Eric Revis Trio / 15º Aniversário da Clean Feed, 18 de Março de 2016

Eric Revis Trio / 15º Aniversário da Clean Feed

Noite de festa

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

A comemoração dos 15 anos de vida da editora portuguesa não podia ter melhor cartaz do que um concerto de Eric Revis, Kris Davis e John Betsch. Cantou-se em uníssono a Pedro Costa e a música entrou num registo de abandono como só se ouve no jazz.

Depois do concerto na Culturgest, e antes de partir para Braga e de, no dia a seguir, se dirigir para Portalegre, o Eric Revis Trio foi à Parede com a ideia de que não se tratava apenas de mais um “gig” da sua minidigressão por Portugal. A actuação na SMUP do contrabaixista que habitualmente acompanha Branford Marsalis com a pianista Kris Davis e o histórico baterista John Betsch, companheiro do desaparecido Steve Lacy durante bem mais de uma década, inseria-se na comemoração dos 15 anos de vida da Clean Feed, a editora que vem publicando o seu trabalho como líder.

Ou seja, esperava-o um ambiente diferente, de festa, e um maior número de público que o habitual. Por isso mesmo, a noite começou no salão, com a música tocada no palco para a plateia, e não dentro do palco, no próprio salão ou no sótão como habitualmente acontece, assumindo os problemas acústicos que esta disposição no espaço tem naquele local. O momento não era para preciosismos sonoros e assim todos o aceitaram, músicos e assistência.

Pedro Costa, o patrão da Clean Feed e programador da Combat Jazz Series (tratava-se de uma sessão especial deste ciclo), fez as apresentações. Lembrou que naquele mesmo dia 16 de Março, em 2001, estava em estúdio com o grupo que gravou o primeiro disco da etiqueta: «Fazia eu nesse dia 32 anos. Hoje faço 47.» A sala cantou os Parabéns em uníssono, numa demonstração do prestígio alcançado por este português que lançou no circuito discográfico, até à data, mais de 400 títulos e conseguiu que a sua editora fosse votada pelos “media” internacionais como uma das três mais importantes de todo o mundo do jazz.

Eric Revis

Kris Davis

John Betsch

Não é um mero “fait divers”: quando se passou para a música propriamente dita foi com uma entrada a solo de Eric Revis em torno da melodia dessa universal cantiga de aniversário, e a mesma melodia voltou a surgir no último tema. Costa tapava a cara com as mãos, emocionado. Quem lhe prestou tributo foram não só artistas publicados pela “label” (por lá se viu Carlos Barretto, Gonçalo Almeida, Rodrigo Pinheiro, Luís Vicente, Hernâni Faustino, Luís Lopes, Gabriel Ferrandini e Pedro Sousa, entre mais) como outros músicos activos na cena nacional (por exemplo, o catalão tornado lisboeta Albert Cirera) e pessoas anónimas.

E o curioso é que, em contexto celebratório, a tónica dominante da prestação do Eric Revis Trio foi contemplativa, deixando as notas pairar dramática mas descansadamente no silêncio. Foi uma refinada lição de como no jazz não é só a entrega que interessa, mas também o abandono. Os três músicos norte-americanos deixaram-se transportar, suspenderam o tempo, contrapuseram a tensão de situações pontuais (sobretudo os solos mais “endiabrados” do próprio Revis e de Betsch) com ambiências, estruturas e motivos distensivos, calmantes e com uma boa dose de introversão. Evocando aquele estado de espírito que o jazz ganhou historicamente por frequentar clubes e bares a altas horas da madrugada, mas levando esse “feeling” de doce entorpecimento a desfechos com um pendor mais “artístico”, não raro acentuados por Kris Davis.

Como nos discos, o trio de piano jazz que Eric Revis trouxe funcionou como uma pirâmide invertida. O piano não estava no alto e o par contrabaixo-bateria não se fixou nos dois lados de baixo do triângulo: era Revis que se posicionava em cima e os outros na base. Ele dava os motes e fornecia o esqueleto, com Betsch a cobri-lo e Davis a acrescentar algo em termos harmónicos e melódicos ou a sair para fora dos enquadramentos. Nos primeiros minutos, esta configuração soou estranha, parecendo que as partes não colavam, mas depressa se assimilou a fórmula e tudo ganhou uma lógica própria. A música do Eric Revis Trio é como que um “mainstream” excêntrico, com factores de liberdade a surgirem precisamente daquele tipo de armação que se julgaria contrariá-la. Nisso, o papel da pianista é fundamental, e foi uma delícia vê-la e ouvi-la a abanar o barco.

No fim, passou-se para o bar do primeiro andar da SMUP, onde se bebeu champanhe e comeu bolo. Os festejos terminaram já muito tarde na noite, entre grande animação e um “DJ set”.