Ken Vandermark / Paal Nilssen-Love, 9 de Junho de 2016

Ken Vandermark / Paal Nilssen-Love

Alta voragem

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

Dois dos mais importantes nomes do jazz criativo da actualidade vieram a Portugal entre um concerto em Espanha e outro na Áustria para uma apresentação exclusiva na SMUP. Nada nos preparara para o que se ouviu: um free / hard bop impregnado de funk, rhythm & blues e até house que instalou a festa.

«From Lisbon, Paal Nilssen-Love!» Assim apresentou Ken Vandermark o seu parceiro, numa das pausas entre temas do concerto único que a dupla protagonizou na SMUP no dia 8 de Junho. O motivo parece ter sido compreendido pelo público que enchia o sótão daquele já emblemático espaço da Parede, levando a que o aplauso redobrasse de entusiasmo: o baterista norueguês, membro dos The Thing de Mats Gustafsson e líder da cada vez mais notada PN-L Large Unit, está agora a viver em Lisboa. Aliás, e tal como o saxofonista mais adiante referiu, foi em sua casa na Graça que pernoitou neste salto à capital portuguesa depois de uma actuação em Espanha e antes de partirem ambos para Viena, Áustria, onde os espera um novo “gig”.

É algo a que vamos assistindo já habitualmente: depois de músicos da área da improvisação como Ulrich Mitzlaff (por sinal presente nesta ocasião), Alvaro Rosso, Demian Cabaud, Johannes Krieger, Albert Cirera e Yedo Gibson não terem resistido à “movida” jazzística do nosso país, eis que também temos entre nós aquele que é considerado um dos mais importantes manipuladores de baquetas do planeta. Como disse Paal para a assistência, em jeito de desabafo: «Hoje tenho o prazer de tocar pela primeira vez em Portugal com a minha própria bateria.»

Ou seja, foi em ambiente de boas-vindas que o concerto decorreu, com os presentes a evidenciarem o acolhedor carinho por quem vem de fora que é típico dos portugueses. E que concerto foi! Se se suspeitava que a combinação em causa entre, de um lado, saxofones e clarinete, e, do outro, bateria e umas quantas adições percussivas (seguindo o modelo instaurado pelo disco “Interstellar Space” de John Coltrane e Rashied Ali) resultaria numa explosão free, essa explosão aconteceu mesmo, mas não foi tão free quanto isso. O duo trouxe uns temas, carregou na componente hard bop e encharcou esta de funk, de rhythm & blues e de outras sonoridades de influência afro-americana. Comentava a meu lado o tenor e barítono Pedro Sousa: «Que estranho! Isto parece free house.» Pois parecia…

Em cada peça era o “groove” que imperava, contagiante, alegre, bem-disposto. Por uma vez, o jazz despia-se da sua habitual seriedade para se querer simplesmente divertido. Com o virtuosismo técnico habitual nesta parelha que conta com um longo historial de colaborações em grupos mais alargados, mas colocado ao serviço de uma música celebrativa e de festa. As pessoas abanavam as cabeças e os pés, batiam com as mãos nas pernas, riam-se, ululavam, assobiavam. Se não estivessem sentadas e houvesse espaço, muito provavelmente teriam dançado. A sessão pertencia à Combat Jazz Series da Clean Feed e de Pedro Costa, mas também se combate festejando – como dizia Emma Goldman, «não acredito numa revolução em que não se possa dançar». Sim, Nilssen-Love entregou-se mais ao ritmo do que às texturas abstractas e foi esse papel que Vandermark assumiu muitas vezes. No “encore”, outra surpresa: uma balada muito melódica, para acalmar os ânimos na despedida.

Não foi propriamente um concerto de alta voltagem, até porque nada havia de tecnológico à vista, microfones inclusive, mas foi, sem dúvida, de altíssima voragem. Voragem na assimilação de vocabulários e gramáticas alheios ao jazz, mas seus vizinhos, voragem na atitude extremamente física, voragem na exploração e no tratamento dos sons e voragem finalmente na forma como estes “enfants terribles” do jazz agarraram em nós e fizeram das nossas reacções o que queriam. Um assombro. Paal, fica por cá muito tempo e convence o Ken a deixar Chicago e a montar apartamento à beira do Tejo.