Jazz no Parque, 25 de Julho de 2016

Jazz no Parque

Caminhos confluentes

texto João Ricardo fotografia Pedro Figueiredo

Nem o calor, o futebol e os concertos gratuitos nas imediações do Porto demoveram o público a assistir à 25ª edição do ciclo de jazz da Fundação de Serralves. O programa mostrou algumas das muitas tendências do jazz actual, todas elas efusivamente aplaudidas.

O Jazz no Parque completou este ano a sua 25ª edição. Ao longo dos três primeiros domingos de Julho o Ténis de Serralves, no Porto, recebeu as propostas de Rui Eduardo Paes pelo terceiro ano consecutivo. Desenganem-se os que acham que a programação é elitista ou exclusivista. Este ano pudemos assistir a uma mostra bastante diversa dos vários caminhos do jazz, de aquém e além-fronteiras. Assim o testemunhou o público ecléctico que, apesar do bom tempo para ir à praia, da final do europeu de futebol ou da concorrência directa gratuita, não deixou de comparecer.

Piscadela de olho

 

No primeiro domingo, dia 3 de Julho, estiveram em Serralves os brasileiros Ivo Perelman (saxofone tenor), Marcio Mattos (contrabaixo e electrónica) e António "Panda" Gianfratti (bateria e percussão), um trio de improvisadores veteranos que se juntaram pela primeira vez em palco a convite de Rui Eduardo Paes.

Perelman fez soar as primeiras notas e logo se lhe juntaram os companheiros. Tal como a suave brisa agitadora da vegetação do cenário envolvente, foram-nos refrescando com elegantes matizes de formas maleáveis, curvaturas e trajectórias lineares a servirem de base às suas composições instantâneas.Podemos mesmo tecer um paralelo entre os galhos das árvores do parque e as baquetas do baterista, ou entre a cromática das folhas e as notas dos outros dois músicos. Perelman foi aprimorado, Gianfratti activo e Mattos inventivo; piscaram o olho à tradição sem nunca se renderem a ela. Os movimentos eram aparentemente ditados pela telepatia interna do trio numa interacção lânguida (como o estado em que o calor nos tinha), mas com a sinergia necessária para nos manter despertos.

Capacidade de improvisação não lhes faltou e cada peça - fiquei sem perceber se foram várias ou apenas uma! - ofereceu-nos uma perspectiva diferente da complexidade com que nos agraciaram.

Ritmos filigranados

 

No dia 10 de Julho, o projecto Cinematojazzia, de Nani García, auspiciou o resultado por que tantos esperavam: uma vitória de Portugal! A sua música cinemática composta para séries, filmes, animações, etc., foi deliciosamente ornada pelas cordas de um quarteto cubano. A vitalidade e o drama próprio da música para imagem estavam lá, depois enriquecidos com os ritmos filigranados de Miguel Cabana, baterista do trio de García, e com o contrabaixo latino de Simon García, também membro do mesmo trio.

O ambiente oscilou entre o belo e o festivo, com o público a precipitar-se em palmas para acompanhar o grupo. Esta terá sido a proposta mais acessível de todo o festival.

Doce irreverência

 

No dia 17 de Julho foi a vez de os Slow is Possible subirem ao palco, seguindo-se-lhes o Red Trio com o guitarrista finlandês Raoul Bjorkenheim. Os jovens músicos da Beira Interior apresentaram um repertório criado especificamente para o Jazz no Parque, cujo ponto de partida foi um poema de Charles Bukowski, "The Genius of the Crowd”.

A fazerem lembrar, em certos momentos, o projecto Masada de John Zorn ou os King Crimson no seu “Larks Tongues in Aspic, João Clemente (guitarra eléctrica), Bruno Figueira (saxofone alto), Patrick Ferreira (clarinete), André Pontífice (violoncelo), Nuno Santos Dias (piano eléctrico Fender Rhodes), Ricardo Sousa (contrabaixo) e Duarte Fonseca (bateria) mostraram muita jovialidade e foram bastante provocadores. As paragens ou pausas, o suspense, o ruído e a irreverência foram indultados com a doçura de outras passagens.

Entre o especial e o espacial

 

O Red Trio apresentou-se em versão eléctrica. O piano de cauda e o contrabaixo foram trocados pelo Fender Rhodes e pelo baixo eléctrico, e juntou-se-lhes a guitarra eléctrica de Bjorkenheim. Esta formação namorou o rock, o funk, o jazz, tendo como motor a toda-poderosa secção rítmica, densa e compacta. O baixo saturado de Hernâni Faustino bateu-se com o rumor da bateria de Gabriel Ferrandini; por cima, a acção combinada entre o Rhodes de Rodrigo Pinheiro e a guitarra frenética de Bjorkenheim atiravam-nos para o delírio. Foi algo entre o especial e o espacial - até pelos efeitos usados por Pinheiro - que levou o público a aplaudir efusivamente este exercício de liberdade criativa.

Ficamos agora à espera da próxima edição, que promete repetir a iniciativa de juntar músicos nacionais com estrangeiros. Como escreveu Pessoa, «primeiro estranha-se, depois entranha-se».