Gil Dionísio / Joana Guerra + Hugo Antunes, 26 de Abril de 2016

Gil Dionísio / Joana Guerra + Hugo Antunes

Partículas, cordas e tudo, tudo

texto Rui Eduardo Paes fotografia Vera Valente

Um solo, um duo e um trio final envolvendo três cordofones, tocados com e sem arco. Um triplo concerto feito de partículas e de cordas projectadas no espaço, sugerindo a Teoria das Cordas no caminho da construção da Teoria de Tudo. Aconteceu na SMUP.

A Teoria das Cordas veio substituir os pontos a que chamávamos partículas por objectos unidimensionais com a designação de cordas, talvez porque com esta imagem é mais fácil observar a propagação dessas cordas no espaço e a sua interacção umas com as outras – os pontinhos têm tendência a provocar formigueiros nos olhos da imaginação, e às tantas já não sabemos onde é que eles se encontram. Esta visão da Física é simpática a quem gosta de ouvir, e de tocar, instrumentos como o violino, a viola, o violoncelo e o contrabaixo, privilegiando a constituição de formações só com esses meios para projectar no plano infinitesimal a específica sonoridade consequente, mas o curioso mesmo é quando a presente música tocada por cordofones volta a entender a realidade como uma emanação de grãozinhos de pó.

Pois foi assim que começou o serão programado pela associação Cultura no Muro para a SMUP no passado dia 22 de Abril, todo ele dedicado às cordas de arco em versão improvisada. A solo, o contrabaixista Hugo Antunes criou um mundo em pizzicato, feito de pequeninos e pontilhísticos pormenores auditivos, um mundo em que mesmo o uso do arco servia para agitar poeiras. Não as veríamos a propagar-se no ar, mesmo que o sótão daquele espaço na Parede estivesse mais iluminado – tudo decorreu na penumbra –, mas ouvíamos, suspensos dos movimentos do músico. Olhos que mexem, à procura, ouvem. Olhos parados não vêem, não chamam os outros sentidos e não fazem coisa nenhuma.

Antunes foi aplicando uma série de objectos às cordas do mais grave representante da família violinística. A esse procedimento damos ainda o nome de “preparação”, embora o seu inventor, John Cage, preparasse o piano para toda uma peça e neste caso as preparações estavam em constante mudança. Podia dizer que até nisso o português estava mais próximo da Física de Partículas do que do Quantum, mas fica a dúvida: acontece que, observada a uma distância maior, uma corda parece-se com uma partícula. Sim, havia uma distância a percorrer entre o público e a música que estava a ser tocada. Esta não se atirava a nós, apelava sim à nossa concentração e à nossa vontade de nos debruçarmos sobre ela. Pois debruçámo-nos, e havia até quem, nas cadeiras, se dobrasse para a frente, juntando o peito às pernas na intenção de não perder pitada.

Conseguida essa ligação, as coisas cresciam. Em dado momento, Hugo Antunes colocou o arco entre as cordas, de modo a a fazer vibrar duas por trás e as outras duas do modo habitual, pela frente, e no espaço soltaram-se densos multifónicos. Cordas quânticas, portanto. Abstractas? Nada disso, mas o contrário: concretas. O concerto que ali se desenrolou foi de música concreta. Mas como, se tínhamos diante da vista a causa dos efeitos, sendo que a “musique concrète” de Pierre Schaeffer e Pierre Henry se caracterizava por não podermos reconhecer o “ataque” dos sons? Bom, porque muito daquele universo sonoro se soltava da identidade – da história – do contrabaixo. As técnicas utilizadas procuravam ultrapassar os limites físicos (corda-partícula-corda) e de vocabulário daquele paquiderme de madeira que nos habituámos a ver-ouvir em contextos bem diferentes, os das orquestras sinfónicas e dos combos de jazz. A prestação foi curta, mas foi boa, e constituiu uma surpresa: nunca ali ninguém tinha assistido a uma actuação tão “fora” da parte de Hugo Antunes.

Foi bem diferente o que veio a seguir, com o duo de Gil Dionísio em violino e Joana Guerra em violoncelo. Ao formato algo estranho de uma música concreta improvisada sucedeu o não mais óbvio de uma música de câmara improvisada. Esta pode ter uma carga de muitos séculos e correspondeu decerto a preceitos convencionais como a tonalidade e o modalismo, mas um novo jogo nos esperava. Ora, pensem num quadro shostakovichiano e acrescentem-lhe motivos melódicos ciganos do Leste europeu ou um fraseado be bop. Pensem em Paganini, em Bartók ou em Stravinsky a darem um golpe de rins na orientação musical para caírem num campo semeado de blues. Já não estávamos em situação de ambiguidade entre partículas e cordas, mas perante forças gravitacionais, gravitons, núcleos, buracos negros.

A música de Dionísio e Guerra é um multiverso, abarcando várias linguagem e vários parâmetros no seu invólucro camerístico. Nunca se sabe o que vem a seguir, apenas que pode nada ter a ver com o que nesse instante apreendemos. Mas não se trata de um esquizoidismo de dimensões cosmológicas, levando-nos da Teoria das Cordas para a Teoria do Caos. Tudo fazia sentido, tudo se remetia, tudo encaixava. Foi curioso atentar nos papéis desempenhados pelos dois improvisadores. A violoncelista era sempre suficientemente aberta e poli-indutora no que fazia para que qualquer coisa, literalmente, se pudesse relacionar com as suas construções. O facto de agir como uma interlocutora activa, não como uma acompanhante, ainda mais salientava a dificuldade da sua posição nas intrigas em desenvolvimento. Assim, cabia ao violinista a assertividade da introdução e da mudança de motivos, mas se este é o tipo de desempenho que define, geralmente, um solista, não era propriamente ele que dirigia.

Quem dirigia a música? Ninguém, a música é que os conduzia a eles. Percebíamos quando esta os arrastava consigo. Curiosamente, isso ficou ainda mais claro na altura em que, nesta segunda parte da sessão, Hugo Antunes se juntou à dupla. A música levou-o logo também no seu fluxo, envolvendo-o nas teias que urdira. Aquele já não era o Antunes que ouvíramos antes, mas uma força suplementar e aumentativa das cordas, na rota de colisão da Teoria de Tudo.