My Friend the Tree, 27 de Abril de 2016

My Friend the Tree

Podíamos chamar-lhes The Schematics

texto Rui Eduardo Paes fotografia João Duarte

O trio formado por Rudi Mahall, Florian Stoffner e Paul Lovens fez uma rápida passagem por Portugal para mostrar a sua improvisação baseada na exploração de esquemas bem urdidos. Fomos ouvi-los a Coimbra, no incontornável Salão Brazil. Uma noite para não esquecer.

Não fosse eles muito provavelmente acharem demasiado determinante e limitativo (uma coisa é ser e outra bem diferente ostentar o que se é num “pin” preso à lapela), bem que o trio de Rudi Mahall, Florian Stoffner e Paul Lovens poderia ter como nome The Schematics. Preferiram o mais ambíguo de My Friend the Tree, não obstante as eventuais conotações ambientalistas. Tivemo-los em Portugal na semana passada, com três concertos, o primeiro no Hot Clube de Portugal, em Lisboa, numa parceria com a Granular, o segundo na portuense Sonoscopia e o último no Salão Brazil, em Coimbra. Fomos a este, a fim de verificar que poeira tinha levantado a rápida passagem por terras nacionais de um grupo que conta com um dos mais importantes bateristas do jazz criativo e da música improvisada europeus, Lovens, e com talvez o mais destacado clarinetista baixo em actividade nestas áreas, Mahall.

Mas porquê The Schematics? Porque a improvisação a que se dedicam é muito baseada em motivos e estes são tratados com a mais crua das abordagens, cada mote ou cada processo surgindo a nu, reduzido ao essencial e muitas vezes esventrado ou virado do avesso, para lhe descobrirmos as entranhas. A música dos My Friend the Tree não podia ser mais acústica, dispensando PA (de eléctrico, no palco, só o amplificador da guitarra sem efeitos de Stoffner), e não podia também ser mais transparente. Não era propriamente o esboço de qualquer coisa, rápida e toscamente desenhado, mas tinha uma estruturação por esquemas, a sucessão destes desenvolvendo-se perante os nossos ouvidos com pormenores de engenharia ou de arquitectura. Encontrar tal tipo de elaboração numa entrega musical tão despojada e tão submetida ao momento foi o primeiro assombro.

Enquanto, no Salão Brazil, Lovens saturava fórmulas percussivas muito específicas, passando para outras conforme as “resolvia”, numa espécie de abstraccionismo figurativo ou de figurativismo abstracto, Stoffner abria este foco para nos oferecer uma ampla praia de timbres, disparando em direcções diferentes e só pecando pelo excessivo encosto à discursividade-tipo de um Derek Bailey, com John Russell nas entrelinhas. E o que fez Mahall no primeiro “set” da noite, dentro deste contexto? Algo que pode ter soado altamente contrastante, mas sublinhou o que estava em causa: agarrou em fraseados do mais rotundo be bop (pensem em Thelonious Monk, em Charlie Parker, em Dizzy Gillespie), desconstruiu-os, explorou as suas implicações, cruzou refrões e remontou de outro modo as partes que tinham sido desmembradas, num delírio picassiano que envolveu perícia cirúrgica e manipulações de laboratório. Em meia hora apenas, o projecto que o suíço Florian Stoffner formou com os dois gigantes alemães pôs de cabeça para baixo os últimos 70 anos da história da improvisação no jazz. Literalmente.

Após o intervalo, foram outros os caminhos percorridos (improvisações curtas desta vez), mas semelhante o esquematismo. Aos 67 anos de idade, com as costas curvadas e algumas dificuldades de deslocação, fruto das muitas décadas percorridas de estrada, Paul Lovens transformou a bateria, diante de nós, num outro instrumento – trabalhou com ritmos, mas não fez acompanhamento rítmico, e somou a melodia ao seu jogo, numa inesperada conexão com as ideias de Max Roach. Apesar de toda a descendência que tem na actualidade (influenciou, por exemplo, o nosso Gabriel Ferrandini), não há ninguém a tocar como ele. Assistimos à sua própria reinvenção, sem que tal significasse um rompimento com as premissas que desde sempre (oiça-se o disco que gravou em 1973 com Alexander von Schlippenbach, “Pakistani Pomade”) foram as suas. Em Coimbra, brilhou muito especialmente.

E não menos entusiasmante foi Rudi Mahall, que nesta oportunidade ouvimos igualmente a tocar clarinete soprano. Com um humor que se traduzia na sua postura em cena e uma enorme reserva de vocabulário, solidamente alicerçada no conhecimento da tradição jazzística e da música clássica, coube-lhe a ele dar folhagem à árvore que ia sendo erguida. Uma folhagem exuberante e exótica, mas prevista, controlada, avaliada de segundo a segundo. Já o líder da formação, Florian Stoffner, mostrou ser o seu elo mais fraco – ainda assim, foi oportuno e imaginativo o quanto baste. Em determinada altura, chegou inclusive a introduzir algum lirismo no fluxo de sons, estabelecendo mais um paradoxo exactamente quando este teria consequência. Sensibilidade tornada ciência e uma noite que os presentes com certeza não esquecerão.