Jazz im Goethe Garten, 19 de Julho de 2016

Jazz im Goethe Garten

Conversas com pássaros

texto Nuno Catarino e Rui Eduardo Paes fotografia Carlos Porfírio

Oito concertos com formações de outros tantos países europeus voltaram a ocupar o jardim do Goethe Institut, em Lisboa, nas duas primeiras semanas de Julho. E desta vez houve músicos que fizeram questão de tocar com as aves que por esta altura do ano ali andam. Reportagem para ler em baixo…

Durante duas semanas, as primeiras do mês de Julho, o Goethe Institut promoveu mais uma edição daquele que se tornou numa referência incontornável para quem quer conhecer o que se vai fazendo de novo no jazz da Europa, o Jazz im Goethe Garten. Ao ar livre, entre árvores exóticas e canteiros de rosmaninho, a música conviveu com as aves que se concentram no jardim daquela instituição situada no Campo dos Mártires da Pátria, em Lisboa. Alturas houve em que músicos e pássaros dialogaram, para divertimento da assistência. Aqui contamos como foi…

Clocks and Clouds

 

Como vem sendo habitual, a edição de 2016 do festival Jazz im Goethe Garten teve início com a actuação de um grupo português. Os Clocks and Clouds reúnem dois membros do Red Trio, Rodrigo Pinheiro (piano) e Hernâni Faustino (contrabaixo), com dois versáteis improvisadores, Luís Vicente (trompete) e Marco Franco (bateria). O quarteto trabalha sobre improvisação livre, sem rede, e no Goethe arrancou com um fluxo comum em alta intensidade. Passados uns 10 minutos o ritmo abrandou: o piano foi explorando sons, com os pássaros a cantar, o trompete respondeu e o grupo alimentou esse diálogo, numa magnífica interacção: músicos e aves juntos num momento belíssimo e pleno de musicalidade. Desde então ficou expressa a versatilidade e a elasticidade do grupo. Ao segundo tema, piano e percussão arrancaram num assumido duo, passando mais à frente a quarteto, com o trompete com surdina. Pinheiro revelou-se especialmente expressivo, trocando argumentos com o trompete, este como que replicando a voz humana. Quer nas passagens mais líricas, quer nas de maior intensidade, houve sempre uma partilha democrática de ideias. (N.C.)

Sputnik Trio

 

Vindo de Espanha, o Sputnik Trio foi uma das boas surpresas desta edição do JiGG, juntando Ricardo Tejero (saxofone), Marco Serrato (contrabaixo) e Borja Díaz (bateria). O concerto começou com o contrabaixo, sozinho, tocado com arco e muito melódico. Entrou depois o saxofone alto, com um som muito claro e, por fim, a segura bateria. Com um fraseado muito desenvolvido, o sax liderou o grupo. Entrando por territórios de pesquisa, o trio desenvolveu uma exploração a ritmo lento, sem a tensão típica do free. Depois acelerou, com o saxofone à frente e propulsão baterística. Passou-se pela exploração de sons atípicos (“guinchos”, saxofone com objectos), com o contrabaixo e a bateria também a serem trabalhados de forma imaginativa. Apesar da natureza improvisada, o som era muito límpido e puro, nada rugoso. A música regeu-se pelas coordenadas de encontro e confronto da improvisação, mas ia sempre regressando aos temas, que serviam como refúgio pontual. (N.C.)

Ambiq

 

Da Suíça chegaram os Ambiq, um atípico trio com Max Loderbauer (sintetizador analógico), Claudio Puntin (clarinete e electrónica) e Samuel Rohrer (bateria, electrónica). Estes tiveram uma abordagem investigativa, construindo curiosos entrelaçados rítmicos. Com ênfase na electrónica orgânica de Loderbauer, o grupo ia desenvolvendo um som retro-futurista. Puntin esteve discreto no clarinete, muito subtil, trabalhando sobretudo com os dispositivos electrónicos. A bateria teve uma função complementar, envolvente. Já no final chegou uma convulsão sónica, com os músicos a alimentarem crescendos enérgicos, em turbilhão. Nesta actuação foi, sobretudo, fascinante assistir às manipulações do sintetizador por Max Loderbauer, que daquela profusão de cabos criava magia sonora. (N.C.)

Hang em High

 

Os Hang em High juntam Bond (baixo eléctrico), Lucien Dubuis (clarinete baixo) e Alfred Vogel (bateria), instrumentistas com um estranho “look” medieval. O trio reclama como referências John Coltrane, Morphine e o heavy metal, o que terá gerado alguma curiosidade. Desde logo mostrou um som pesado, assente num baixo eléctrico muito forte. Também o clarinete baixo se mostrou incisivo, mas a bateria esteve mais dispersa e foi menos intensa. A referência a Morphine, expressa na folha de sala, não é desajustada: ouviram-se algumas colagens directas ao estilo dessa banda de rock. A música era turbulenta, suja, quase Black Sabbath, tendo como base alguns “riffs” acutilantes. Por vezes acrescentava-se alguma electrónica, o que aumentava ainda mais a geral intensidade. Não houve lugar para subtilezas, mesmo nas ocasiões mais lentas, que pecaram igualmente por falta de ideias. Foi uma das propostas menos interessantes de todo o festival. (N.C.)

Journal Intime

Oriundos de França, os Journal Intime são um trio de sopros com Sylvain Bardiau (trompete), Frédéric Gastard (saxofone baixo) e Matthias Mahler (trombone). Também com uma configuração instrumental pouco comum, apostaram na recriação jazzística de temas de base rock, com ênfase em Jimi Hendrix. Os primeiros minutos foram de interve nção livre, mas depressa o grupo estabilizou, entrando num mundo mais reconhecidamente hendrixiano. Embora conceptualmente arrojada na tentativa de transformar rock em jazz, a música acabou por soar pouco sólida, não conseguindo retratar o melhor dos dois mundos. Sem a energia do rock e sem a imaginação do jazz, o trio desaproveitou as nuances e cambiantes instrumentais. A articulação entre os dois metais e o saxofone soava algo imperfeita. Os sopros não se complementavam, como seria desejável, e por vezes até sobrepunham-se e atropelavam-se. Sem um bom aproveitamento da potencial conjugação harmónica, o trio mostrou uma dinâmica pouco articulada. Também foram pouco interessantes os solos, com a compensação de uma criativa exploração das boquilhas. Já no final, no solo inicial do saxofone em “Loverman”, Gastard revelou um interessante “tour de force”. (N.C.)

Gianluca Petrella / Giovani Guidi

 

De Itália chegaram Gianluca Petrella e Giovani Guidi, em trombone e piano respectivamente. O primeiro tema foi uma terna balada, iniciada ao piano e depois “conversada” com o trombone numa ambiência de brilhante lirismo. O segundo tema entrou sem interrupções, mas desta feita numa toada bebop, em velocidade acelerada, com a dupla a exibir a sua destreza instrumental. A seguir, Guidi serviu-se do órgão eléctrico numa toada ambiental, complementada com o discurso melódico do trombone. Petrella e Guidi foram criando, ao longo de todo o concerto, uma grandiosa beleza (perdoe-se a referência cinematográfica italiana), sempre com um agudo sentido de complementaridade e comunicação. Imaginativo, criativo, versátil e sobretudo dialogante, o duo apresentou no jardim do Goethe Institut uma música belíssima e absolutamente memorável. O “encore” com uma versão da bela “You Ain't Gonna Mnow Me 'Cos You Think You Know Me” de Louis Moholo-Moholo, que tem tanto de hino como de celebração festiva, foi a despedida perfeita. (N.C.)

Michel Pilz / Georg Ruby

 

O formato duo repôs-se no dia seguinte com uma representação mista do Luxemburgo (o clarinetista baixo Michel Pilz) e da Alemanha (o pianista Georg Ruby). O primeiro é um músico de pergaminhos internacionais mais do que estabelecidos, mas foi o segundo, sobretudo, que definiu a identidade da música. E fê-lo por meio de um encadeamento de citações estilísticas (e tanto de tendências como de figuras específicas) da história do piano jazz, e não só, numa atitude pós-modernista (leia-se: revisionista) que já vai sendo cansativa. Ruby pegou em Messiaen (talvez motivado pelo excitado canto da passarada que se abriga no jardim do Goethe), “virou” para Bud Powell e Thelonious Monk, saltou para Keith Jarrett, introduziu umas alusões ao velhinho “stride” e desenvolveu / repetiu umas figuras minimalistas com uma desenvoltura que estonteava. Foi divertido tentar identificar cada uma das alusões, mas era Ruby que se queria ouvir e esse não se revelou muito. Já a postura de Pilz foi completamente diferente: esteve igual a si próprio, utilizando o seu instrumento da maneira que o distingue de todos os demais. O que quer dizer que, mesmo em envolvimento de balada, tocou da forma rugosa, ácida e por vezes até áspera que lhe conhecemos. Quem disse que o lirismo tem de ser doce? Michel Pilz dá a esse tipo de abordagem um “pico” e um travo a sal que só o melhora. (R.E.P.)

Grid Mesh

 

Nenhum grande músico pode ser substituído, e a morte no passado mês de Maio do trombonista Johannes Bauer trouxe um problema de continuidade para o quarteto Grid Mesh, ao qual coube fechar o Jazz im Goethe Garten no cumprimento da tradição do festival, estabelecida que está para o fim deste a intervenção de músicos da Alemanha. Não querendo fazer o que Bauer fazia no projecto, e só ele podia fazer, Matthias Muller esteve muito bem. Assistimos a um concerto de música livremente improvisada, mas foi claro que o grupo pega em materiais que escapem aos lugares-comuns habituais nesta área da música, e conseguiram-no nesta ocasião de forma particularmente inventiva. Não sem, pelo caminho, chegarem a situações em que era perceptível uma sensação de dúvida, tipo “e agora, o que fazemos?”. Felizmente, essas fugazes perdas de rumo resultaram na criação de soluções frequentemente brilhantes, não raro com incorporação de elementos do rock. Colectiva, orgânica e muito fluida, a música proposta derivou das articulações conjuntas de Muller com o saxofone alto de Frank Paul Shubert, cabendo ao hiperactivo e sempre diverso Willi Kellers sustentá-los na bateria, e teve Andreas Willers como o “joker” da banda, o seu elemento disruptivo e desestabilizador. Este esteve em todo o lado: desempenhou o convencional papel de guitarrista e utilizou a seis-cordas como um instrumento electrónico, ora tecendo paisagismos aprazíveis, ora levando tudo para os domínios do noise. Os pássaros calaram-se, mas não o público, ou porque a actuação a que assistiam lhes fosse difícil, ou porque ali estavam para o convívio social. (R.E.P.)