Ich Bin Nintendo + 1982, 26 de Julho de 2016

Ich Bin Nintendo + 1982

Improvisação idiomática

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

Dois trios da Noruega passaram pela SMUP e ilustraram os novos caminhos por onde passa a actual improvisação. Assumidamente idiomática, uma com o punk e a outra com o folclore como linguagens adoptadas e transformadas de dentro para fora.

O agendamento pela SMUP de dois concertos de grupos noruegueses num intervalo de apenas três dias foi acidental, apesar de ambos terem sido programados pela Trem Azul, o primeiro por meio da Shhpuma e o segundo pela Clean Feed, como mais uma edição da Combat Jazz Series que tem lugar naquele espaço da Parede, linha de Cascais, ao longo de cada ano. E foi uma coincidência porque, se a actuação dos Ich Bin Nintendo no passado dia 22 de Julho já estava prevista há largos meses, a dos 1982 a 24 aproveitou o facto de este trio vir a Portugal para uma participação no Festival Músicas do Mundo, em Sines. Seja como for, a proximidade dos dois eventos contribuiu para o esclarecimento de algo que se passa na cena da improvisação na Noruega em particular e na do mundo em geral…

Mas, o que poderá haver de comum entre um banda de pós-punk (Ich Bin Nintendo) que se inspira claramente nos The Ex e nos The Fall dos primeiros anos e um projecto profundamente marcado pela música popular da secular tradição norueguesa (1982) que tem na hardingfele, a rabeca hardanger de oito cordas natural da própria Noruega, e no harmónio os instrumentos da sua particular identidade? Aparentemente, nada, mas o certo é que ficou por demais evidente nas duas ocasiões que a apropriação da linguagem punk-noise de uns e folclórica dos outros serve os mesmos propósitos: tocar uma música totalmente improvisada (porque é essa a prática definitória tanto dos Ich Bin Nintendo como dos 1982) que aceite o idiomatismo como via.

A questão é mais complexa do que se possa imaginar. Quando o movimento da livre-improvisação nasceu na Europa em finais da década de 1960, herdando aspectos do free jazz e da música contemporânea mas rompendo como institucionalismo do jazz e da erudição conservatorial, veio com ela também a ilusão de que essa nova música poderia afirmar-se como não-idiomática, ou seja, como uma negação de todos os idiomas musicais existentes. Vários destes incluíam elementos de improvisação, mas nenhum era integralmente improvisado e aí residia a diferença. Aconteceu, porém, que com os anos este pretenso não-idiomatismo se tornou num outro idioma, e precisamente pelos mesmos motivos que se lamentavam nas outras músicas: desenvolvimento de um vocabulário exclusivista, imposição de processos a utilizar, proibição tácita de certos recursos, formatação estilística, tipificação dos discursos, etc., etc.

A reacção contra este estado de coisas está nos Ich Bin Nintendo e nos 1982: se é impossível escapar ao idioma, e se ser inventivo na recusa dos estereótipos idiomáticos diz tanto respeito aos velhos idiomas como à própria música improvisada “não-idiomática”, porque não improvisar o rock e o folclore, ampliando o território da própria improvisação? E porque não tocar um jazz totalmente improvisado ou uma música de câmara improvisada, já que improvisar (metodologia) a improvisação (linha estética) se arrisca a ser um dilema musicológico? E porque não misturar os vários legados e “tornar a dar”, explorando trans-idiomatismos e inter-idiomatismos? Pois é isso o que está a acontecer e que agora se ouviu na SMUP…

E o que se ouviu foi um pós-punk que não coincidia com a vulgata dessa abordagem e uma música tradicional norueguesa estranha à propriamente dita, na medida em que os idiomas musicais, neste contexto, são apropriações e não expressões originárias. Estes idiomas são adoptados com honestidade e porque quem o faz tem um vínculo cultural e de gosto com eles, mas o objectivo é a sua transformação criativa, de dentro para fora. Christian Winther, Magnus Nergaard e Joakim Johansen, os três Ich Bin Nintendo, podem ter-se cingido aos três acordes do modelo punk, mas aprimoraram-nos e viraram-nos do avesso. Nils Okland, Sigbjorn Apeland e Oyvind Skarbo, os três 1982, tocaram as melodias e as harmonias dos fiordes, mas rodearam-nas de uma “bricolage” sonora que desconcertaria qualquer aldeão do seu país. O que uns e outros fizeram na Parede, para além de ter sido tão bom quanto seria de desejar, é também matéria para pensar. Ora pensemos.