Elio Villafranca, 9 de Maio de 2016

Elio Villafranca

Motim jazz

texto Filipe Freitas fotografia Clara Pereira

A jazz.pt foi ao Lincoln Center ouvir o concerto do pianista e compositor cubano em que se prestou homenagem a Cinqué, o líder da revolta dos escravos no navio La Amistad, a mesma que Spielberg levou para o cinema. Uma noite em Nova Iorque com sabores afro-latino-caribenhos .

No dia 16 de Abril, o talentoso pianista e compositor cubano, mas radicado em Nova Iorque, Elio Villafranca, regressou à programação do Jazz at Lincoln Center para apresentar o seu requintado projecto “Cinqué – Suite of the Caribbean”, desta vez a ocorrer no Dizzy’s Club Coca-Cola, local onde em 2014 gravara o seu disco “Caribbean Tinge: Live From Dizzy's Club Coca-Cola”.

Deixando-nos contemplar o céu azul e os imponentes edifícios de Manhattan como pano de fundo, a acolhedora sala foi perfeita para o seu trabalho envolvente, constituído por cinco movimentos que beberam inspiração em Joseph Cinqué, antigo escravo natural da Serra Leoa que liderou o motim de 1839, perpetrado a bordo do navio espanhol La Amistad, acontecimento que foi abordado no drama histórico “Amistad”, realizado por Steven Spielberg em 1997.

Para dar forma à sua obra criativa, o visionário pianista reuniu um conjunto de nove músicos que, com entusiasmo e brilhantismo, interpretaram os seus arranjos. Três deles contribuíram para o disco mencionado acima, casos do saxofonista tenor Greg Tardy, do saxofonista alto e flautista Vincent Herring e do percussionista Jonathan Troncoso. A estes juntaram-se os novos elementos: Todd Marcus no clarinete baixo, Freddie Hendrix no trompete, Joe McDonough no trombone, Ricky Rodriguez no contrabaixo, Jaimeo Brown na bateria, e Arturo Stable na percussão.

Após uma introdução verbal sobre o projecto, o extrovertido Villafranca e a sua banda arrancaram a um tempo médio-lento com o primeiro movimento, “Cinqué – The Capture – Troubled Waters”, delineado através de “grooves” afro-latinos bem balanceados e com leves entoações clássicas no piano, e enriquecido por solos inspirados de Vincent Herring e Greg Tardy, que sabem bem como cativar os nossos ouvidos com o seu som absorvente.

O movimento seguinte, “Maluagda – La Burla de Los Congos – Madre Agua”, introduziu os cantos de Congo tradicionais de San Luiz, reproduzindo um “sample” vocal mesmo no princípio da peça. Villafranca levantou-se da cadeira e começou a proferir a palavra hipnótica «Maluagda», enquanto produziu um tilintar com um instrumento de percussão. O ritmo instalou-se gradualmente e o som, oscilando entre o revigorante e o lamentoso, abriu uma brecha para as improvisações que se sobrepuseram à consistente secção rítmica encabeçada por um piano sonhador. No final do tema, Villafranca dirigiu-se à audiência nestes termos: «Estamos a ir bem até agora?». A resposta foi afirmativa, e sem mais demoras a banda avançou para o movimento seguinte.

Aludindo às plantações de anil e à revolução haitiana, seguiu-se o inflamado “Indigo – Mesi Bondye”, desenhando alternadamente tons íntimos e enérgicos, e surpreendendo os presentes com uma convidada especial, a magnífica vocalista e compositora haitiano-americana Pauline Jean, que subiu ao palco em grande estilo, exibindo um lustroso vestido laranja, e encantando o público com a imponência da sua voz. Este movimento também contou com a participação da lendária bailarina afro-cubana Xiomara Rodriguez.

As improvisações couberam ao trombonista Joe McDonough, que optou por uma abordagem mais tradicional em contexto swing/blues, a Vincent Herring, que munido de um saxofone soprano lançou a sua habitual fluidez bop, e ao clarinetista Todd Marcus, que com robustez injectou um sabor oriental ziguezagueante.

A quarta etapa da suite, “The Night at Bois Cayman – Burn Down the Field”, começou como balada mas cresceu mais rápida e rica à medida que exaltava a conquista da liberdade pelos escravos. Greg Tardy deu início às secções de improvisação, seguido de Freddie Hendrix, cujo solo me lembrou Freddie Hubbard, e finalmente Villafranca, que fez uso de todas as oitavas disponíveis no piano.

O concerto terminou com “Diana – Comparsa”, uma peça jocosa que evocou as festividades cubanas tradicionais de rua. A atmosfera dançável deu asas ao percussionista de topo cubano Arturo Stable, que brilhou instantes antes de podermos ouvir os improvisos veementes do líder do grupo e dos sopros.

Foi um concerto interessante, repleto de indeléveis transições seccionais e extensas variações de ambiente, reflectindo a musicalidade do seu criador. As composições, sempre controladas, nunca permitiram que os solistas soltassem faísca. No entanto, ao manter um firme núcleo a nível estrutural e assentando numa mistura de sabores afro-latino-caribenhos e de jazz contemporâneo, conseguiram envolver-nos na sua teia harmoniosa.