Festa do Jazz do S. Luiz, 22 de Março de 2016

Festa do Jazz do S. Luiz

Caleidoscópio jazz

texto Rui Eduardo Paes fotografia Andreea Bikfalvi, Jessica Cravo e Bruno Saavedra

Mais um ano, mais uma maratona de jazz no Teatro Municipal S. Luiz, em Lisboa. A oferta dada a ouvir entre 18 e 20 de Março era variada e teve momentos de qualidade excepcional. Brilharam o Lisbon Underground Music Ensemble, os Slow is Possible, Susana Santos Silva, JPES Trio, Rodrigo Amado Motion Trio, João Barradas com Greg Osby e TGB.

Numa edição em que a “festa do jazz português” (que já tinha o procedimento habitual de integrar músicos estrangeiros em formações nacionais) abriu as portas a grupos de outros países (caso dos Kuára e, na Pré-Festa, dos Memento e dos Komfortrauschen), a variedade de abordagens do jazz esteve particularmente evidenciada. O cartaz foi do “mainstream” à vanguarda do jazz, com uma grande diversidade de formas de entender a tradição do género pelo meio. Mais uma vez, voltou a haver uma enchente de público, confirmando o estatuto deste festival organizado pela Sons da Lusofonia e programado pelo saxofonista Carlos Martins como um dos mais importantes do País. E como só podia ser, houve apresentações de maior e de menor interesse… 

Bang bang

 Lisbon Underground Music Ensemble

Eduardo Lála (LUME)

João Clemente (Slow is Possible)

Nuno  Santos Dias (Slow is Possible)

Susana Santos Silva

Comecemos este relato pelo grande “bang” da Festa do Jazz de 2016, a 14ª: o regresso ao S. Luiz do Lisbon Underground Music Ensemble de Marco Barroso, nas vésperas de uma digressão europeia que os levará, por exemplo, ao Moers Festival e do lançamento de um novo disco, previsto para o próximo mês de Maio. O repertório era, no essencial, estreante e arrancou com “Astromassa”, uma composição de metal-jazz com os 12 sopros a darem ainda mais densidade e intensidade à música do que o faria uma guitarra em distorção e com a propulsão baterística da melhor das escolhas para a demanda do tipo de energia pretendido, Vicky Marques. O que veio a seguir correspondeu à imagem de marca de sempre do LUME, com elementos da música contemporânea, do funk e da improvisação mais abstracta a despontarem aqui e ali numa concepção orquestral que tem primado pela inovação. Destacaram-se como solistas o saxofonista alto Ricardo Toscano, o clarinetista Paulo Gaspar e os trombonistas Ruben Santos e Eduardo Lála.

Também os Slow is Possible agitaram as águas. Entre temas do seu disco debutante, editado no final do ano passado, e dois inéditos, instalaram uma ambiência cinematográfica com situações musicais que iam do swingante ao camerístico, com passagens pelo rock, em composições que mudavam subitamente de direcção para depois regressarem ao tema ou às suas variantes subtemáticas. E se os tempos lentos faziam jus ao nome do septeto, hipnotizando a assistência, os picos de força provocaram surpreendidos “uus” e assobios. Refrões melódicos sugestivos coexistiram com passagens mais free, num jogo entre acessibilidade e arrojo que distingue o projecto das práticas comuns do jazz que se faz por cá. Os uníssonos e contrapontos entre o sax alto (Bruno Figueira) e o clarinete (Patrick Ferreira) estiveram em evidência, bem como o elemento clássico providenciado pelo violoncelo (André Pontífice), tendo cabido à guitarra de João Clemente “sujar” as paisagens construídas, uma ou outra vez recorrendo ao “feedback”. Andava por ali algum John Zorn, ainda que proactivamente assimilado. Entusiasmo generalizado e ovação de pé no final.

Outro ponto alto da Festa do Jazz foi a apresentação do álbum “Impermanence” por Susana Santos Silva em formato de quinteto. Com um vídeo de Maile Colbert, artista “intermedia” norte-americana residente em Portugal, projectado por trás e transições gravadas de música electrónica, aquilo que faltou – presença – num dos primeiros concertos do projecto em 2015, inserido no Jazz ao Centro, teve merecida correcção. Cartão-de-visita da trompetista enquanto compositora, o jazz geométrico e algo cerebral (no bom sentido, porque conceptual) proposto tem alguns riscos performativos, mas estes foram magnificamente ultrapassados pela trupe que a acompanhou, designadamente João Pedro Brandão no saxofone alto e na flauta, um cada vez mais afirmativo e galvanizante Hugo Raro no piano, Torbjorn Zetterberg no contrabaixo (notável a solar) e Marcos Cavaleiro na bateria. Santos Silva para estar a trilhar um caminho semelhante ao que Peter Evans tem percorrido com o seu octeto, com uma música de personalidade forte e exigindo escuta atenta. 

Improvisação em percentagem

 João Barradas

Sérgio Carolino

Mário Delgado

Dream Keeper

André Fernandes

A actuação do JPES Trio foi igualmente mobilizadora. No início, João Paulo Esteves da Silva informou ao microfone que 95% do que iria acontecer seria integralmente improvisado, havendo a possibilidade de uma peça escrita surgir algures. E assim foi, com esta a soar no final, como uma cereja no topo do bolo. A direcção das situações foi sempre do pianista e este mais uma vez maravilhou, num jorro incessante de ideias, umas levando às outras consoante iam sendo exploradas. O contrabaixista Mário Franco e o baterista Samuel Rohrer estiveram sempre à altura, ora enquanto acompanhantes, ora como interlocutores, não se coibindo de introduzir argumentos na longa intriga sonora que se desenrolava. Esses argumentos eram aceites por Esteves da Silva e por ele levados para os desfechos que (lhe) sugeriam, ou não se tratasse de um improvisador que preza a escuta e o espírito colectivo inerente a este modo de criar música. Novamente, plateia rendida em aplauso.

Como lhe é habitual, o Motion Trio de Rodrigo Amado seguiu a via da improvisação total do primeiro ao último minuto, na circunstância com a adição como convidado de Rodrigo Pinheiro (Red Trio). Mas se recentemente entrou em fase de maior contenção, nesta ida ao Chiado voltou a pegar na fórmula “take no prisoners” que antes caracterizava o grupo do saxofonista com Miguel Mira (violoncelo) e Gabriel Ferrandini (bateria). Bem que Amado iniciou a prestação num registo mais pausado, desenvolvendo o fraseado tonal e melódico do hard bop que lhe é tão característico, mas os seus parceiros envolveram-no numa trama mais rápida, agitada e aberta que acabou por o levar no seu caudal. Manteve-se a evocação rollinsiana do sax tenor, mas a música decorreu febrilmente entre os parâmetros do free jazz e da free music, assim estabelecendo um interessante contraste. Para alguns ouvidos mais condicionados pelo “mainstream” foi demais: os pés conduziram-nos para fora da sala. A maior parte ficou, no entanto, e pelo que a reacção final deixou perceber, com agrado. O convite a Pinheiro justificou-se plenamente: é um dos mais brilhantes dos nossos pianistas e mostrou porquê.

Fresca, intrigante e diferente foi a contribuição de João Barradas para a Festa do Jazz, tendo consigo Greg Osby como estrela solista no saxofone alto e os Directions, a saber, Esteves da Silva, André Fernandes (guitarra eléctrica), André Rosinha (contrabaixo) e Bruno Pedroso (bateria). O primeiro tema foi surpreendente, com o acordeonista e o pianista a repetirem o ritmo da fala de um Osby em entrega “spoken word”, mas se fez prever um seguimento em conformidade, cada adição – de resto tal como o nome do projecto prometia – tomava um caminho distinto. Ouviram-se ecos de Piazzolla, melodias que podiam vir da Europa Central e outras “extravagâncias” composicionais de belo efeito, embora temperadas por um sustentáculo jazz em tudo o resto convencional. Barradas tocou um dos temas num acordeão MIDI, e o que deste irrompeu num fantástico solo improvisado foi… o som de um piano eléctrico. Trata-se de um músico excepcional, e por isso mesmo não precisava de ceder à tentação de um exibicionismo virtuosístico todo ele feito de velocidade. Em oposição, aliás, a um Osby sóbrio e ao serviço do conjunto, mesmo quando solava.

Uma das mais cativantes formações da cena portuguesa, os TGB de Mário Delgado, Sérgio Carolino e Alexandre Frazão, compareceu igualmente à chamada e abanou o público com o seu jazz embebido em rock (e country, e blues, e funk), rico tanto no plano rítmico como nas cantáveis melodias. A tuba de Carolino assumia ambos os papéis, a guitarra de Delgado ora sustentava, ora se colocava em primeiro plano, e a bateria de Frazão teve a medida XXL a que o músico nos habituou. Pena é que o repertório se assemelhasse ao do anterior concerto no festival, para mais sabendo-se que está para chegar, não tarda, disco novo do trio. Foi pena, ainda, que a apresentação de “Dream Keeper” por André Fernandes não tivesse incluído os convidados do álbum recentemente lançado (Paulo Gaspar, Desidério Lázaro, Gonçalo Marques, Marcelo Araújo), o que significou a exclusão da vertente “câmara” que vem no disco. Apesar disso, foi um prazer ouvir o espanhol Perico Sambeat (saxofone alto, flauta) com o guitarrista e compositor, o pianista Óscar Graça (em substituição de Alex Tuomarila), o contrabaixista Demian Cabaud e o baterista Iago Fernández. 

E ainda…

Gileno Santana 

César Cardoso Quarteto

Cinema & Dintorni

Adelino Mota (Big Band da Nazaré)

Kuára

Muito bem esteve o Egli-Santana Group, iniciativa do trompetista Gileno Santana com o suíço Florian Egli (sax alto) e que inclui outros músicos do país dos Alpes. Tivesse o guitarrista, Dave Gisler, saltado para a frente e o jazz discretamente eléctrico e de cunho europeísta do quinteto teria ganho, mas ainda assim foi mais uma demonstração de que deveremos estar atentos ao trabalho em nome próprio do membro da Orquestra Jazz de Matosinhos. O “Bottom Shelf” do César Cardoso Quarteto deixou-nos divididos entre o agrado suscitado pela superior competência instrumental do líder saxofonista e dos seus pares, Bruno Santos (guitarra), Demian Cabaud e André Sousa Machado (bateria), e os resultados demasiado arrumados, limpos e redondos do investimento realizado. O mesmo se poderá dizer do projecto “Cinema & Dintorni” do contrabaixista de Itália, residente em Lisboa, Massimo Cavalli. Com o apoio de Laurent Filipe (trompete), Pedro Santos (acordeão), Ricardo Pinheiro (guitarra) e Jorge Moniz (bateria), as versões apresentadas de conhecidos temas do período de ouro do cinema italiano primaram por algum excesso de formalismo, talvez porque a premissa era converter música programática para o grande ecrã em jazz concertista. Destacaram-se dois arranjos de partituras de Ennio Morricone em abordagem jazz-rock. Pinheiro fez um brilharete.

Integrada por alunos do maestro Adelino Mota, a Big Band do Município da Nazaré apresentou um orquestralismo jazzístico “old school” suportado em interpretações de “standards”, com convidados especiais como as cantoras Mariana Norton e Lúcia Moniz, Sérgio Carolino e o trombonista Rúben Luz, este tomando lugar no naipe de metais durante todo o concerto. Mas quando se instalara a impressão de que a entrega aos originais tinha um cunho algo datado, veio uma surpresa: a execução de uma peça de Daniel Bernardes, com o autor ao piano, de características totalmente diferentes e que constituíram um desafio (ganho) aos jovens músicos. Foi com quatro estudantes premiados no concurso de escolas da edição de 2015 da Festa do Jazz (a saber: Gastão Silva, João Dias, Diogo Alexandre e Manuela Oliveira) que o contrabaixista veterano Carlos Barretto mostrou o que se fez numa residência artística por ele dirigida para o efeito. Na suite preparada durante os dias de laboração conjunta ganhou realce o clarinete baixo de Silva. Fica a curiosidade de saber o que fará este de seguida.

Para o fim deste “report” ficam os Kuára dos finlandeses Markku Ounaskari (piano) e Samulin Mikkonen com o norueguês Trygve Seim. Foi uma actuação açucarada, com dimensão pretensamente espiritual e introspectiva, mas que instalou o tédio devido à repetição, tema a tema, das mesmas estruturas, dos mesmos procedimentos e das mesmas situações, com Seim excessivamente colado a Jan Garbarek (há uns anos não era assim, pelo que se trata de uma escolha) e Ounaskari a Keith Jarrett e John Taylor. O conceito até que é curioso, mas a resolução, decididamente, não funciona. Além dos já referidos Memento e Komfortrauschen, tocaram ainda na Pré-Festa o Carlos Martins Quarteto, o duo de Rita Maria e Filipe Raposo e o Mário Laginha Trio, estes em celebração do 50º aniversário do programa radiofónico 5 Minutos de Jazz, de José Duarte. Para o ano haverá mais, e espera-se que com um cartaz especial, pois a Festa do Jazz fará 15 anos.