Hyperactive Kid, 25 de Abril de 2016

Hyperactive Kid

Caos ordenado

texto João Ricardo fotografia Vítor Medeiros

Mudanças de disposição, impulsividade, inquietude, criatividade, nervosismo: assim foi a música apresentada pelo trio alemão na Porta-Jazz, a 21 de Abril passado, um dos pontos de paragem da sua minidigressão por Portugal. Christian Lillinger esteve em todas, de “breakbeats” a “offbeats”, com Philipp Gropper e Ronny Graupe a resgatarem-no do frenesi.

No passado dia 21 de Abril tivemos a oportunidade de assistir a um dos concertos da estreia em Portugal do trio germânico Hyperactive Kid, integrado na Semana XL da Porta-Jazz. Philipp Gropper no saxofone, Ronny Graupe na guitarra e Christian Lillinger em bateria e percussão abriram com três temas novos de alguma complexidade – dadas as mudanças de tempo constantes - e bastante intricados.O primeiro (depois passariam pelo Salão Brazil, em Coimbra, e pelo Hot Clube de Portugal, em Lisboa) começou com um “drone” de guitarra a que se seguiram laivos de psicadelismo e ruído industrial. Depois… veio a hiperactividade!

De início, apenas as partituras dos músicos nos lembravam que os temas estavam escritos. De facto, entre as muitas metamorfoses estruturais, só a coesão do grupo e a partitura restabeleciam a ordem neste caos tão bem organizado, qual paradoxo! Lillinger parecia uma aranha a tecer laboriosamente a sua teia, de uma malha tão densa que nenhuma da atenção dos presentes lhe escapou. Estava em todas, deambulando dentro e fora do tempo com “breakbeats” e “offbeats”, exibindo uma técnica e um vigor invulgares para um baterista tão novo (tem 32 anos).

Alguns dos sintomas próprios de uma criança hiperactiva estavam lá: a dificuldade em terminar tarefas (sucediam-se as mudanças de disposição repentinas, pois ora era rápido, ora lento, ora confuso, ora concentrado), a procura constante da novidade (aqui, os assessórios usados fomentaram a aventura), a impulsividade e a inquietude, a criatividade acima da média, os tiques nervosos, enfim…

Gropper e Graupe compunham o ramalhete. Ambos emprestaram a calma necessária às composições e resgataram o baterista do seu frenesi, sempre em tempo oportuno. A cumplicidade entre os três é assinalável, ou não tocassem juntos há 13 anos e em diferentes formações. Da guitarra de Graupe soavam dissonâncias, irrompiam escalas e efeitos, sem excessos. Também o saxofone tenor de Gropper foi amaciando os temas ao longo do concerto, sendo que grande parte dos temas tocados era de sua autoria. Momentos houve em que se deu espaço para a exploração dos timbres possíveis e dos truques da praxe. Alguns silêncios tensos foram interrompidos por marcações fortes e assertivas. A entrada e a saída de compassos complexos evidenciavam a facilidade com que toda esta teia se montava e desmontava.

No final, a certeza de que o trio e o público ficaram agradados com o evento e o realce para o contacto que os músicos tiveram com a cena nacional: «Very… interesting», na falta de melhor tradução do termo em Alemão. Uma última nota para as óptimas condições oferecidas pelo Espaço Montepio, dignificantes da celebração do jazz na cidade do Porto. Lamentavelmente, esta parece ser uma solução provisória para a Porta-Jazz. Esperemos que no futuro as entidades competentes não vilipendiem o esforço desta e de outras associações que tanto fazem pela divulgação de outras culturas e contribuem para pôr Portugal no mapa do circuito internacional.