Tomás Tello + Corey Fogel + Ingar Zach, 16 de Junho de 2016

Tomás Tello + Corey Fogel + Ingar Zach

Três em um

texto e fotografia João Ricardo

Três solos com três nomes distintivos da improvisação internacional e três diferentes abordagens da música numa única sessão da série Microvolumes da Sonoscopia. Sons electrónicos misturaram-se com os sons da cidade, uma bateria desfez para tornar a construir e um bombo serviu para criar uma atmosfera de ficção científica. Um final de tarde e um início de noite no Porto.

No passado dia 12 de Junho realizou-se na Sonoscopia (Porto) mais um Microvolumes (o 3.58). Esta edição ficou marcada pela participação de dois percussionistas e de um manipulador de electrónica DIY.

Nascido na cidade de Lima, no Peru, Tomás Tello deu início à tarde de concertos com a apresentação do seu trabalho num dos pátios exteriores. Como nos confirmou no final, aprecia tocar com pouco volume, o que lhe permitiu fundir os sons dos vários dispositivos electrónicos com os sons da cidade. De facto, fez jus ao nome do ciclo [Microvolumes].

Os inúmeros brinquedos, “gadgets”, comandos de TV, máquinas fotográficas e seus “flashes” e uma guitarra semi-acústica magistralmente dedilhada serviram para compor uma paisagem sonora sem qualquer tipo de pretensiosismo. A progressão assentou numa sucessão de camadas de “loops” com sons “lo-fi” misturados com o canto das gaivotas ou dos carros a passar na rua. E quando nos começávamos a habituar, acabou. A actuação durou pouco mais de um quarto de hora.

Seguiu-se Corey Fogel, baterista e performer sediado em Los Angeles. O seu trabalho abrange géneros tão diversos como o rock, o jazz, o noise, a folk e a música de câmara. Fogel, que colabora regularmente com artistas e bandas como Julia Holter, Missincinatti, The Curtains ou Barbez, começou a sua prestação com uma abordagem desconstrutiva. Não terá sido intencional o voo de uma baqueta ou dos arames de uma das escovas, mas até aí tudo soava fora do sítio. Desfazer para voltar a construir…

Depois de pôr a locomotiva em marcha foi difícil pará-la. A experiência proporcionada em tudo se assemelhou à hipnose causada pelo embalo de uma viagem de comboio: os ritmos repetitivos com variações mínimas complementados com os sons que passam, sempre parecidos, mas na verdade, nunca iguais. Além do normal “kit” de bateria, Fogel usou um jogo de chaves estrela e chocalhos para enriquecer a sua paleta sonora. Percorreu trilhos novos e velhos, suaves e fortes, com mais ou menos cascalho. No final suava em bica e percebia-se porquê. O seu solo foi um constante acumular de energia cinética, até se libertar e parar.

Corey Fogel

Tomás Tello

Após um breve intervalo foi a vez de Ingar Zach (foto no topo) nos impressionar com a sua invulgar actuação. O compositor e percussionista norueguês - colaborador de Derek Bailey, Evan Parker, Kevin Drumm, entre outros -, usou um bombo disposto na horizontal (à semelhança do francês Antez) e uma tarola como base do seu arsenal. Começou por fazer vibrar pelo atrito da mão uma baqueta contra a pele do bombo. O movimento compassado fazia soar um grave abafado ao qual se juntava um outro tom, igualmente grave e gerado por um oscilador. O processo era evocativo da zamburra (instrumento tradicional).

Foram vários os objectos que desfilaram em cima das peles, criando texturas singulares. Desde argolas, esferas e correntes metálicas, até um altifalante “bluetooth” a fazer ressoar a tarola com sinusóides e a excitar os objectos nela pousados. Algumas taças tibetanas acrescentaram uma zoeira contínua ao quadro sonoro, enquanto um vibrador rodopiava dentro delas e ia empurrando as esferas metálicas lá colocadas.

O momento mais performativo aconteceu quando Zach utilizou um címbalo de forma pouco ortodoxa. Além de o friccionar com um arco para sacar ressonâncias do bombo (nada de novo aqui), foi o soprar/aspirar através do orifício que criou uma ilusão de vácuo. Ao usar a língua para interromper o fluxo de ar e ostentando o prato à frente da face, fazia-nos crer que estávamos na presença de uma entidade mitológica ou saída da ficção científica, tal foi o efeito.

No final, a sensação de uma tarde bem preenchida, com o público a responder à chamada apesar das “ressacas” pós Primavera Sound e de outras ofertas na baixa da cidade do Porto.