Schnellertollermeier + Carlos Barretto + I/O, 8 de Fevereiro de 2016

Schnellertollermeier + Carlos Barretto + I/O

Parede plural

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

Numa só semana, a SMUP agendou quatro concertos que demonstraram bem a variedade de abordagens que existe nos domínios da improvisação e do jazz. Se a música do duo de Ulrich Mitzlaff e Carlos Santos foi de uma beleza especial, o Solo Pictórico ficará para os anais, pois foi a primeira vez que Barretto tocou na vila em que cresceu. Já o grupo suíço deixou impressões contraditórias.

No espaço de uma semana foram quatro os concertos na área do jazz e da música improvisada que se sucederam na SMUP, cada vez mais de portas abertas a estas e outras tendências da música de hoje. O concerto dos suíços Schnellertollermeier no passado dia 3 não era para acontecer – foi agendado apenas um par de dias antes para mais uma edição da Combat Jazz Series promovida pela paredense Clean Feed, com consequências visíveis ao nível da quantidade de público. E por isso, tocaram também na noite seguinte, em sessão extra, com mais assistência porque quem esteve no primeiro dia falou do que ouviu a outros e o relato suscitou curiosidade – na era da comunicação tecnológica, o boca-a-orelha continua a ser o mais eficaz tipo de divulgação.

Já a actuação, no dia 5, de Carlos Barretto com o seu Solo Pictórico foi uma iniciativa da associação Cultura no Muro e teve um simbolismo especial: o contrabaixista e compositor passou a infância e a juventude na Parede, mas nunca tivera a oportunidade de tocar na vila. Foi como que a reparação de uma injustiça e, como seria de prever, o lendário sótão da casa estava esgotado. Finalmente, a 6, a proposta partiu da própria direcção da Sociedade Musical União Paredense, com o duo I/O, ou seja, o violoncelista alemão, residente em Cascais, Ulrich Mitzlaff e Carlos Santos na electrónica. Logo de uma assentada assistimos a entendimentos muito diferentes tanto da prática da improvisação como do rótulo jazz.

Manuel Toller (guitarra), Andi Schnellmann (baixo) e David Meier (bateria) apresentaram uma fórmula que não é habitual encontrar: a combinação entre um jazz-rock musculado, baseado em “riffs” poderosos e muito inspirado no punk e no psicadelismo, e um abstraccionismo paisagístico, aparentemente de improvisação livre, que denotava a influência de Fred Frith, antigo professor de Toller. O lado “power trio” da equação funcionou excelentemente, confirmando a fama que o grupo trazia consigo, assim como a construção de atmosferas planantes que se iam demorando no ar a partir de uma simples malha de guitarra. Bem menos interessantes foram a vertente free, pouco personalizada, e as transições de uns motivos para outros, revelando algumas incongruências de forma. As secções de um tema não pareciam sê-lo de facto, mas colagens algo despropositadas de várias composições.

Porque de composições se tratava, e o que ia acontecendo em jeito de improviso pareceu contraditoriamente pensado e previsto. As duas opções estéticas que a banda procura reunir numa só, não conseguindo, têm como comum característica a sua visceralidade expressiva, mas surgiram de modo demasiado arrumado e com uma precisão de relógio suíço. O que significa que a música dos Schnellertollermeier não é o que pretende ser, faltando o factor “deixar-se ir” tão essencial para este tipo de abordagem.

A anos-luz, o conceito do Solo Pictórico de Barretto é o que é, e com toda a convicção. Ainda que o mentor dos Lokomotiv procure cobrir vários terrenos, alguns deles bastante distintos entre si, o foco foi o mesmo para todas as peças apresentadas. Estava ele, muito claramente, no elemento performatividade, ou dizendo de outro modo, no propósito de dar fluência interpretativa a uma escrita que é decididamente difícil e muito exigente, inclusive em termos físicos. Fosse para dar a sua própria perspectiva do universo cromático sugerido por Eberhard Weber, utilizando pedais de efeitos com gosto e parcimónia, ou a entrar por domínios assumidamente clássicos, com recorrente uso do arco, a fixar-se em situações de “groove” ou a mesclar os vocabulários dos blues e do fado, Carlos Barretto protagonizou um momento de delicioso despojamento, transformando o seu enorme poder técnico em fragilidade humana.

Expôs-se, em suma, e não há muitos músicos capazes de o fazer com tal grau de honestidade. Mas foi complicado, devido ao comportamento do público. Presentes estavam antigos colegas de escola, amigos e vizinhos que Barretto não via há 40 ou 30 anos, e estes estavam mais empolgados com o reencontro do que com a música. Ouviam-se conversas de fundo («não falem, por favor, dificultam-me a concentração», pediu o contrabaixista em determinada altura), soaram dois telemóveis e houve até quem se pusesse a estalar os dedos fora de tempo. Não eram, visivelmente, pessoas que costumem ir a concertos de jazz. Para algo de tão intimista, a travessia foi bastante acidentada.

Em noite de chuva, a 6, foi a vez dos I/O, com uma electroacústica entre a improvisação experimental e referentes assumidamente clássicos. Ao entrarmos na sala, deparámos com uma instalação. Inclinado sobre uma cadeira, o violoncelo de Ulrich Mitzlaff estava todo ele envolvido em papel de alumínio. Também o monitor do “laptop” de Carlos Santos encontrava-se coberto com o mesmo material. A actuação iniciou-se com o ruído da manipulação concretista (leia-se: à maneira da “musique concrète”) dessas coberturas. O papel foi-se rasgando e entraram finalmente os instrumentos em cena. Um Mitzlaff cada vez mais inventivo desdobrou-se entre preparações das cordas e arcadas com recurso à linguagem da música erudita do século XX e deste nosso, em algumas situações recuando no tempo para recuperar figuras ora de aparência renascentista, ora romântica. Pelo lado de Santos, foram-se sucedendo inteligentes e sensíveis processamentos em tempo real do violoncelo ou de um “piezzo” esfregado na barba, sinusoidais, sínteses e gravações de rua durante um ajuntamento popular.

Foi um concerto curto e as poucas pessoas que acorreram queriam mais, mas o certo é que qualquer acrescento seria redundante e é sempre melhor deixar os ouvintes a ansiar por uma próxima ocasião. Quando se chega a tal índice de beleza, insistir é estragar. O fim chegou com toda a naturalidade, e até aí o que escutámos foi bem especial. Música improvisada com reflexos de prata, elegante, resplandecente, surpreendendo sempre, tão objectiva nos procedimentos quanto variada nos resultados. O ano promete.