Jazz em Agosto, 17 de Agosto de 2016

Jazz em Agosto

Que bom foi não ir para o Algarve

texto Gonçalo Falcão e Nuno Catarino fotografia Gulbenkian Música – Petra Cevelbar

E lá se cumpriu mais uma edição do festival da Gulbenkian, a 33ª, este ano marcada pela omnipresença da guitarra eléctrica. Foram 14 os concertos em 11 dias, sem interrupções, com muito boa música a desafiar as fronteiras de género e estilo. Aqui fica a reportagem de quem não foi a banhos e ficou feliz com isso.

A abertura das portas do Jazz em Agosto é sempre uma festa, não fosse este um dos principais festivais de jazz nacionais e o que está disponível para arriscar em ideias e formas normalmente ausentes no resto do País. É através dos músicos que querem descobrir caminhos novos, sem sobrevalorizar os aspectos formais nem se couraçarem em tradição, que melhor podemos perceber a actualidade. Isso é o que podemos esperar do JeA.

Na primeira noite o Anfiteatro ao Ar Livre estava completamente esgotado e a temperatura era perfeita para um concerto ao ar livre. Sentia-se a felicidade veranista de quem não foi obrigado a ir para o Algarve. Começa a dar que pensar este afã pela primeira noite, que parece tudo sugar em termos de interesse. Com tanto concerto bom para ver e com um nome pouco relevante na inauguração, surpreende que o concerto esgote por completo e deixe arejados os outros dias, apesar de estes prometerem música bem especial.

Un certain regard

 

Marc Ribot teve a primazia da inauguração e, se o festival fosse de cinema e não de jazz, diríamos que o concerto pertencia à secção Un Certain Regard.  O guitarrista nova-iorquino é um caso muito semelhante ao de Adrian Belew: um óptimosideman”, mas fraco enquanto líder. Belew é excelente com Zappa, com Laurie Anderson, com os King Crimson, Ribot é excelente sob as ordens de Zorn ou de Tom Waits, mas os seus discos a solo são normalmente pouco interessantes.

A ideia que montou para a banda que trouxe a Lisboa, The Young Philadelphians, é a de recapitular o chamado "Som de Philadelphia", um movimento musical iniciado no final dos anos 1960, que radica nos Delfonics e se desenvolve num soul/funk aplainado por arranjos magníficos de metais e cordas. A ideia é boa e o material imensamente rico: apesar da capa sinfónica e das vozes em falsete, que associamos a um som gorduroso, a música é de uma enorme beleza, com melodias e arranjos geniais. Concordamos que é altura de ignorar a laca do cabelo e as lantejoulas e olhar para a música, mas tocada ao vivo por esta banda é um funk sem “swing”, demasiado binário e rockeiro, duro e sem originalidade própria que não seja esse desleixo.

Nada obriga a que se toque música funk com a sua linguagem própria, mas se era para ser jazz-rock, que fosse bom. Chris Cochrane não encaixa de todo, demasiado desfocado da melodia e incapaz de um experimentalismo que não seja apenas ruidoso. O baixo de Jamaaladeen Tacuma rapidamente se rendeu às evidências: o funk não é um formato que permita grandes saídas criativas, pelo que acabou por se cingir às linhas originais, algo deslocado do rock que o circundava. O trio de cordas português, denominado no concerto de Lisbon Strings, esteve lindamente, reagindo muito bem a uma direcção feita por Ribot com problemas na marcação dos tempos e nas deixas para entrada.

Demasiado vulgar para o Jazz em Agosto e excessivamente desleixado para o EDP Cool Jazz, este espetáculo apostava na festa e no hospitalidade, mas revelou-se uma sopa mal-amanhada. Um festival de jazz não é obrigado a tocar só jazz, mas pedia-se que ao menos fosse bom... Começaram com uma versão atrapalhada do inevitável "TSOP (The Sound of Philadelphia)" dos Mother Father Sister Brother (na versão com as Three Degrees, que é cantada) e acabou com "The Hustle" de Van McCoy. Foi fraco, mesmo para mim que gosto do soul de Philadelphia (mas não me iludo: as pérolas estão todas com James Brown, com Ray Charles, em Memphis e em Detroit) e não tenho problemas com o rock. (G.F.)

Colorindo o som

 

O segundo dia do festival tinha duas propostas: tardinée com Marc Ribot a solo e à noite Tim Berne com os Snakeoil. Sentados, ao fim da tarde, numa esgotada Sala Polivalente, vimos três filmes da cineasta Jennifer Reeves musicados ao vivo pelo guitarrista. Começou com um enorme problema de ruído num dos “amps” que contaminava todo o ambiente. Ribot tocou usando o problema a seu favor sempre com intensidade, acima do fundo barulhento e com um solo bem estruturado e cheio de ideias interessantes.

Criou um excelente acompanhamento sonoro para os dois primeiros filmes, abstracções plásticas feitas com jogos cromáticos e sobreposição de películas, com a duração e os ritmos certos para nunca se tornarem aborrecidas. Já o terceiro filme, assente na boa ideia de recuperar o formato e o tipo de plasticidade dos primeiros filmes da década de 20 e 30 do século passado, pareceu demasiado longo e previsível. O concerto foi, mesmo assim, bom de seguir, tendo Ribot optado pela guitarra acústica como forma de contornar a presença dobzzzzzz do amplificador. Três bons solos, com várias soluções sonoras bem sequenciadas e articuladas com o movimento da narrativa imagética.

À noite subiu ao palco do anfiteatro uma superbanda extremamente bem liderada. Não o sabíamos no começo: os Snakeoil editam pela ECM e confesso, envergonhado, que não os tinha dado a devida atenção. Sigo o trabalho de Tim Berne desde que o ouvi pela primeira vez, no Jazz em Agosto precisamente, com os Caos Totale, a sua banda da altura. Habituei-me a classificá-lo dentro de uma certa direcção, interessante mas não excepcional. Acontece que os Snakeoil são um dos melhores grupos de jazz do momento, uma enorme evolução do seu trabalho. É fundamental ouvi-los!

É difícil descrever a música, pois esta não é fácil de apreender. Usa soluções complexas com a ligeireza das coisas simples e, quando julgamos perceber o que se está a passar, eis que a realidade se impõe, desmentindo-o. As frases musicais escritas por Berne são enormes, tocadas em uníssono com os clarinetes de Oscar Noriega. A bateria de Ches Smith é evoluidíssima. É certamente um dos melhores bateristas da actualidade – funciona como um botão de intensidade, pondo o grupo em movimento ou abrindo espaços e colorindo o som. É decisivo para a singularidade dos Snakeoil. Ryan Ferreira (nova-iorquino de origem portuguesa) veio dar um som novo ao grupo e tornou-se essencial, acrescentando uma textura eléctrica muito importante para equilibrar o predomínio dos sopros e da percussão. Para quem não pôde ir à Avenida de Berna naquela noite fica o aviso: há discos a comprar. (G.F.)

Sem hierarquias

 

O sábado trazia uma boa proposta para a tarde… David Toop (importante teórico da música actual) e Evan Parker (um dos fundadores da improvisação europeia) começaram uma série de programas de rádio ao vivo (chamemos-lhe assim para facilitar) no famoso Café Oto, em Londres. A proposta é simples, mas é essa simplicidade que a torna interessante: fazer as pessoas ouvirem música sem telemóveis nem internets durante uma hora, comentando-a e enquadrando-a. Tinha tudo para ser excelente... mas não foi. Parker e Toop cometeram dois erros: o primeiro foi o de achar que esta era a sexta sessão de “Sharpen Your Needles” (o nome que deram à ideia). Não era, nós não estivemos presentes no Café Oto e por isso era a primeira. A segunda foi a de nada terem preparado. Assim, passaram uma série de discos do que agora se chama “música do mundo”, no início quase sem comentários ou enquadramentos que não fossem o de ler o título da música e o nome do instrumentista.

Ora, o problema é que muitos dos presentes já conheciam aqueles exemplos (ou semelhantes) e, portanto, pedia-se mais. Não era uma sessão para escolas secundárias, estava enquadrado num festival de jazz e toda a gente se lembra do entusiasmo que os discos da Ocora trouxeram e de como todos descobrimos formas e práticas musicais interessantíssimas nos mais recônditos lugares da Terra. Pedia-se mais, o que começou a acontecer, timidamente, a meio da sessão, que deixou o formato de colecção de cromos («tenho este», «olha outro») para ter os dois interlocutores a dar um pouco de informação e enquadramento sobre as músicas, embora raramente fossem capazes de relacionar essa informação com outros temas. Podiam ter enviado uma cassete. Na tarde seguinte já foi diferente, talvez porque o tema era a improvisação e houve mais a dizer, inclusive com histórias a serem contadas sobre os primórdios da “improv” britânica.

À noite foram excelentes os Pulverize the Sound, um trio de trompete, baixo eléctrico e bateria. Foi um magnífico concerto, acima do disco recentemente editado (ver críticas). Música forte e cheia de rock na bateria e com o trompete de Peter Evans a assumir quase por completo o discurso solístico. É cada vez mais evidente que ele é um músico brilhante e único, não só pelo seu virtuosismo extremo, mas principalmente por ser capaz de colocar essas capacidades ao serviço de projectos experimentais, que procuram descobrir novos caminhos. E este é um desses casos: o trompete flutua com a graça de um surfista, afeiçoa uma grande onda sonora produzida pela bateria e pelo baixo. Neste, Tim Dahl tocou com alguma imprevisibilidade e Mike Pride baterizou bem. Sem ter uma técnica excepcional, sabe ouvir e reagir em consonância. Sincrético, o grupo procura identificar os elementos comuns entre linguagens que normalmente não convivem, como o punk, o jazz tradicional, o art-rock e a improvisação total, usando-os sem hierarquias. (G.F.)

Como descrever a angústia de uma partícula

 

A White Desert Orchestra de Eve Risser é a consequência da passagem da pianista pela Orchestre National de Jazz francesa, quando esta era dirigida por Daniel Yvinec. Dez músicos em palco (obrigado Gulbenkian Música, por nos permitir ouvir estes grupos alargados, tão raros pelo custo que tem a sua deslocação). A música escrita por Risser retoma a tradição europeia de escrever programaticamente temas descritivos, que se fixou no Renascimento (“La Tempesta di Mare”, de Vivaldi, por exemplo), mas que teve o seu auge no Romantismo do século XIX com Berlioz, Saint-Saëns, Strauss, etc. Contudo, os programas descritivos de Risser são abstractos, o que cria um paradoxo composicional muito interessante.

Assim, como descrever a angústia de uma partícula que ficou presa dentro de uma formação de quartzo? Ou a tensão entre duas montanhas que se enfrentam? Em música de uma enorme beleza, com um equilíbrio notável entre o que está escrito e o que é improvisado (e como é improvisado), entre o organizado e o indeterminado, entre o músico individual e o colectivo. Canções belíssimas em que a pequena orquestra funciona quase como um grande instrumento, profundamente europeia sem trair a matriz afro-americana do jazz.

Eve Risser é responsável por um dos melhores discos deste ano, o brilhante “Des Pas Sur La Neige”, que revoluciona o piano preparado, adicionando um virtuosismo com técnicas alternativas que ainda não tinham sido exploradas. Proporcionou a todos os presentes um concerto de uma enorme serenidade, sendo complexo formalmente e com uma execução complicada, cheia de cruzamento de escrita e solos. O destaque inevitável foi para os solos da pianista, para Julien Desprez na guitarra eléctrica e para Fanny Lasfargues no baixo. (G.F.)

Combustão lenta

 

Depois de um primeiro fim-de-semana recheado de grandes nomes internacionais, a segunda semana do jazz em Agosto arrancou com a primeira participação portuguesa. O grupo luso-italiano Tetterapadequ junta Gonçalo Almeida (contrabaixo) e João Lobo (bateria) a Daniele Martini (saxofone tenor) e Giovanni Di Dimenico (piano). O nome estranho corresponde a um anagrama de De Patter Quartet, em alusão ao clube de jazz em Haia onde o quarteto se formou. A música deste assenta na linguagem da improvisação, articulando um discurso colectivo a partir das contribuições individuais.

Na Gulbenkian ouviu-se música dialogante que reflectia a qualidade instrumental dos intervenientes: já se conhece a versatilidade e o rigor de Almeida (no trio Lama, por exemplo) e também a percussão de Lobo não era surpresa (colaborou com Enrico Rava e Carlos Bica, é co-líder de um grupo com Norberto Lobo e responsável de música para filmes, entre outros). Di Domenico também tem actuado em Portugal: na ZDB dirigiu a Listen/Silent Orchestra e tem actuado com Norberto Lobo (Denki Udon), entre outras colaborações. Além de colaborar em diversos projectos de Lobo e Almeida, o saxofonista Daniele Martini também participa no disco “Roll Call”, do contrabaixista Hugo Antunes.

Fugindo aos clichés do free jazz, o quarteto sul-europeu evitou os crescendos enérgicos, trabalhando quase sempre em tempos lentos e médios, sempre num desenvolvimento subtil, com a música a crescer pela união colectiva, em combustão lenta. Servindo-se da linguagem jazzística como ferramenta base, conjugada com a imaginação da improvisação livre, o grupo teve uma prestação coerente, sempre a um nível morno. Sem relevantes destaques individuais, valeu a excelente comunicação intergrupal. Apenas na parte final do concerto o quarteto investiu num crescendo enérgico, assinalando o término. (N.C.)

Investimento cénico

 

Théo Ceccaldi já tinha tocado na edição do ano passado do Jazz em Agosto, integrado na Orchestre National de Jazz, e este ano regressou num contexto mais concentrado: o quarteto que apresentou o disco “Petite Moutarde”. Este foi o projecto que concretizou o maior investimento cénico: além da música, houve projecção vídeo (filmes de Man Ray, Marcel Duchamp e René Clair), alguns adereços e um trabalho de iluminação autónomo, tudo em interligação.

Ao violino de Ceccaldi juntaram-se Alexandra Grimal (saxofones tenor e soprano, voz), Ivan Gélugne (contrabaixo) e Florian Satche (bateria). O quarteto prometia uma música “picante”, como se percebe pelo nome, e trabalhou formas abertas em que o jazz era apenas o ponto de partida. Aproximou-se da música de câmara, do rock, da improvisação exploratória e do free. Partindo de temas estruturalmente bem definidos, o quarteto francês desenvolveu uma segura articulação instrumental. Além da prestação de Ceccaldi, será justo referir a intervenção de Grimal. Tal como na noite anterior, o grupo destacou-se pela coesão colectiva e pela interacção. O projecto diferenciou-se, não apenas pelo grande investimento extramusical, mas também pela diversidade estética e pela vasta amplitude de cores que apresentou ao longo de toda a performance. (N.C.)

Vertente experimental

 

Em estreia mundial, o Jazz em Agosto apresentou depois o inusitado Tuba and Drums Double Duo. Liderada por Sérgio Carolino, a formação junta duas tubas e duas baterias, numa formação instrumental atípica. A dupla de baterias é formada por representantes de duas gerações da cena jazz portuguesa: o veterano Alexandre Frazão e o jovem Mário Costa. O grupo conta ainda com a participação de um convidado internacional, o tubista Oren Marshall. A actuação arrancou com dois temas deste, “On the Tube” e “Alone”, e desde logo Sérgio Carolino e Oren Marshall mostraram o seu espantoso virtuosismo.

Combinando flexibilidade e imaginação, a dupla de tubas não só desenhava as melodias dos temas, como se articulava na construção harmónica. As baterias não se limitavam a alimentar o ritmo, contribuindo activamente para o crescimento da música do quarteto – Frazão com a versatilidade e a elegância habituais, Costa a mostrar que, apesar da sua juventude, está num excelente nível. Se a amplitude sonora do instrumento é limitada, Carolino e Marshall mostraram que a tuba pode brilhar na condição de solista, assumindo um protagonismo que raras vezes lhe é permitido. Um outro exemplo são os Sons of Kemet - duas baterias, saxofone e tuba –, que teve Marshall como membro fundador e foi um dos destaques do recente festival Milhões de Festa, em Barcelos.

Na Gulbenkian, além da exuberância melódica e harmónica, as duas tubas também mostraram uma afinada vertente experimental: Carolino e Marshall produziram os sons mais estranhos que podemos imaginar, exibindo um potencial exploratório. Para lá do trabalho em quarteto, os músicos também se dividiram em dois subgrupos: houve um momento em duo entre Carolino e Frazão, houve depois outro momento com a dupla Marshall e Costa. Um dos momentos mais aplaudidos surgiu com a revisitação do clássico “Sodade”, popularizado por Cesária Évora. O público aprovou e o Double Duo só abandonou o palco após um segundo “encore”. (N.C.)

Ecos dos anos 1980

 

Um festival de jazz não é obrigado a programar apenas jazz. Tem sido assim desde sempre: muitos festivais americanos e europeus programam outras músicas que, pela sua natureza experimental ou pela sua originalidade, questionam as fronteiras do seu género. O jazz não é uma música isolada, os músicos de jazz não ouvem só jazz e por isso o cruzamento de idiomas musicais é uma prática saudável. Foi neste contexto que se inseriu a actuação dos Unnatural Ways, um trio de rock com Ava Mendoza na guitarra, Tim Dahl no baixo (que tínhamos ouvido a tocar com Peter Evans nos Pulverize the Sound) e Sam Ospovat na bateria. Já tínhamos ouvido vários concertos no JeA em que o rock foi uma referência dominante, mas com os Unnatural Ways abriu-se uma porta nova, pois o trio só toca rock. Não há nada de jazz. Os 38 CDs e oito LPs que a banda trouxe venderam-se todos no final a um público entusiasmado com o espectáculo e com a música.

Ava Mendoza canta à anos 1980, com a voz cheia de eco ao estilo de Nina Hagen ou de Lena Lovich. Ospovat é optimo na bateria, não cedendo a tocar demais: vai directo ao assunto com assertividade e sem ornamentação. Dahl é um baixista peculiar, capaz de criar bases não através de linhas melódicas, mas de oscilações de sons contínuos. Parabéns à organização pela aposta. O concerto foi bem melhor do que o disco e só é pena que não se possa colocar a música mais alto (questões técnicas? vizinhança?), pois o som de um “power trio” como este pedia mais watts. O final com um blues candongado, muito bem tocado por Ava, justificou as palmas empolgadas do público. (G.F.)

Fake jazz

 

Na sexta-feira, dando início ao último fim-de-semana do festival, tocaram os Z-Country Paradise. O grupo tem na sérvia Jelena Kuljic o seu grande trunfo, pois é a sua presença e a sua voz que transformam uma quarteto vulgar numa banda especial. Um baterista muito pouco criativo, um baixista interessante mas que não vai para a parte funda da piscina, um guitarrista e um saxofonista competentes fazem música fílmica, perto do que nos anos 1990 se chamou de “fake jazz”, dando um ambiente jazzístico ao que na verdade é pop/rock disfarçado. Os temas estavam bem estudados e foram tocados com interesse e calor, mas nada do que os Z-Country fazem seria especial sem a voz de Kuljic a declamar poesia com uma força e uma atitude encantatórias. A designação “jazz vocal” faz todo o sentido neste caso, pois é a voz que tem importância maior. (G.F.)

Homenagem a Sun Ra

 

Na primeira das suas duas apresentações ao vivo no festival da Gulbenkian, o baterista norueguês Paal Nilssen-Lovetocou a solo ao final da tarde de sábado. A Sala Polivalente do Centro de Arte Moderna acolheu um “kit” de bateria reforçado com objectos e percussões. Destacava-se desde logo uma grande chapa de metal, que foi o principal alvo no início da actuação. Nilssen-Love começou por explorar o potencial sónico do metal, para depois se servir dos pratos tradicionais, primeiro num momento de pesquisa, depois evoluindo para padrões rítmicos. Sendo um dos mais activos e inventivos bateristas da cena jazz e improvisada da actualidade, Paal Nilssen-Love exibiu no CAM os seus variados recursos. A intervenção ficou marcada pela combinação alternada de ritmos e texturas, fechando com uma subtil pesquisa das vibrações do som. Apesar de breve (menos de 40 minutos), a prestação foi particularmente focada.

Com o disco “Play Sun Ra”, editado em 2014, em apresentação, os Supersonic do saxofonista e cantor Thomas de Pourqueryvoltou a ressuscitar a música de Sun Ra. Na noite de sábado, o francês guiou o seu sexteto pelo mundo sonoro de Herman Blount, numa reconstrução formalmente jazzística e competente, embora pouco arriscada. A formação mais habilitada para executar esta música continuará a ser a original Arkestra (formação que passou pelo Jazz em Agosto em 1985), que mesmo sem o mentor continua activa e ainda recentemente passou por Lisboa (Julho 2014), num concerto inesquecivelmente festivo sob a direcção do veteraníssimo Marshall Allen. Também o grupo Spaceways Inc. de Ken Vandermark explora a música espacial de Ra, com criatividade e ginasticidade.

A proposta de Pourquery mantém a traça original e cumpre os requisitos, mas não entusiasma para lá daquilo que já vem de origem. Na Gulbenkian, o seu saxofone alto teve a companhia do também saxofonista Johane Myran, do trompete de Fabrice Martinez, dos teclados de Arnaud Roulin e da secção rítmica composta por Frederick Galiay (baixo) e Franck Vaillant (bateria). O grupo passou pela obrigatória “We Travel the Spaceways”, com o líder também a assumir a voz, e quando chegou “Nature Boy” reduziu-se a um trio de sax, baixo e bateria. Pourquery revelou-se muito interessante a solar, mas foram sobretudo os temas com “groove” que conquistaram o público.

Cantou-se «If we don’t save the world, who’s gonna do it?», ouviu-se “Love in Outer Space” e não faltou a obrigatória “Space is the Place”. Após muitos aplausos, o “encore” fez-se com “Enlightenment”. Provável vencedor do voto popular, os Supersonic abandonaram o palco deixando a ressoar aquela melodia repetida («the sound of joy is enlightenment») na cabeça dos espectadores. (N.C.)

Fluxo de sentido comum

 

Para o último dia, uma surpresa: o saxofonista Frank Gratkowski (que já havia actuado no festival com os Z-Country Paradise) apresentou-se a solo na Nave do Centro de Arte Moderna. A surpresa começou pelo local escolhido, a Nave, que não é um dos palcos habituais do festival. Gratkowski surpreendeu também pela forma como arrancou a actuação: entrou pela porta, a tocar clarinete baixo, e daí foi caminhando até ao centro da sala onde se encontrava o público. O músico alemão soube aproveitar as características acústicas doespaço, nomeadamente a fenomenal reverberação, usando o fraseado do clarinete baixo como fonte sonora para uma música que ia crescendo apoiada pela arquitectura.

Ao segundo tema, Gratkowski mudou para o saxofone alto. Mas não para uma vulgar utilizaçãodo instrumento: o sax foi processado electronicamente em tempo real, com o som a ser distribuído por oito colunas. Foi assim trabalhado um efeito sonoro de movimento, com o som a viajar de coluna em coluna, surpreendendo os espectadores. Frank Gratkowski serviu-se do sopro, mas também de pequenos sons e do ruído produzido pelas chaves do instrumento, para forjar uma fascinante criação que foi para lá do exclusivo âmbito musical. Algo que talvez pertencesse já ao domínio da “escultura sonora”? O final foi mais simples, com uma breve interpretação no sax alto, sem efeitos electrónicos. Além da excelente performance, esta actuação valeu também pela revelação do enorme potencial acústico da Nave do CAM para concertos de detalhe sonoro.

O JeA terminou com aLarge Unitde Paal Nilssen-Love. Se no dia anterior o baterista tinha exibido com exuberância os seus dotes instrumentais, desta vez ficou remetido à condição de líder, preciso mas discreto na bateria. O norueguês dirigiu a sua banda de 14 elementos, quase sempre organizada em formatos duplos, de modo a promover o confronto, com duas baterias (a sua e a de Andreas Wildhagen), dois contrabaixos/baixos (Jon Rune Strøm e Christian Meaas Svendsen). Ao centro, um naipe de três metais (Thomas Johansson no trompete, Mats Äleklint no trombone e Per Åke Holmlander na tuba) “versus” um naipe de madeiras (Julie Kjær no saxofone alto e na flauta, Klaus Holm nos saxofones alto e barítono e Kristoffer Alberts nos saxofone tenor e alto). Havia ainda uma guitarra eléctrica (Ketil Gutvik) e eletrónica (Tommi Keranen). Uma das particularidades desta vinda do “ensemble” foi o acrescento de dois percussionistas brasileiros: Paulinho Bicolor e Célio de Carvalho.

A Large Unit começou por interpretar um bloco de quatro temas, numa espécie de “medley” sem interrupções. A música estava assente em composições bem definidas, servindo-se da qualidade instrumental de cada interveniente e da dinâmica colectiva. Herdeira do free jazz, evoluiu frequentemente em crescendos enérgicos e explosões intensas, aproveitando a força da união instrumental. O modo como os solistas interagiam com o “tutti” foi fundamental, bem como a constituição de subgrupos, tudo a contribuir para o fluxo de sentido comum. De referir os solos memoráveis de Mats Alenklint e de Julie Kjaer. Destaque ainda para a percussão brasileira, que se integrou facilmente, com pormenores deliciosos - cuíca no início, berimbau no final. Além do bloco inaugural de composições, o grupo interpretou ainda o tema “Fendika”, que rouba o nome a um clube de Adis Abeba, fechando a actuação antes do “encore” (obrigatório). (N.C.)

Finda a edição de 2016, ficamos com vontade que para o ano se repita este formato que provou resultar. Os 11 dias de duração tiveram muito público, mesmo numa época (culminando no fim-de-semana do meio de Agosto) em que Lisboa fica desabitada. É um festival com cuidados interessantes, na maneira como recebe o público, orgulhando quem assiste pelas boas maneiras europeias. Um exemplo: a organização não permite fotos nem “selfies”, o que é uma iniciativa de louvar, já que os concertos ao ar livre se têm transformado em reportagens sobre a felicidade do público que depois são enviadas para as respectivas redes sociais. Vê-se bem melhor sem dezenas de pequenos ecrãs no caminho. Já as lindíssimas almofadas feitas de capulanas poderiam ser em maior número, dado que metade do anfiteatro fica severamente sentado em “sumapedra”. Agora, se nos permitem, vamos dar um mergulho…