Desvio, 14 de Junho de 2016

Desvio

Sucesso na Parede

texto Nuno Catarino fotografia Carlos Paes

Com a presença de programadores de festivais europeus e alguns dos mais importantes críticos do Velho Continente, a Mostra de Jazzes na Parede levou à SMUP muito público e foi um sucesso. O que se pretendia era exportar a nossa música e essa aposta foi ganha: alguns dos grupos que se apresentaram foram já contratados…

Em paralelo com a realização de um “board meeting” da Europe Jazz Network, organização que reúne os principais programadores de festivais da Europa, a SMUP recebeu no primeiro fim-de-semana de Junho o festival Desvio - Mostra de Jazzes na Parede. Este evento pretendeu funcionar como uma montra do actual panorama jazz português, com o objectivo de promover a internacionalização dos músicos nacionais, mostrando aos visitantes (que incluíram alguns renomados críticos de vários países) a amplitude de propostas existente no nosso país - desde o jazz tradicional até propostas mais experimentais, passando por música totalmente improvisada.

Dinâmica de grupo

Filipe Felizardo 

Hugo Carvalhais

Émile Parisien

Mário Costa

Pedro Sousa

Afonso Simões

Gabriel Ferrandini

Hernâni Faustino e Pedro Sousa

O festival abriu na noite de quinta-feira com a actuação de Filipe Felizardo – continua fresco o duplo LP “Volume IV: The Invading Past and Other Dissolutions” (Three:Four Records). Ainda com pouca gente, o sótão da SMUP recebeu a guitarra imaginativa de Felizardo, que nos levou numa viagem imaginária pelo deserto americano, entre os blues e a manipulação de “feedbacks”, com o auxílio do seu vistoso amplificador.

Seguiu-se, já no palco e com a plateia cheia, a actuação do Nebulosa Trio de Hugo Carvalhais, formação que juntou ao contrabaixista portuense o baterista Mário Costa e o saxofonista francês Émile Parisien. Apresentando um conjunto de composições originais, alternadas com improvisação aberta, o trio exibiu excelente qualidade instrumental e a sua óptima dinâmica de grupo – destaques para a notável prestação de Parisien, que esteve inspiradíssimo, e para um endiabrado solo do baterista.

De regresso ao sótão, actuou um novo trio formado pelo saxofonista Pedro Sousa com o violoncelo de Miguel Mira e a bateria de Afonso Simões. Músicos experientes e bem conhecidos de outras bandas, apresentam neste projecto uma música exclusivamente improvisada, com o som a aproximar-se de um certo free jazz. Os rugidos do saxofone de Sousa puxaram o grupo para a frente, com o violoncelo de Mira sempre agitado (funcionando como um contrabaixo) e a propulsão da bateria de Simões (também motor rítmico dos excelentes Gala Drop). Entre explosões de energia, a formação desenvolveu uma música especialmente intensa.

Também no sótão, tocaram de seguida o baterista Gabriel Ferrandini com Hernâni Faustino (do Red Trio) e, de novo, Pedro Sousa. Este outro trio tem estado a trabalhar no âmbito de uma residência artística promovida pela Galeria ZDB e, apesar de os músicos envolvidos se dedicarem à improvisação total, neste projecto utilizam algumas composições (originais de Ferrandini e também alheias). Começaram por explorar um motivo de forma obsessiva, até que a música foi evoluindo segundo o impulso do momento, em sucessão de crescendos. Destaque para a vibrante intervenção do líder baterista.

Pontos de encontro

Pedro Lopes 

José Bruno Parrinha

Luís Lopes

Ricardo Jacinto

Diogo Duque e João Hasselberg

Bruno Pedroso

Rodrigo Amado

Miguel Mira

O segundo dia de festival, sexta-feira, abriu com uma actuação de Pedro Lopes, a solo, no sótão. Gira-disquista original, Lopes mistura técnicas várias, servindo-se sobretudo de percussão e esculpindo o som de forma orgânica. Lopes fez uma apresentação singular, sendo de assinalar a fisicalidade da performance.

Ainda no sótão, veio depois a combinação instrumental ímpar de Bruno Parrinha, Luís Lopes e Ricardo Jacinto. Com um disco, “Garden”, acabado de editar pela Clean Feed, do violoncelo (sonâmbulo) de Jacinto, da guitarra eléctrica (contida) de Lopes e do saxofone alto (subtil) de Parrinha nasceu uma música original. O trio foge ao cânone típico do free, mas também não encaixa na improvisação “near-silence”: vai por uma via alternativa, criando música dialogante, atenta, que vai procurando pontos de encontro.

De volta ao palco da SMUP, chegou a vez do grupo liderado por João Hasselberg. A curiosidade relativamente a esta prestação foi tanta que o concerto esgotou e a organização teve de abrir o palco e acrescentar cadeiras para dar resposta à procura. Com uma formação ligeiramente diferente daquela que conhecíamos, o contrabaixista e compositor Hasselberg escolheu um conjunto de temas novos (apenas repescou um mais antigo). Saíram guitarra e saxofone, saiu a voz de Joana Espadinha e no lugar desta entrou Beatriz Pessoa. A restante equipa manteve-se: Luís Figueiredo no piano, Diogo Duque no trompete, Bruno Pedroso na bateria. Com o melodismo habitual, as novas composições de Hasselberg balançaram entre a folk e o cinemático, mantendo a mesma irresistível capacidade de sedução. A tapeçaria instrumental esteve impecável e a voz de Beatriz foi uma boa surpresa. A maior parte do público saiu conquistada.

Mudando de registo, o Desvio mudou novamente de lugar: o sótão acolheu o concerto do Rodrigo Amado Motion Trio, que fechou a segunda noite de festival. O saxofonista conduziu o seu trio numa improvisação irrequieta, acompanhado por Miguel Mira (violoncelo) e Gabriel Ferrandini (bateria). Com a ferocidade a que nos habituaram, os três foram tecendo as suas malhas intrincadas num fluxo musical unificado, pontuado por detalhes de grande riqueza.

Final em festa

Luís Vicente 

Jasper Stadthouders

Gonçalo Almeida

Susana Santos Silva

Rodrigo Pinheiro

Sei Miguel

Ricardo Toscano

João Pereira

O sábado, último dia de Desvio, arrancou mais cedo, ao final da tarde (17h00), com a actuação da dupla Vicente/Marjamäki no sótão. O projecto luso-finlandês junta o trompete versátil de Luís Vicente à electrónica flexível de Jari Marjamäki, numa interessante fusão electroacústica. A dupla contou ainda com a participação surpresa do guitarrista holandês Jasper Stadthouders, que acrescentou uma nova dimensão à música.

Já no palco da SMUP apresentou-se ao vivo um outro grupo transnacional, Lama. Os portugueses Susana Santos Silva (trompete) e Gonçalo Almeida (contrabaixo) e o canadiano Greg Smith (bateria, electrónica) fizeram uma exibição de mestria instrumental. O trio, que já tem um longo historial, domina composições e improvisações com a mesma (altíssima) qualidade, exibindo enorme criatividade e flexibilidade. Entre o trompete luminoso de Santos Silva, o contrabaixo forte de Almeida e a percussão criativa de Smith nasceu música brilhante.

Também no palco actuou o Red Trio. A trupe de Rodrigo Pinheiro (piano), Hernâni Faustino (contrabaixo) e Gabriel Ferrandini (bateria) acaba de editar um novo disco, “Summer Skyshift”, gravado com John Butcher. Sempre turbulentos, estes portugueses que reinventaram o trio clássico de piano desenvolveram uma dinâmica crescente. «Inferno, inferno!», dizia um reputado crítico internacional à saída do concerto.

No sótão, o festival prosseguiu com uma rara actuação de Sei Miguel a solo. O nada ortodoxo trompetista explorou um total de seis peças (composições suas, oriundas de diversas épocas) numa actuação absolutamente introspectiva. Nesta performance especial Miguel ia sussurrando no seu tradicional “pocket trumpet” sequências de frases curtas, suficientes para encher toda a sala naquele ambiente intimista.

Para fechar o festival, com o Ricardo Toscano Quarteto, o palco da SMUP viu o número de lugares aumentado, correspondendo à grande procura de bilhetes. Reunindo quatro jovens talentos da cena jazz nacional, este grupo junta Ricardo Toscano (saxofone alto), João Pedro Coelho (piano), Romeu Tristão (contrabaixo) e João Pereira (bateria). Ao primeiro tema o saxofonista mostrou a sua já saliente veia coltraneana, cuspindo fogo e conquistando desde logo o público. Apesar de ter começado a fazer-se notar tocando apenas versões, o quarteto já não se limita ao repertório clássico e começou a apresentar alguns originais – sendo um deles uma bela balada de Toscano. Além do saxofonista, todo o grupo mostrou excelente técnica e sintonia colectiva. Coelho esteve particularmente dinâmico e a dupla rítmica de Tristão e Pereira teve um desempenho impecável, e tanto no suporte como nos solos. Foi um final em festa. Após muitas propostas de jazz aventureiro, o Desvio terminou com jazz mais convencional, muito bem executado.

Programadores, críticos e público anónimo saíram satisfeitos e as primeiras consequências logo se fizeram sentir: alguns dos agrupamentos chamados a mostrar o que valem foram já contratados para tocarem fora do País.