Ciclo de Jazz da Amadora, 8 de Março de 2016

Ciclo de Jazz da Amadora

Subida de escalão

texto Rui Eduardo Paes fotografia Marta Caeiro e Câmara Municipal da Amadora

O evento promovido pela Câmara Municipal da Amadora e programado pelo Jazz ao Centro Clube levou mais de 700 pessoas aos Recreios da cidade, durante os seus quatro dias de duração. Ricardo Toscano Quarteto, Gera Jazz, Rodrigo Amado Motion Trio e Mário Laginha a solo assinaram o sucesso, numa mostra da variedade do nosso jazz.

Na sua sexta edição, o Ciclo de Jazz da Amadora voltou aos Recreios da cidade, entre os passados dias 2 e 5 de Março, para, numa programação do Jazz ao Centro Clube, voltar a apresentar uma selecção representativa da variedade de abordagens que o jazz feito em Portugal vai tendo. Na sua sexta edição também, ficou patente que esta iniciativa da autarquia da Amadora já tem um público consolidado e que sabe ao que vai. A sala esteve sempre cheia e algumas sessões tiveram até lotação esgotada – houve pessoas que não puderam entrar. Tanto assim que o ciclo contempla agora a necessidade de uma mudança de escala, mudando para festival.

A adesão do público correspondeu ao interesse do programa, entre a abertura com o quarteto do jovem saxofonista-sensação Ricardo Toscano e o fecho a solo com uma das figuras maiores da música nacional, Mário Laginha. Pelo meio estiveram mais uma apresentação (assim foi no ano passado) do Gera Jazz, ensemble de crianças dirigido pelo trombonista e professor Eduardo Lála, e um concerto protagonizado por um dos mais internacionalmente aplaudidos projectos com base no nosso país, o Rodrigo Amado Motion Trio. Sempre com óptimo som e um inventivo desenho de luz. 

Futuro em construção

Gera Jazz

Ricardo Toscano Quarteto 

Ricardo Toscano

O Ricardo Toscano Quarteto entusiasmou os presentes com o seu jazz solidamente alicerçado na tradição, mas revelando a frescura própria de músicos jovens como o próprio líder e os seus companheiros, o pianista João Pedro Coelho, o contrabaixista Romeu Tristão e o baterista João Pereira. Como é habitual com o grupo, o repertório consistiu sobretudo na interpretação de versões próprias de temas de grandes nomes do jazz, e designadamente de John Coltrane, Wayne Shorter, Herbie Hancock e Terence Blanchard, bem como de um “standard” assinado por Cole Porter. A excepção foi uma composição do próprio Toscano, que este apresentou humildemente como «uma melodia de base», mas que resultou num dos melhores momentos da noite.

Ancorada no hard bop, a música que se ouviu não era a que se esperava desse enquadramento, e muito graças ao estilo saxofonístico de Ricardo Toscano, conhecido pela aveludada e elegante tessitura que tira do alto, por vezes lembrando um Paul Desmond e as palhetas do cool. No primeiro par de temas os solos deste não se alongaram – preferiram antes instalar uma ambiência, um som e um foco. Mas depressa o músico levantou voo, sempre com argumentos e técnica para os sustentar. Não sem tirar espaço aos restantes três, e todos eles tiveram oportunidade de ocupar o primeiro plano. Coelho teve, de resto, intervenções solísticas preciosas, comprovando que é um pianista a quem se deve dar particular atenção.

Com Lála nas funções de maestro, a secção jazz da sinfónica Orquestra Geração conseguiu aliar à já testemunhada animação dos seus membros um aumento na qualidade dos resultados. O tipo de trabalho que está a ser desenvolvido com estas crianças de idades compreendidas entre os 6 e os 15 anos depende do tempo e da insistência, e os frutos disso mesmo estiveram patentes. O Gera Jazz mantém alguns dos miúdos que subiram ao palco dos Recreios da Amadora no ano passado e estes evoluíram muito claramente.

Alguns dos pequenos músicos que ouvimos antes já lá não se encontram, mas outros chegaram – aconteceram os desequilíbrios que são de esperar quando os níveis formativos são diferentes, bem como as saídas de tempo ou as fífias que se perdoam a quem está a começar, mas foi um serão de júbilo. Quem sabe se não estavam ali alguns dos músicos que vão definir o jazz português daqui a 20 anos? Foi essa, aliás, a percepção que a numerosa assistência teve: estava a assistir-se à construção do futuro.

Subtileza e intimismo

Rodrigo Amado

Rodrigo Amado Motion Trio 

Mário Laginha

Foi, depois, um Motion Trio diferente daquilo a que estávamos habituados que encontrámos no Ciclo de Jazz da Amadora. O grupo de Rodrigo Amado, Miguel Mira e Gabriel Ferrandini entrou numa fase de inesperada contenção e isso ficou claro neste concerto. Em vez da filosofia “in-your-face” que o caracterizava, com improvisações de extrema energia e agressividade, o free encharcado de pós-bop que pratica desceu de volume e velocidade e ganhou em subtileza, sem nunca comprometer os motivos que levam a designar este tipo de entrega como “fire music”. O lume ficou, apenas, mais brando.

Neste âmbito, Amado pôde dar largas ao típico fraseado melódico do seu saxofone tenor e fê-lo, por vezes, com um lirismo de especial beleza. Mira foi mais do que a rocha maciça habitual, permitindo-se um outro tipo de laboração com o pizzicato contrabaixístico que dedica ao violoncelo. E Ferrandini, mais comedido, mas sempre irrequieto, foi um prodígio nas dinâmicas que subtraiu da bateria. A intervenção de despedida, feita com notas longas, bordões e sustenidos, está entre o melhor a que já assistimos desta trupe. A plateia aprovou, apesar dos contornos menos formais da proposta.

Para o seu solo, Mário Laginha recuperou os temas do álbum “Canções e Fugas” e acrescentou outros, uns pensados originalmente para o formato, outros adaptados a um só instrumento, o seu. De permeio surgiu um par de improvisos, um deles de especial efeito, pela sonoridade e pelo seu plano rítmico, quase percussivo, durante o qual se debruçou sobre as cordas interiores do piano. O primeiro “Fado” que compôs, entre vários intitulados em sucessão numérica, foi recebido com particular agrado. E curiosamente, passou por situações que lembravam tanto o “stride” e o ragtime quanto o género musical de Lisboa, pois a peça explora precisamente as similitudes entre esses géneros musicais.

Se foi transparecendo a importância que o pianista dá à “harmonia portuguesa”, como Ricardo Toscano lhe chama, bem como as suas influências clássicas, a parte mais assumidamente jazz da sessão foi aquela em que tocou “Do Lado de Lá do Oceano”. O intimismo da actuação e o seu carácter de despojamento prenderam o público, silencioso e atento do primeiro ao último minuto, tanto assim que algumas pessoas se incomodaram com os cliques das máquinas fotográficas. Laginha decidira tocar sem microfones, em contexto totalmente acústico, e isso contribuiu para aproximar mais o músico e a música da audiência. Esta aclamou-o de pé, em sinal de respeito e admiração. Foi o final em glória de um evento que se tornou já incontornável.