Rebelo / Mitzlaff / Franco + Torres / Faustino / Morão, 29 de Março de 2016

Rebelo / Mitzlaff / Franco + Torres / Faustino / Morão

Amêndoas de Páscoa

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

Foram doces, as amêndoas oferecidas pela SMUP em semana de Páscoa. Nuno Rebelo veio de Barcelona para improvisar “sem idiomas” com Ulrich Mitzlaff e Marco Franco, e Nuno Torres, Hernâni Faustino e Nuno Morão apresentaram um free à maneira dos anos 1970, mas com sabor a hoje.

Em semana de Páscoa, o já lendário sótão da SMUP alojou dois concertos de música improvisada com diferentes orientações e também diferentes frequências de público. Na quinta-feira 25 de Março foram muitos os que quiseram assistir a uma das poucas aparições em Portugal do guitarrista Nuno Rebelo, há seis anos radicado em Barcelona. E se muitos eram os que se lembravam do músico nos tempos do grupo de pop-rock Mler ife Dada, as motivações foram ainda, pelos comentários apanhados no ar, o que Rebelo – que vivia bem perto da Parede, em S. Domingos de Rana – fez nos domínios da improvisação e da música para bailado. Neste dia, reencontrava-se com um velho cúmplice nestas áreas, o baterista Marco Franco, tendo o violoncelista Ulrich Mitzlaff como terceiro vértice.

Nuno Rebelo e Igor

Ulrich Mitzlaff

Marco Franco

Foi muito longe de factores idiomáticos (os do rock, linguagem de origem do também antigo mentor do projecto Plopoplot Pot, ou do jazz e da música contemporânea, géneros familiares a, respectivamente, Marco Franco e Ulrich Mitlaff) que decorreu a actuação. O trio favoreceu a criação de texturas e para a manutenção destas recorreu, sobretudo, a abordagens percussivas. Também Rebelo e Mitzlaff foram como que bateristas, submetendo os seus instrumentos à acção de baquetas e das mãos, ora nas próprias cordas, ora, muitas vezes, nas madeiras dos seus instrumentos. Em ambos os casos, igualmente, foi recorrendo a preparações móveis, com vários objectos a serem retirados das mesas aos lados e depois devolvidos à procedência ou atirados ao chão depois de utilizados, que se construíram as intrigas. Muito raramente se ouviram fraseados lineares, pelo que as peças tocadas tiveram um carácter pontilhístico, nervoso e híper-agitado, com pequenos eventos sonoros a enovelarem-se nas construções. Só quando a música pedia um contraste este surgia, sob a forma de uns quantos acordes guitarrísticos ou de umas arcadas de violoncelo.

Se a aparência era a de algum caos, depressa se justificou a definição deste como um tipo de organização: as improvisações tinham uma forma global e dirigiam-se a um rumo. Quando os três músicos davam um tema por findo, em exactíssima simultaneidade, como se tudo estivesse escrito no papel, percebia-se bem o quanto o mesmo dependia de uma escuta mútua e o quanto todos os parâmetros eram controlados. Nessas alturas, Igor, o filho de Nuno Rebelo, abraçava-se ao pai, querendo chamar-lhe a atenção em Catalão ou em Castelhano: «No quiero mas concierto.» Infelizmente para ele, a restante assistência queria. Por causa da música que ia acontecendo e porque a voz única de Rebelo nos vai fazendo falta e esta, todos o sabiam, era uma oportunidade rara para a reencontrar. 

Sábado de aleluia

No sábado 27 («sábado de aleluia», como gracejou Hernâni Faustino ao agradecer uma das entusiásticas ovações de uma plateia que, neste dia, já foi parca) foi a vez de se apresentar a formação em que o contrabaixista do Red Trio surge ao lado de Nuno Torres e Nuno Morão. Naquela que foi, acrescente-se, apenas a segunda prestação pública deste novo projecto. O mesmo vinha com a fama de fazer algo sem igual na cena portuguesa, com a particularidade de as intervenções dos dois Nunos diferir do que habitualmente desenvolvem em outras bandas. E assim foi: o saxofone alto de Torres revelou-se bastante distinto do que encontramos nas suas associações com Ernesto Rodrigues, em contexto reducionista, e a bateria de Morão não seguiu os mesmos parâmetros do seu trabalho experimental com Ricardo Jacinto. O que se ouviu foi o free jazz que o trio de Evan Parker com Buddy Guy e Paul Lytton e o Spontaneous Music Ensemble de John Stevens com Trevor Watts cunharam na década de 1970. Este trio é para a improv “old school” o que é o Ricardo Toscano Quarteto para o pós-bop: uma lufada de ar fresco com formatos da tradição.

Nuno Torres

Hernâni Faustino

Nuno Morão

Não houve solos nem acompanhamento, ou melhor, todos solaram e todos se acompanharam em concomitância e do início ao fim da actuação. De modo extremamente afirmativo, “in-your-face”, sem retiradas de campo nem contemplações. A música subia e descia lentamente e com toda a naturalidade, sem forçar nada, sem entrar em derivações e sem perder o norte, mas com uma agressividade e uma lógica muito próprias. E se a visceralidade de Faustino é já bem conhecida, Torres e Morão como que se revelaram neste contexto de entrega física, inventividade ao segundo e domínio técnico dos instrumentos. O primeiro não se limitou a quebrar ou contradizer ritmos, foi polirrítmico, nem caiu na ratoeira do “tricot” baterístico, e o segundo surpreendeu com o seu som agreste, rouco e cortante, carregado de história mas com ideias próprias. Temos conceito e este exige que fique registado em disco, para que haja amêndoas depois da Páscoa.