Belorukov / Liedwart / Rodrigues / Torres, 9 de Março de 2016

Belorukov / Liedwart / Rodrigues / Torres

Espaço::Silêncio::Nota

texto e fotografia João Ricardo

O ranger das cadeiras e os automóveis a passar na rua faziam parte da música. Dois russos e dois portugueses apresentaram na Sonoscopia o seu entendimento da improvisação reducionista, indo do extremo da quietude até ao “feedback” controlado.

No passado dia 6 de Março, o duo russo Belorukov / Liedwart esteve na Sonoscopia para um concerto bipartido. Na segunda parte juntou-se-lhes o dueto português composto por Ernesto Rodrigues e Nuno Torres. No início houve silêncio. Só os sons vindos da rua e a respiração do público o quebravam. O ranger de cadeiras, o deglutir da pessoa ao lado, a fricção dos casacos e uma nota solitária vinda do saxofone, disputavam a atenção dos ouvintes.

Espaço. Mais silêncio e logo outra nota… Mais espaço. Reducionismo. Esta forma de música improvisada, desenvolvida nos finais do séc. XX, caracteriza-se pelo uso de técnicas expandidas, dinâmicas brandas, silêncios, timbres e sons pouco convencionais, microtons, etc. E assim foi. Durante a actuação dos russos, os microtons e os ruídos gerados pelo “laptop” de Kurt Liedwart (controlados por uma mesa / caneta digitalizadora), e as notas do saxofone electronicamente processado de Ilia Belorukov, foram colidindo em suaves sobreposições.

Às modulações resultantes iam-se juntando outros sons, ora fruto do exercício de técnicas extensivas (como o tactear das chaves do saxofone ou os sopros sem nota), ora de origem dúbia e preenchendo o quase-silêncio com ruídos e/ou estalidos permeados por longos silêncios; só raras vezes o volume atingiu níveis mais elevados, sem nunca chegar a ser incómodo. Tons em forma de onda sinusóide foram surgindo aqui e ali, com diferentes afinações e intensidades, e muitas oscilações.

Ernesto Rodrigues

Ilia Belorukov

A dado momento, o paradoxo irrompeu do saxofone: uma excessiva e descontrolada distorção, sempre no limiar do “feedback”, sempre controlada. Também houve tempo para uma surpresa que surgiu já quase no final. Ouviu-se uma gravação de fundo com uma composição, provavelmente barroca (não a reconheci), para contratenor e cravo. O som foi desvanecendo, até ao silêncio. O fim da primeira parte foi proclamado por palmas tímidas e inseguras. Mesmo assim, estas não romperam o semblante estatuário dos músicos. Talvez não tivessem acabado…

Após um curto intervalo para que o duo português se instalasse, o reducionismo continuou. Desta vez, os sons viscerais e da rua não se impuseram. O programa foi mais preenchido e estimulante e muito menos tenso. O jogo proporcionado pelos dois saxofones (Belorukov e Nuno Torres) foi bastante interessante.

As combinações tímbricas, a exploração harmónica, o borbulhar, o atrito do movimento circular de uma lata de refrigerante sobre a campânula do saxofone, as dissonâncias e flutuações, pontuaram sobre os “drones” electrónicos, contrastando com a subtileza da viola de Rodrigues. Os sons mais agrestes com que Ernesto Rodrigues atacou o início do concerto (usou um papel ou folha seca e amassou-a no tampo da viola) ou os harmónicos suscitados com o arco, nunca foram estridentes. Também ele “jogou” com as suas ferramentas e soluções, sendo que as cordas foram só uma parte desse jogo. O corpo da viola foi percutido e tocado com todo o arco (crina, parafuso e vara), e pôde ouvir-se bem a ressonância da madeira.

Depois de uma primeira peça, o quarteto brindou a audiência com uma segunda actuação. O estado meditativo (ou contemplativo) do público foi atirado para o prolongamento.