The Geordie Approach, 25 de Fevereiro de 2016

The Geordie Approach

Do órgão-corpo ao corpo sem órgãos

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

O grupo anglo-norueguês foi à SMUP apresentar a sua música “em transição”, algures entre as lógicas idiomáticas do jazz e do rock e algo que lembrou a explosão da casa filmada por Antonioni em “Zabriskie Point” . Gilles Deleuze teria certamente apreciado.

Noite fria na Parede e pouco público na SMUP para assistir àquele que foi, sem dúvida, um dos melhores concertos que ali tiveram lugar desde o arranque da Combat Jazz Series por mão da Clean Feed. Os anglo-noruegueses The Geordie Approach deram um magnífico exemplo de como a música de arte do nosso tempo segue um impulso que se tornou definitório: a “desterritorialização” das próprias formas e substâncias musicais, para citar um ensaio de Christoph Cox, “How Do You Make Music a Body without Organs? Gilles Deleuze and Experimental Electronica”.

E o curioso é que Chris Sharkey, Peter Frost Fadnes e Stale Birkeland apresentaram essa condição em processo, desenrolando-se diante dos nossos ouvidos e olhos, estando todo o interesse da música que tocam não no ponto de chegada mas na passagem, ou melhor, no lento desenvolvimento de transformação. Explicando: pegaram nos órgãos-corpos da música urbana, fosse um fraseado melódico de saxofone sustentado na tradição do jazz, uma harmonia rock / pop de guitarra ou um “groove” de bateria que poderia pertencer a um ou a outro desses géneros e desintegraram-nos num fluxo electrónico todo ele feito de estilhaços, partículas e poeira, por meio de samplagens e processamentos em tempo real dos sons produzidos pelos instrumentos convencionais e enovelando tudo em ruído eléctrico.

Ou seja, o jazz, o rock e outros elementos idiomáticos (no final foram mesmo disparados “sampes” de hip-hop) foram alvo de uma intervenção ao nível celular de modo a que, a partir de uma música feita de órgãos que pretendem ser a metonímia de todo um corpo, nascesse uma música sem órgãos, um corpo total, sem partes. Precisamente no sentido da fórmula que o filósofo Gilles Deleuze foi buscar ao poeta e dramaturgo esquizofrénico Antonin Artaud : «Quando dele fizeres um corpo sem órgãos / tê-lo-ás dispensado de todas as reacções automáticas / e restaurado nele a verdadeira liberdade.»

Durante o concerto vieram-me à ideia as imagens do filme “Zabriskie Point”, de Michelangelo Antonioni, em que vemos os detritos da explosão de uma casa em câmara lenta. E também as dos lançamentos de foguetões em Canaveral que foram televisionadas pelo mundo inteiro em “super slow motion”, parecendo que os ditos se estavam a desintegrar entre nuvens de fumo. As texturas criadas pelos Geordian Approach evoluíam assim tão lentamente, dependendo mesmo a destruição / construção operada do tempo que levava a definir-se essa música feita de reminiscências, ainda que numa paradoxal busca de indefinição e quase parecendo estática. Escreveu Cox: «Seres, formas e organizações, diz-nos Deleuze, são apenas maneiras com que uma natureza heterogénea e essencialmente fluida é temporariamente contraída, capturada, contida e desacelerada até ao ponto em que o seu movimento se torna imperceptível.»

O curioso é que as improvisações telepáticas dos três músicos ganhavam, por vezes, um carácter a que, por falta de melhor termo, é habitual caracterizar como “orgânico”. O certo é que o “drive”, a entrega, a força, a vitalidade dessas situações não derivavam da manifestação de um qualquer órgão-corpo (o jazz, o rock ou fosse o que fosse de estilisticamente determinante), mas do entrosamento sonoro conseguido e da expressividade dos próprios materiais. Nesses momentos, a música crescia, ganhava cola, levantava voo, demonstrando que abstracção e fisicalidade podem vir aos pares, não sendo a primeira, necessariamente, uma qualidade cerebral. A mente só compreende porque, primeiro, está a pele – é esta que aceita ou não o que vem de fora.

Deleuze apresentou como uma «realidade glacial» os «aluviamentos, sedimentações, coagulações, dobragens e reviramentos» que compõem um organismo «não-formado, não-organizado e não-estratificado» como o do corpo sem órgãos, mas não foi isso, obviamente, o que os presentes no concerto dos Geordie Approach testemunharam. A música destes não é um corpo sem órgãos, mas a transição para tal. As tramas são quentes, fervem – não porque nelas emergem polirritmias (a bateria e algumas intervenções da electrónica) e linhas tonais linear e logicamente estabelecidas (o saxofone alto, por vezes a guitarra), mas porque estas se esfarelam em caos. E o caos, como a ciência demonstrou, é organização.

 Em suma, aquilo que se ouviu na SMUP estava “em acto”, a meio, nessa infindável busca artística, cívica e humana daquilo a que chamamos liberdade. Cívica porque tem implicações sociais e políticas, e daí que esta formação tenha sido incluída num ciclo de concertos que anuncia o seu propósito de combate. De resto, e em tom irónico, Pedro Costa, o programador, dedicou-o no início da actuação à recente votação na Assembleia da República do Orçamento de Estado.