Rescaldo , 1 de Março de 2016

Rescaldo

Avalanche sónica

texto Nuno Catarino

A nona edição do festival programado pelo músico electrónico Travassos, também responsável da editora Shhpuma e “designer” das capas dos discos da Clean Feed, teve como ponto alto um avassalador encontro do saxofonista Peter Brötzmann com o grupo de rock psicadélico Black Bombaim. A jazz.pt foi espreitar…

Para a edição de 2016, a nona, o festival Rescaldo continuou o formato do ano anterior, mantendo a sua base na Culturgest e apresentando ainda uma noite de concertos na ZDB. O Rescaldo decorreu durante cinco sessões, entre 19 e 27 de Fevereiro, e apresentou um conjunto de propostas musicais pouco óbvias, com uma programação que balançou entre o rock experimental, a folk, o jazz e a improvisação.

O arranque fez-se a 19 com dois concertos no pequeno auditório da Culturgest: um solo de Filipe Felizardo, que editou no ano passado “The Invading Past and Other Dissolutions”, e os Ozo, duo de Paulo Mesquita (piano preparado) e Pedro Oliveira (bateria preparada), que editou o seu disco de estreia, “A Kind of Zo”, pela Shhpuma. No dia seguinte actuaram Norberto Lobo (solo) e o trio Timespine (Adriana Sá, John Klima e Tó Trips). No dia 25 o Rescaldo mudou-se para a ZDB, que acolheu as actuações de Acid Acid e Plus Ultra.

O regresso à Culturgest a 26 fez-se num espaço pouco habitual: a garagem. Foi esta que acolheu as actuações de Papaya e de Black Bombaim com o convidado Peter Brötzmann. A noite começou com os Papaya, trio de Bráulio Amado (na voz e no baixo), Óscar Silva (aka Jibóia, na guitarra) e Ricardo Martins (na bateria). O vocalista/baixista, que vestia uma “t-shirt” do candidato presidencial americano Bernie Sanders, liderou a banda num rock bem estruturado e intenso.

Após esse aquecimento, seguiu-se o motivo que tinha chamado a maior parte do público à sede da Caixa Geral de Depósitos: a improvável colaboração dos portugueses Black Bombaim com o veterano saxofonista Peter Brötzmann. O trio de Ricardo Miranda (guitarra eléctrica), Tojó Rodrigues (baixo) e Paulo Gonçalves (bateria) já havia colaborado com outros saxofonistas – o recentemente falecido Steve Mackay (Stooges) e os portugueses Rodrigo Amado e Pedro Sousa, com o norte-americano a surgir no álbum “Titans”, de 2012, e Amado em “Far Out”, de 2014. Contudo, este encontro com Brötzmann, figura tutelar da improvisação europeia, afigurava-se como uma oportunidade única. Tinham estado a ensaiar antes na SMUP, Parede, e seguiriam no dia seguinte para o Porto, a fim de actuarem no Hard Club.

O concerto abriu com o veterano Peter Brötzmann, que aqui se apresentou apenas no saxofone tenor. O alemão arrancou a solo, tocando sozinho durante um ou dois minutos, com o seu rugido habitual. Entrou depois o trio barcelense, com o seu rock pysch/stoner. Ao início a fusão de universos sonoros parecia não funcionar, com cada mundo sonoro distante do outro. O rugido do saxofone parecia não se ligar naturalmente com a energia, o “groove” e o “fuzz” dos Black Bombaim. Contudo, ao segundo tema, já a fusão parecia estar mais próxima.

A apresentação no programa não terá sido a mais correcta: Brötzmann não agiu como convidado da banda; dominou, quase se serviu dos Black Bombaim como banda de suporte. Pelo saxofone tenor cuspiu fogo com a intensidade que lhe é característica, cabendo ao trio encher a base. Se a união parecia improvável, rapidamente passou a soar fluída, com o quarteto em perfeita integração. A avalanche sónica, alimentada pelo saxofone como lança-chamas, bem apoiada pela convulsão rock do trio, acabou por se confirmar como uma feliz parceria.

HHY & The Macumbas por Isabel Correia

O festival fechou no dia 27, sábado, com mais três concertos na garagem da Culturgest: HHY & The Macumbas, Tren Go! Soundsystem e Gala Drop. Os HHY & The Macumbas apresentaram ao vivo uma música estranhamente sedutora. Oriundo do Porto, o grupo reúne músicos da cena experimental nortenha, alguns deles com trajectos no jazz e na música livremente improvisada: João Pais Filipe (bateria), Filipe Silva (maracas), Rui Leal (baixo elétrico), Brendan Hemsworth (conga), Frankão (percussão), André Rocha e Álvaro Almeida (trompetes) e Jonathan Saldanha (eletrónica).

Na garagem da Culturgest, a formação combinou percussões tribais com eletrónicas sujas, cabendo ao par de trompetes cumprir um papel de mini secção de sopros. Se a natureza da música é presumivelmente exploratória, há uma aproximação jazzística que é assumida com a inclusão dos metais, estes funcionando por vezes como contraponto luminoso e em outras ocasiões deixando-se entrelaçar na mescla sonora. A performance física do mestre de cerimónias, aliada ao jogo de luzes, contribuiu para o aumento de tensão. A junção de todos esses elementos resultou interessante e até surpreendente.

A nona edição do Rescaldo fechou com as actuações de Tren Go! Soundsystem e dos versáteis Gala Drop que, concretizando a festa de encerramento, fizeram muita gente dançar.