Patrizia Oliva / Alessandra Novaga, 23 de Fevereiro de 2016

Patrizia Oliva / Alessandra Novaga

A vermelho e negro

texto João Ricardo fotografia Rui Pinheiro

O duo feminino italiano foi à Sonoscopia, no Porto, fazer uma residência artística que resultou num concerto em que se ouviram instrumentos de tradições perdidas, recuperações do futurismo e do dadaísmo e até usos vocais dos blues e do gospel. Entre a escuridão quase total e iluminação vermelha, foi como aqui se conta…

A italiana Patrizia Oliva regressou à Sonoscopia, acompanhada da também italiana Alessandra Novaga. As duas estiveram em residência artística durante cinco dias naquele espaço do Porto, encerrando a estada com uma apresentação do trabalho desenvolvido no dia 20 de Fevereiro. O ambiente, depois do jantar, ia-se animando por um público bastante heterogéneo (dos 7 aos 70, mais coisa menos coisa), até a música de fundo ser cortada, fazendo antever o início do concerto. Depois foram as luzes, todas. A escuridão só não foi total porque alguma luz da rua conseguiu clarear a sala, ainda que de forma residual.

Ouviram-se os primeiros acordes da guitarra de Novaga, gradual e sucessivamente introduzidos e retirados, aos quais se sobrepuseram as harmonizações ditadas por Oliva. O momento, quase celestial, luminoso e colorido, depressa se tornou confortável. Mas a atracção do doce canto das sereias não passou de um engodo, para logo nos afundarmos. A paz e a calma foram abruptamente interrompidas. Acenderam-se os projectores vermelhos e outra toada tomou conta da audiência. Desafiante para as escutas mais convencionais, este concerto marcou pela constante sucessão de quadros, qual “zapping” televisivo, tal foi a imprevisibilidade dos ambientes e intensidades explorados!

A voz firme e possante de Oliva deambulou pela poesia sonora - marca da vanguarda futurista e dadaísta do início do séc. XX -, percorrendo fonemas do Italiano e do Inglês, e por delírios onomatopaicos. Também houve espaço para indícios de blues/gospel e de canto lírico, sempre complementados pelas reverberações e/ou harmonizações do processador de voz, que nos punham em diferentes dimensões. Imagens de sonambulismo, do onírico distante e sombrio ou do sobrenatural contrastavam com o real e provocatório.

Além da voz, Oliva utilizou também um “waldteufel” (“diabo da floresta”): pequeno tambor de madeira cuja pele é atravessada por um fio agarrado a um pau, produzindo sons reminiscentes do coaxar de um sapo. As cordas arranhadas da guitarra de Novaga confundiam-se com este coaxar, e só o picar das cordas nos dava a entender que se tratava de outro instrumento.

A confusão de timbres não ficou por aqui. Os longos “feedbacks” arrancados pelo alto ganho do amplificador ou dos pedais de distorção, combinaram bem com a voz distorcida, a fazer lembrar longos solos de guitarra eléctrica. Também o bawu (instrumento de sopro chinês de palheta metálica livre, semelhante a uma flauta transversal, com o timbre próximo de um clarinete) e a melódica fizeram parte dos instrumentos eleitos de Oliva.

Além dos pedais criteriosamente seleccionados (e usados), de um “ebow” e de um “slide” metálico, já Novaga surpreendeu quando desligou o cabo da guitarra para o ligar a um gravador de cassetes portátil. Manipulou-o acelerando ou abrandando a velocidade do “playback”, gravou a voz de Oliva em tempo real e com ele arrancou “feedbacks” controlados do amplificador, numa espécie de aceno coreografado.

Mais surpreendente, só mesmo o momento em que, depois de um quadro mais “minimal/glitch” com “loops” vocais, a impecável guitarra Gibson foi graciosamente roçada no chão, para, uma vez mais, aproveitar o alto ganho do amplificador e despejar distorção harmónica sobre o público. Noutra das cenas - bastante hipnótica -, o “ebow” ia excitando as cordas da guitarra, dando origem a um longo “drone”, enquanto iam sendo desafinadas (e novamente afinadas) para se obter o efeito dos batimentos entre semitons. A melódica, entrava e saía, como as ondas do mar.

A “chave de ouro” deste concerto foi a leitura pré-gravada do poema “Alle fronde dei salici” de Salvatore Quasimodo, em Italiano, por um português (também presente na sala). Arrisco decifrá-lo como um repto ao conformismo, ontem, como hoje. E assim acabou este “exercício”, pleno de estranheza inebriante, voluntariamente perverso e assumidamente desafiante.