Albert Cirera / Luís Lopes / Hernâni Faustino / Vasco Furtado, 24 de Janeiro de 2016

Albert Cirera / Luís Lopes / Hernâni Faustino / Vasco Furtado

Caramelo a ferver e queda em Marte

texto Rui Eduardo Paes fotografia Vera Valente

O novo projecto da cena “improv” de Lisboa, envolvendo um catalão e três portugueses que não era previsível ouvirmos juntos, actuou na Parede dias depois de ter gravado aquele que será o seu disco de estreia. Entre torrentes de açúcar em ebulição, puseram-nos a imaginar um despenhamento no planeta vermelho. Foto acima: Albert Cirera

Foram duas longas improvisações colectivas que tiveram lugar no sótão da SMUP, a 23 de Janeiro passado, envolvendo quatro músicos de uma nova formação que esteve em estúdio há uns dias para gravar um disco que terá edição ainda este ano. A combinação de intervenientes é surpreendente. Dispostos em cada lado da massa sonora estiveram o saxofonista catalão Albert Cirera, cada vez mais entronizado na cena de Lisboa do jazz e da música improvisada, e Luís Lopes, que com a sua guitarra vem encharcando de rock uma área de intervenção musical que, em tempos, chegou a pretender-se não-idiomática. Ao centro, impondo uma estrutura-base de transe, encontravam-se Hernâni Faustino, cujo contrabaixo vamos ouvindo por todo o espectro de tendências, psicadelismo e pop incluídos, e Vasco Furtado, baterista activo sobretudo no “mainstream” jazzístico que volta e meia ouvimos a tocar sem métricas fixas. A coisa prometia.

E ultrapassou as expectativas. O primeiro “tema” esteve mais conforme com o que é de esperar numa situação em que o adjectivo “free” surge aplicado ao rótulo jazz e este inclui pelo menos um instrumento eléctrico. Uma música mercuriana, incendiária, parecendo caramelo a ferver, que perde em subtileza e capacidade de detalhe o que ganha em catarse. Algo que sabe tão bem quando o que apetece é dar uma pacífica vazão às raivas e frustrações acumuladas no dia-a-dia. Algo de violento, excessivo, radical, dramático, histriónico, histérico até, qualidades de que podemos intelectualmente duvidar, mas de que necessitamos a um nível muito orgânico.

Foi mais óbvia, essa digressão introdutória, porque transpareceu algum alinhamento com o pioneirismo no free jazz eléctrico dos Last Exit de Peter Brotzmann, Sonny Sharrock, Bill Laswell e Ronald Shannon Jackson. Mas se Lopes lembrou mais do que uma vez o Hendrix apunkalhado, prenhe de blues, de Sharrock nesse contexto, a lógica discursiva de Cirera nos saxofones soprano e tenor foi bem distinta do gutural brutalismo do alemão: até a gerir harmónicos estridentes e processos de “overblowing” o pensamento deste é, por um lado, mais geométrico e esquemático, e por outro, mais poético. Daí, aliás, que em vez de lava tenha derramado caramelo. Também queima, este, mas é doce, e mesmo quando o soprador de Barcelona escolhe um registo agressivo há por ali uma fragilidade que se torna sedutora.

Luís Lopes

Hernâni Faustino

Vasco Furtado

Logo nessa primeira intervenção se percebeu a lógica de funcionamento do grupo, tenha ela sido previamente combinada ou não. Faustino e Furtado são o tronco, agindo em bloco, tão próximos um do outro quanto é possível conseguir. Foram maciços, espessos, construindo a cada segundo um”drone” picado que cobria o silêncio com energia. Cirera e Lopes actuaram em contraponto nos extremos deste eixo, elaborando frondosas ramadas de folhas e coloridas florações. Isso ficou especialmente evidente na segunda e ainda mais demorada peça. Talvez porque esta começou mais cá em baixo, em expressão, intensidade e tempo de desenvolvimento, e talvez igualmente porque se quis instalar e manter uma atmosfera, colando-lhe para mais uma narrativa.

Foi a melhor parte do concerto, aquela em que a atenção ao pormenor acrescentou musicalidade ao caos organizado: houve um distanciamento dos figurinos do jazz, do rock e do jazz-rock, bem como a introdução de abstracções texturais, num paisagismo que é raro encontrar neste tipo musculado de criação. A música conquistou uma dimensão visual, cinematográfica, mas não foram vistas terrestres que imaginámos enquanto a guitarra deitada sobre o amplificador soltava efeitos próximos da kosmische musik e o sax gargarejava microtons como se fossem bolas de sabão.

A este ouvidor parecia a banda sonora de um filme mostrando o voo de uma sonda espacial pela topografia de Marte. Primeiro veio uma inebriante sucessão de imagens, com dunas, rochas e colinas a atropelarem-se. Depois, aconteceu o inesperado. A sonda despenhou-se, levantando densas nuvens de poeira vermelha. Quando essa agitação acalmou, o que “vi” foram as estrelas do céu marciano e umas luzes que se aproximaram, a fim de observar a máquina enviada da Terra. Esta foi então desmontada e as suas entranhas estudadas com minúcias de cientista. De repente, e em simultâneo, os quatro improvisadores pararam e logo se desligaram as câmaras. É uma delícia quando o que ouvimos activa a sala de cinema que temos entre as orelhas, e estes quatro conseguiram-no de uma forma inesperadamente natural. Mereceram a salva de palmas que fechou a noite, os gritos de aprovação, os assobios. Agora venha o álbum…