@c, 30 de Maio de 2016

@c

Entre nuvens

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

A dupla do Porto foi à SMUP apresentar a sua música por computador criada com os processos e as estratégias da improvisação. Com projecções de luz e entre nuvens de fumo, fizemos uma viagem em que ouvimos a harpa de Angelica V. Salvi, objectos quotidianos amplificados e até tambores apaches convertidos ao techno.

O duo @c acaba de editar um novo álbum – se as contas não me falham, será o 18º - pela portuense Crónica, “Three-Body Problem”. Nele, ouvimos as participações de algumas figuras do jazz e da música improvisada nacionais, a saber Susana Santos Silva, Angelica V. Salvi, João Pais Filipe e Ricardo Jacinto. Não é de estranhar, 16 anos depois de Pedro Tudela e Miguel Carvalhais terem dado início a este projecto de índole electrónica e electroacústica, situável no âmbito da música exploratória por computador, mas que sempre teve um importante alicerce nos processos e nas estratégias da improvisação. Ao longo deste tempo, foram muitos os músicos que tocam instrumentos convencionais, e que têm percursos nas tendências criadas no momento, que a si associaram.

Numa das raras visitas dos @c à Grande Lisboa, foi na SMUP (Parede) que actuaram no passado dia 28. A sós, com o recém-editado disco debaixo do braço, mas a decisão de não tocarem o que vem no CD, e que consiste na banda sonora do espectáculo “Agapornis”, do Teatro de Marionetas do Porto, e de que o que apresentassem fossem recriações realizadas no próprio instante. Ainda assim, e logo nos primeiros minutos do longo tema inicial de uma série de três, foi a harpa de Salvi (espanhola radicada no Porto que vem dividindo a sua actividade entre as músicas clássica e criativa, neste último caso integrando, por exemplo, o colectivo Pedra Contida e tocando com Marcelo dos Reis) que ouvimos. Funcionou como se algumas figuras surgissem num fresco abstracto, feito de estalidos, crepitações e raspagens de produção digital.

Uma surpresa nos esperava no sótão da Sociedade Musical União Paredense: foi como se entrássemos dentro de uma nuvem. Todo o espaço estava mergulhado em fumo, e mais fumo iria surgir ao longo da noite. A música arrancou com a sala totalmente às escuras, mas entretanto um foco de luz colocado por detrás dos dois músicos começou a projectar uns feixes brilhantes pelo ar, mudando continuamente de forma e indo dos brancos intensos aos cinzentos, para por vezes ficarem apenas suspensos uns finíssimos fios vermelhos ou cor-de-rosa. A dupla quis que o concerto fosse mais do que isso – uma experiência sensorial completa, envolvendo a visão e até o olfacto e o tacto, quando cheirávamos e sentíamos na pele os jorros de fumo que nos envolviam. Para todos os efeitos, Tudela é também um renomado artista plástico e Carvalhais um “designer”, natural sendo que a arte sonora de ambos englobe estes outros parâmetros. Tratava-se, claro, de uma encenação, mas até isso nos lembrou que o primeiro tem igualmente um percurso como cenógrafo de teatro.

A segunda peça foi iminentemente percussiva, abrindo ainda mais o espectro de timbres. Soou como se estivéssemos diante de um ensemble que manipulasse objectos de uso quotidiano munidos de microfones de contacto, ampliando mil vezes pequeníssimos sons que nos passam habitualmente despercebidos, mas julgávamos reconhecer à medida que saíam das colunas. Estes eram embrulhados em “drones” sintéticos, parecendo que estava ali igualmente, transfigurada, toda uma orquestra. De sinfónico, porém, nada subsistia nesta amálgama de elementos que nos deixava a estranha sensação de ser simultaneamente densa e transparente. Uma impossibilidade física, portanto.

Depois, irrompeu um ritmo insistente e compulsivo, com subtis variações apenas. A cadência assemelhava-se à dos tambores apaches numa dança de guerra, mas também havia uma alusão indirecta ao “beat” do techno. Dei por mim a abanar a cabeça, como se este fosse um concerto de jazz ou de rock. Quando Tudela e Carvalhais se afastaram dos “laptops”, no fim, regressámos do estado onírico, hipnótico, irreal, surreal, em que nos encontrávamos, sentados no chão sobre almofadas. Fiquei finalmente a perceber o que significa a expressão “psicoacústica”. Mas que viagem, amigos. Mais um exemplo da música incrível que se está a fazer em Portugal, demos-lhe o nome que quisermos.