocando um dos seus temas, e algures no meio do concerto ainda teve tempo para outro tributo, desta feita ao recentemente falecido Allen Toussaint. Participaram da festa o pianista Aruan Ortiz, o contrabaixista veterano Cameron Brown e o baterista Bruce Cox. A prestação teve lugar no Auditório da New School.

Em seguida, regressámos ao Tishman Auditorium para os próximos três concertos. Dono de um vozeirão e de um estilo inconfundível, o cantor Theo Bleckmann criou o seu próprio espaço etéreo, respirável e envolvente, muito graças ao acompanhamento do mais completo guitarrista da actualidade, Ben Monder. As ondas sonoras do guitarrista e os seus notáveis solos combinaram na perfeição com a voz de Bleckmann, que simultaneamente encontrou uma poderosa consistência na base formada pelo pianista Shai Maestro, o contrabaixista Chris Tordini e o sempre impressionante baterista John Hollenbeck.

Quem mais cativou foi o genial saxofonista Chris Potter, tanto no tenor e no soprano como no clarinete baixo, cujo som preciso, incisivo e arrebatador tocou-me na alma. O brilho e a musicalidade das suas composições, associados aos seus improvisos triunfantes, deixaram-me quase sem respiração. As constantes mudanças de ambiência, de um incrível bom gosto, mantiveram o concerto em níveis elevados, sempre numa articulação invejável com os restantes membros da banda. Para contar as suas histórias e levar-nos nesta viagem sonora por paisagens longínquas, através de habilidosos recursos que incluíram padrões e progressões de enorme classe, Potter optou por trazer o pianista David Virelles, que desta vez brilhou, e a secção rítmica que havia acompanhado Mark Turner no dia anterior: Joe Martin e Marcus Gilmore, no contrabaixo e na bateria respectivamente.

Don Byron por Maria Clara Pereira

Theo Bleckmann por Maria Clara Pereira

Joe Martin e Chris Potter por Maria Clara Pereira

Tim Berne e Ralph Alessi por Maria Clara Pereira

Marshall Allen por Maria Clara Pereira

Um dos concertos mais esperados da noite foi o de Tim Berne, prolífico saxofonista de 61 anos que conta com mais de 40 discos gravados como líder e co-líder, e que pratica um jazz moderno e criativo que vive habitualmente de malhas complexas, constantes interacções e polirritmias que tanto podem mover-se em águas serenas e repousantes, como no instante seguinte se transformam em caos agitado e fulminante. Berne, que no passado ano lançou o terceiro disco dos Snakeoil para a ECM, apresentou-se com um novo grupo, baptizado de Sideshow, e estreou três longuíssimos temas, deixando-nos antever o lançamento discográfico para breve deste novo projecto. As composições, essas, não variam muito daquilo que foi descrito acima, mas a banda que serve de veículo para a sua música tem muito que se lhe diga, pois dela participam o trompetista cristalino Ralph Alessi, o pianista imaginativo e intuitivo Matt Mitchell, o engenhoso contrabaixista John Hébert e o seguríssimo Dan Weiss na bateria.

Não poderíamos ter nada mais esplendoroso para acabar a noite do que uma ida à Judson Church, em Washington Square, para ver e ouvir a Sun Ra Arkestra, conduzida pelo maestro e saxofonista alto Marshall Allen, estimulante feiticeiro que, com 91 anos, carrega a banda às costas. A actuação começou com mais de meia hora de atraso devido à complicada organização no palco, o qual  viria a revelar-se pequeno demais para albergar todos os elementos. Jogando com o visual colorido do costume e interpretando temas mexidos e dançáveis, a Arkestra continua a espalhar o seu fascínio pelo espaço cósmico, sempre com um entusiasmo estonteante, flamejantes improvisos e juntando a potente e melodiosa voz da bem disposta vocalista Tara Middleton, que introduz uma boa dose de soul aos ritmos pândegos e indomáveis da orquestra. A exuberância terminou com a maioria dos músicos dançando por entre o público.

O Winter JazzFest encerrou, a 17 de Janeiro, com o Rova Saxophone Quartet no Le Poisson Rouge, contando com alguns ilustres convidados, casos do guitarrista Nels Cline, da harpista Zeena Parkins e do esplêndido baterista Gerald Cleaver. Infelizmente, não me foi possível comparecer a esta prestação, mas tudo o que antes acontecera já me tinha feito perceber que, em Nova Iorque, o jazz está mais vivo do que nunca!