Luís Lopes, 13 de Março de 2016

Luís Lopes

Catarse sem êxtase

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

O guitarrista de Lisboa apresentou na Parede aquilo que vai fazer durante a digressão que o levará no final deste mês à Rússia e a outros países europeus: improvisação noise a solo. Foi um concerto intenso, com uma trave a cair do tecto devido às frequências agudas da guitarra, mas a que faltou chegar à elevação que se procurava.

Entre nós, o extremo oposto do improvisador Ernesto Rodrigues é o improvisador Luís Lopes, e isso ficou bem claro no concerto a solo que o segundo apresentou a 11 de Março na SMUP. Se Rodrigues reduz o que faz na viola a notas vestigiais e a silêncios habitados, Lopes satura o espaço sonoro com o cortante ruído da distorção guitarrística. Um faz-nos apurar os ouvidos, o outro leva-nos a protegê-los com as mãos. Ou dizendo de outro modo: se Ernesto inclui nas tramas musicais os sons provocados desapercebidamente pelo público e vindos do bulício da rua, Luís cria impactos no meio, agindo sobre este de alguma maneira. Ora no plano físico, pela vibração das paredes e dos corpos, ora idealmente no mental.

Desta vez, durante a sua actuação no já mítico “loft” da instituição paredense, as frequências altas da guitarra de Luís Lopes fizeram com que uma trave do tecto se soltasse e aterrasse bem perto de si. Foi, aliás, muito interessante, do ponto de vista psicossociológico, observar durante o resto da sessão como os olhares dos presentes se erguiam, frequentes e nervosas vezes, para as estruturas de aço e de madeira que suportam o telhado daquele espaço. Quiçá temendo que o mesmo desabasse a seguir por obra e graça do… Som. Assim foi a antestreia daquilo que o líder do Humanization 4tet e do Lisbon-Berlin Trio vai apresentar numa digressão de mais de um mês pela Rússia e por vários países da Europa.

O projecto “Noise Solo” de Luís Lopes não é de agora, mas houve algumas mudanças de vulto na sua natureza. Se antes este lisboeta acrescentava evidentes preocupações de musicalidade à sua adopção do legado de Masayuki Takayanagi (o guitarrista japonês de free jazz que foi um dos principais precursores da chamada “noise music”), tanto assim que a sua estética do ruído convivia com certos aspectos do psicadelismo rock e do punk, agora a abordagem surge totalmente kamikaze. Lopes já não se centra no factor “moldagem” dos fluxos, no jogo de controlo e descontrolo, aleatoriedade e intervenção que o levava tanto a dirigir como a ser dirigido pelo que acontecia. O que lhe interessa agora é provocar situações e deixá-las viver por si mesmas. Vimo-lo a arrastar a guitarra pelo chão, assumindo todas as consequências auditivas e ainda assim indirectamente as determinando, mas também a manter-se de pé, quieto, enquanto o instrumento deitado no solo ia disparando sozinho uma encadeada série de modulações, sempre diferentes e sempre insuspeitas.

Luís Lopes tocou com um sistema estereofónico, entre dois amplificadores com microfones diante deles. Ou seja, enquanto a assistência se ia sentando, no início da performance, já algo estava a passar-se: fritura eléctrica, como que representando a impossibilidade do silêncio. A sua imagem era já um sinal da atitude com que partia: “t-shirt” rasgada, braços cobertos por tatuagens. Umas vezes aproximava-se de um dos amplificadores, outras do outro, debruçando-se sobre eles e sobre os “feedbacks” que assim provocava. Os seus dedos não se limitavam a beliscar as cordas: agitavam-se nos botões da “solid body” ou fechavam-se em torno da guitarra para a dobrar, girar, inclinar, cada gesto traduzindo-se de imediato em mais um efeito auditivo.

O assalto aos tímpanos e às consciências durou meia-hora, uma meia-hora que pareceu muito mais longa, tal a intensidade dada a viver. Foi, talvez, a mais avassaladora de todas as incursões noise de Luís Lopes até à data, aquela em que se experienciou uma mais profunda descarga emocional. Mas… foi bom? Bem, foi, na medida do fascínio que ainda nos continuam a suscitar os sons da electricidade. E na medida, também, em que se tratou de um acto de radicalismo e visceralidade no seio de uma existência quotidiana regulada pela temperança. Faltou, no entanto, que a catarse colocada em cena fosse levada ao cúmulo do êxtase de que Takayanagi era capaz. Acontecerá isso em S. Petersburgo?