Harris Eisenstadt Canada Day, 3 de Maio de 2016

Harris Eisenstadt Canada Day

Olhos fechados e gritos

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

O grupo do baterista e compositor canadiano veio a Portugal para um par de concertos e a gravação de um disco ao vivo. A jazz.pt foi ouvi-los no segundo dia de passagem pela SMUP, o Dia-em-que-a-Mãe-África-Ressuscitou-em-Nós que era ainda o do Trabalhador e, porque o contexto faz a ocasião, também o Dia do Canadá.

«Mãe, por que é que aquele senhor fecha os olhos quando está a fazer os sons?» A pergunta veio de uma menina que assistia ao segundo concerto dos Canada Day na paredense SMUP, no final da tarde não do Dia do Canadá, mas do Dia do Trabalhador, 1 de Maio. E referia-se ao trompetista Nate Wooley, que na altura fazia um solo de abertura a um tema que lhe chamou particularmente a atenção, pois os tais sons a que aludia lhe terão parecido os que nas suas brincadeiras tirava de um balão. A resposta materna ainda mais a entusiasmou: «É porque está a gostar muito de fazer aquilo, querida.»

Esse foi o momento mais “experimental”, por assim dizer, da actuação do grupo de Harris Eisenstadt nesta vinda a Portugal em formato de quarteto em vez do habitual quinteto – faltavam Chris Dingman e o seu vibrafone. Foi o momento em que Wooley correspondeu mais ao que dele se ouviu em anteriores vindas ao nosso país, pois o resto da prestação foi do mais rotundo jazz. Não os “10% de jazz” das habituais bocas dos conservadores sobre o jazz da actualidade, não jazz em relação com outras músicas urbanas, não jazz com envolvimentos “de câmara” (Dingman, repita-se, não se encontrava presente), mas jazz. Um jazz de continuação dos postulados do be bop e do hard bop, com revisitações tanto do free quanto de referências históricas mais longínquas – a viagem musical de uma hora passou, até, por New Orleans.

Tal como o da noite anterior no mesmo local, não se tratava apenas de um concerto. Os Canada Day vieram gravar um disco, a editar futuramente pela Clean Feed. Os microfones que se viam não eram para amplificação, mas para registo – o técnico de som estava atrás dos estrados de madeira colocados nas traseiras do “setup”, longe das vistas. Na verdade, só o contrabaixo de Pascal Niggenkemper estava ligado à electricidade. Não fora isso e a bateria de Eisenstadt e os sopros de Matt Bauder e do já referido Wooley impedi-lo-iam de se fazer ouvir. Ou seja, tratava-se do velho, glorioso, jazz acústico.

E mais os sopros do que a própria bateria, pois Bauder e Wooley não foram parcos em pujança, energia e expressão. Mas souberam descer na intensidade umas quantas vezes, e se o saxofonista tenor chegou a ímpetos coltraneanos e rollinsianos, para já não referir a guturalidade de um Albert Ayler, que também glosou, foi uma delícia ouvi-lo numa situação à Lester Young, com o seu roufenho instrumento a inocular-se de romantismo.

Foi à frente de todos que escolheram os temas da sessão, com partituras e mais partituras a serem tiradas das resmas e colocadas em reserva. Um divertido Pedro Costa, o programador da Combat Jazz Series (no quadro da qual se inseria a prestação), aguardava que se decidissem, para os poder anunciar. O gracejo era inevitável: «Esperem só um pouco que eles estão aos papéis. Afinal, parece que o jazz não é uma música improvisada.» É sim, e foi sobretudo improvisação o que depois ouvimos, embora enquadrada em peças muito definidas, destinando ao sax e ao trompete uns uníssonos e uns contrapontos melódicos de grande efeito, ao contrabaixo um “riffing” certeiro e à bateria a manutenção de complicadas teias polirrítmicas.

Aliás, eram audíveis no trabalho de Eisenstadt sobre peles e pratos as marcas que ficaram do seu estudo “in loco” da música da África Ocidental, mas não se esperava que as ditas se traduzissem também na vertente composicional. Por duas ocasiões essa referência africana emergiu nos fraseados que eram soprados, com o jazz tocado, já por si “groovy” quanto bastasse, a ganhar uma dimensão gingada e colorida. Canada Day? Dia do Trabalhador? Mais certamente foi o Dia-em-que-a-Mãe-África-Ressuscitou-em-Nós. Uma delas, curiosamente, foi dedicada à marisqueira local, o célebre (perguntem a Joe McPhee, Ken Vandermark, Joe Morris ou Paal Nilssen-Love) Eduardo das Conquilhas, com o nome a ser pronunciado redondamente, como se Harris Eisenstadt ainda estivesse a saborear uma sapateira.

«Ó mãe, e agora por que é que o senhor da trompa deu um grito?», perguntou de novo a criança, minutos depois. A resposta: «Foi porque ainda gostou mais do que estava a fazer. Estava tão contente que teve de gritar» Ela não o fez, envergonhada, mas após a última nota ouviram-se do público adulto outros, muitos, gritos.