Arnold Dreyblatt & Guests, 16 de Março de 2016

Arnold Dreyblatt & Guests

Domingo de sol

texto João Ricardo fotografia Vítor Medeiros

O compositor e contrabaixista norte-americano apresentou-se em Serralves no final da tarde de domingo. Primeiro a solo, sentado diante um computador, e depois tocando o seu contrabaixo. Mais adiante, juntaram-se a ele os portugueses Gonçalo Almeida, José Valente, Jorge Queijo e Sérgio Carolino. Apoteose e palmas incessantes.

No passado dia 13 de Março, Arnold Dreyblatt apresentou o seu trabalho a solo e com alguns convidados no Auditório de Serralves, no Porto. Após uma breve introdução ao programa, ocupou o extremo esquerdo do semicírculo disposto no palco. À sua frente tinha um controlador e um “laptop” para manipular e processar os sons gerados por um dispendioso aparelho de ressonâncias magnéticas (IRM). Este dispositivo usa campos magnéticos e ondas rádio para criar imagens detalhadas de órgãos e tecidos do corpo humano. A vibração resultante produz ruídos de grande amplitude sonora, e ainda que opere em frequências inaudíveis para o ouvido humano, a mudança de gradientes situa-se dentro da banda audível.

Ficou a impressão de que as variações provinham do gesticular de Arnold, qual maestro, diante de uma lente do dito dispositivo, colocado a alguma distância do músico. E assim começou a terapia de choque. Sons ressonantes, maquinais, a fazerem lembrar um compressor de ar ou um gerador eléctrico, faziam ressoar o canal auditivo. Os sons médios e ricos em harmónicos foram crescendo em intensidade, ao ponto de se sentir algum desconforto. Momentos houve em que o registo se aproximou do trânsito caótico de uma grande metrópole, como se se tratasse de buzinas de automóveis a disputarem o espaço, já de si bastante preenchido.

Os sons também se caracterizaram pela riqueza harmónica e, frequentemente, Arnold usou variações de fase derivadas da sobreposição de ondas. Os “loops”, arranjados em tempo real, compostos por “clicks” e “blips” que mais soavam a facas ou tesouras a serem afiadas, quebravam a massa sonora. Seguiam padrões pendulares que foram crescendo ou diminuindo no tempo, para criarem poliritmias entrecortadas por sons próximos de acordes de guitarra eléctrica com distorção. Esta longa e contínua amálgama sonora foi abruptamente interrompida, sinalizando o final da peça. Nos instantes seguintes, os sons ainda ecoavam na cabeça, no corpo, em todo o lado.

Após um curto intervalo, Arnold Dreyblatt regressou a solo para se ocupar do contrabaixo. Começou com o arco friccionado nas cordas, fazendo o instrumento soar a uma serra eléctrica. Depois percutiu as cordas a um ritmo constante, realçando os diferentes harmónicos. Se fechássemos os olhos facilmente imaginávamos tratar-se de um qanun turco, tal era a semelhança de timbre (muito médio/agudo, por oposição ao registo mais grave do contrabaixo). A peça teve uma pulsação quase tribal e à medida que a dinâmica desceu e o passo mudou, foi-nos encaminhando para o fim.

Seguiu-se a apresentação das colaborações com os músicos portugueses. A saber, José Valente na viola - imediatamente ao lado de Dreyblatt -, seguido de Jorge Queijo na bateria, Sérgio Carolino na tuba e, a fechar o semicírculo, Gonçalo Almeida, também no contrabaixo. Após a afinação, Valente iniciou o primeiro tema num andamento rápido e sobre uma nota só. Um crescendo precedeu a entrada de Queijo, que desferiu vários rudimentos no aro da sua tarola. Depois, Almeida dobrou no contrabaixo a viola e Carolino juntou-se à festa. Pela altura em que Dreyblatt entrou já a intensidade era alta, para subir ainda mais. A tuba respondia aos harmónicos de Dreyblatt, os pratos de choque e o bombo iam pontuando com vigor e a apoteose prolongou-se até ao final. A julgar pelo entusiasmo do público, esta segunda parte estaria mais de acordo com as suas expectativas.

Novo tema e fomos presenteados com um raga. O bordão harmónico contínuo, evocativo de uma tampura, foi-se instalando. Ao sinal de Queijo, a tonalidade foi mudando e os sons esparsos de bateria, pratos e gongo resgatavam-nos do transe. Para terminar, os músicos tocaram um tema rock. A euforia emprestada foi contagiante! Os compassos compostos em constante progressão não deixaram ninguém indiferente. À semelhança dos temas anteriores, deve ter sido preparado pelos próprios com a orientação de Dreyblatt. Diga-se que este foi sempre um par, sem nunca reclamar protagonismo. Pena foi que, no regresso ao palco, para agradecer os incessantes aplausos, não tivesse mais um tema na manga.

Como se costuma dizer, depois da tempestade vem a bonança. Assim indiciavam os sorrisos do público à saída, depois de comungarem de uma experiência única neste domingo soalheiro.