Spinifex, 27 de Maio de 2016

Spinifex

De queixo caído

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

Oriundo de Amesterdão, um dos mais cativantes projectos da actualidade do jazz está em digressão por Portugal e dará ainda um salto à Galiza. Com uma particularidade: o trompetista Luís Vicente junta-se a Gonçalo Almeida, Tobias Klein, Jasper Stadhouders e Philipp Moser nesta investida de metal-jazz pelo lado mais ocidental da Europa. Fomos ouvi-los à Parede e ficámos – todos no público – de boca aberta.

A vinda a Portugal dos Spinifex é, só por si, um acontecimento. Trata-se, sem exageros, de um dos mais impactantes projectos a surgirem na última década, e o facto de a banda ter nascido na Europa (mais exactamente em Amesterdão) e de incluir um português, o baixista Gonçalo Almeida, diz muito não só da universalização deste género musical como do lugar que nela já ocupam os músicos nacionais. Com a particularidade de, nesta digressão que começou na Parede (SMUP, o espaço em que a jazz.pt os apanhou) e em Lisboa (Hot Clube de Portugal), para rumar de seguida a Tomar, Montemor-o-Novo, Porto, Vila Real e Guarda, com um salto à galega Pontevedra, foi o também português Luís Vicente que ocupou o lugar do trompete, na impossibilidade de à trupe se juntar o habitual Gijs Levelt.

E que boa adição está a ser, a de Vicente. Num projecto muito assente na escrita, com “riffs” e um geral “groove” bem marcados e um tão determinante relevo melódico, a que se associam, em cada tema, vários seccionamentos com súbitas mudanças de rumo e não menos frenéticas retomas de parâmetros, não era fácil que um convidado se adaptasse. O certo é que o trompetista de Lisboa fez apenas um pequeno ensaio com o grupo durante o “soundcheck” do concerto na linha de Cascais, o primeiro da “tour”, e imediatamente aderiu à fórmula. Era o único que, no já lendário sótão da “casa da música” paredense, tinha partituras diante de si, mas as circunstâncias justificavam-no plenamente. Em suma, o primeiro factor de assombro a registar desta actuação dependeu todo ele do que fez o membro dos Fail Better!, e tanto no entrosamento com o colectivo e na definição da sua sonoridade global como a solar.

Muitos outros motivos conduziram a esse assombro, fazendo com que a sala enchesse até ficar à cunha, esvaziando o bar do primeiro andar da SMUP. À noite, este é habitualmente ocupado por quem não tem outros planos senão conversar, beber uns copos e jogar “snooker”. O ruído que lhes chegava lá de cima convenceu-os a ir ver o que se passava e muita gente ficou de pé porque já não havia cadeiras. Ouviam-se gritos, assobios e aplausos num crescendo de entusiasmo. O ambiente foi-se tornando cada vez mais eléctrico e vibrante, com os Spinifex a reagirem em conformidade. Não é o que habitualmente acontece ali com um concerto da Combat Jazz Series, mas neste caso há uma explicação. Os jovens que por lá páram são fãs de rock – estiveram em eventos recentes com, por exemplo, 10 000 Russos, The Sunflowers e TV Rural – e os jorros de energia aplicados na música desta formação em que também encontramos o saxofonista alto Tobias Klein, o guitarrista Jasper Stadhouders e o baterista Philipp Moser derivam directamente da introdução de elementos do metal. Em especial os da linha speed metal, caracterizada pela velocidade vertiginosa com que os sons agitam o ar.

Luís Vicente

Gonçalo Almeida

Tobias Klein

Jasper Stadhouders

Mas Spinifex não é só isso. As melodias que utilizam têm inspiração nas músicas tradicionais da Índia e da Turquia, e o seu efeito é contagiante, sobretudo quando irrompem de um “beat” tresloucado de bateria, muita distorção guitarrística e um baixo de marcação implacável. As improvisações de saxofone e trompete em assumido plano free jazz / hard bop e os momentos de abstracção organizada servem ainda mais, por contraste, para as realçar, e a banda tira partido disso. Nenhuma audiência é capaz de resistir a este jogo – quem não gosta de jazz passa a gostar. Cada desenlace era um factor de pasmo adicional: os solos de Klein no alto foram de nos fazer cair o queixo, os padrões rítmicos de Moser e Almeida obrigavam a que as cabeças quase, quase entrassem em “headbanging” e a guitarra de Stadhouders cortava tudo isto como uma faca, fria e sadicamente. Quanto a Vicente, como é possível que tenha “colado” tão bem com tão pouca preparação? Ouvi-lo com Tobias Klein a tornar uma dupla de sopros em todo um naipe de orquestra foi algo de literalmente espantoso.

Pois, os Spinifex estão aí e têm mais meia dúzia de oportunidades de os ouvir no nosso país. Hoje, sexta-feira 27, tocam pela segunda vez no lisboeta Hot Clube, amanhã vão estar nos Lagares del Rey, em Tomar, a 30 rumam até às Oficinas do Convento, em Montemor-o-Novo, a 1 de Junho estarão no Maus Hábitos, do Porto, a 2 no ClubVR de Vila Real e a 3 no Teatro Municipal da Guarda. Na Galiza estarão a 31 de Maio, designadamente no Liceo Mutante, em Pontevedra.