Slow is Possible, 4 de Março de 2016

Slow is Possible

Lotação esgotada

texto Nuno Catarino fotografia Rosa Reis

O septeto da Beira Interior iniciou na Culturgest uma série de concertos que os levará nos próximos meses a vários pontos do País. O alinhamento do concerto incluiu temas do disco homónimo recentemente editado e uma nova composição. Casa à cunha e entusiasmo do público: temos novos protagonistas nestes tempos particularmente felizes para o jazz nacional.

Para mais um concerto promovido no âmbito do ciclo “Jazz +351”, dedicado ao jazz nacional, a Culturgest acolheu o septeto Slow is Possible. O pequeno auditório foi pequeno para a procura: os bilhetes esgotaram antecipadamente e houve gente que ficou à porta. Ainda no início do seu percurso, o grupo não será ainda muito conhecido - o seu disco de estreia, de título homónimo, foi editado pela JACC Records no final do ano que passou – mas começa a gerar algum burburinho.

O colectivo da Beira Interior foi buscar o seu nome a uma composição de John Cage, “ASLSP (As SLow aS Possible)”, mas a sua música não se fixa num género único. E ao contrário do que anuncia, a música proposta não tem um tempo arrastado (também passa por aí, mas tem outras facetas). A principal característica dos Slow is Possible é, aliás, a versatilidade estilística, a fluidez com que atravessa universos musicais. Um dos motivos será a inusitada combinação instrumental: um saxofone alto, um clarinete, um violoncelo, uma guitarra eléctrica, um piano, um contrabaixo e uma bateria.

Se a natureza dos dois cordofones poderia levar a música a assumir um carácter camerístico, a inclusão de dois sopros acrescenta uma matriz mais jazzística e o acrescento da guitarra aproxima a banda do rock. Não há uma fixação específica em nenhum desses rótulos: os Slow is Possible atravessam-nos com graciosidade. “Chasin’ Bukowski” foi o tema que abriu o concerto na Culturgest, crescendo de forma lenta, assente na melodia circular.

Logo nesse tema inicial foi possível verificar o peso da composição naquela que é uma música superestruturada, onde até os espaços para a improvisação estão fechados. Ao longo da noite o grupo foi exibindo a sua música riquíssima, que combina universos sonoros servindo-se da vasta panóplia tímbrica. Por vezes evocava uma alma cinemática e em outras ocasiões parecia soar a algo de John Zorn. Houve momentos de puro classicismo e também quase que se ouviu rock.

Eles são muitos e merecem ser nomeados: Patrick Ferreira (clarinete), Bruno Figueira (saxofone alto), André Pontífice (violoncelo), João Clemente (guitarra eléctrica), Nuno Santos Dias (piano), Ricardo Sousa (contrabaixo) e Duarte Fonseca (bateria). Todos cumpriram o seu papel com eficiência, ninguém ficando escondido. Todos se envolveram na crescente dinâmica sonora. O grupo destacou-se pela dinâmica colectiva e, sendo difícil fazer algum destaque individual, será mais correcto referir a qualidade instrumental global. E, sobretudo, realçar a fluidez da comunicação musical entre os músicos.

Vivem-se tempos felizes para o jazz e a música improvisada nacionais, com excelentes projectos originais a começarem a ganhar destaque. Estes Slow is Possible merecem também essa distinção.