Vincent / Iwase / Radich + Momentum, 5 de Setembro de 2016

Vincent / Iwase / Radich + Momentum

Com o pé direito

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

Começou da melhor maneira a nova temporada de concertos na incontornável SMUP. Um francês, uma japonesa, uma portuguesa (esta muito especialmente) e três noruegueses (idem, idem) fizeram-nos ansiar pelo que aí vem…

A “rentrée” de concertos na SMUP não poderia ter corrido melhor, e logo com dois em dias quase seguidos, 1 e 3 de Setembro. O primeiro iniciou uma minidigressão em Portugal da dupla formada pelo violoncelista francês Hugues Vincent e pela saxofonista alto e clarinetista japonesa Kumi Iwase que os levaria, depois da Parede, a Lisboa, Porto e Coimbra. Num par deles os dois improvisadores interagiram com portugueses: neste tiveram Maria Radich como interlocutora, na voz, em outro a parceria fez-se com Carlos “Zíngaro” e o seu violino. A segunda sessão, dos Momentum de Jorgen Mathisen (saxofones tenor e soprano), Christian Meaas Svendsen (contrabaixo) e Andreas Wildhagen (bateria), inserida na Combat Jazz Series, consistiu na apresentação do álbum homónimo do trio norueguês acabado de sair pela Clean Feed.

A actuação na Parede da fórmula Vincent / Iwase / Radich era um primeiro encontro, pelo que ninguém sabia ao que vinha. O começo foi algo tentativo, com Vincent a atirar motivos para a performance, logo à partida estabelecendo-se como o elemento “pivot” de tudo o que aconteceria, e Radich a verificar onde cabia numa abordagem musical que já vinha estabelecida pelo duo. Depressa ela conseguiu, no entanto, entrosar-se na música e a sua prestação foi crescendo até se tornar especialmente determinante para os desenvolvimentos. O próprio Vincent chegou várias vezes a parar, deliciado com o que Maria Radich fazia – de olhos fechados e boca aberta, mais parecendo um peixe fora de água, em profundo enlevo.

O jogo de Radich estabeleceu-se em dois planos, um em que encenava uma conversa entre várias personagens numa língua inventada, todo ele dominado por onomatopeias e interjeições, e outro feito de melopeias e suaves melodias de embalar, num mantra quase pop ou quase folk. Sempre com o corpo a transportar as emissões vocais, ou não fosse também bailarina. Tal contribuiu não só para uma dramatização das improvisações como para abrir o leque de vocabulários utilizados, entre abstracções texturais e um assumido tonalismo. Já vai sendo mais do que altura de reconhecer a ímpar importância desta cantora nos domínios nacionais – e não só – do jazz criativo, da música livremente improvisada e até do rock, que também frequenta com os grupos Abztraqt Sir Q e Ovo.

Vincent seguiu por todas essas direcções, e se utilizou o violoncelo de formas pouco convencionais, ora deitando-o sobre o colo e tocando como se fosse uma guitarra ora dele retirando sons que não eram propriamente os de um cordofone, foi nas situações mais próximas do legado clássico do seu instrumento que nos deu o melhor de si durante a noite. Já Iwase se manteve, infelizmente, discreta e funcional, raramente se destacando, mas convencendo-nos com o seu belo som de clarinete.

A prestação dos Momentum foi totalmente diferente, mas igualmente arrebatadora. Quem pudesse esperar uma interiorização conformista da estética do grito introduzida por Albert Ayler, o mais não fosse pela instrumentação do trio, tirou daí a ideia uns minutos depois de o concerto ter início. A linguagem da banda pode ser a do free jazz, mas a atitude por detrás vem do trash metal, do punk hardcore, do noise. Nunca Svendsen tocou o típico contrabaixo de jazz – aliás, regra geral nem o entendia como um contrabaixo, mas algo que lhe servia para um extremado abuso sonoro.

As mãos não lhe eram suficientes, pelo que recorreu bastas vezes às pernas e aos pés para accionar as cordas e fazer vibrar a madeira. Tanto assim que, apenas 10 minutos depois do arranque, o cavalete do instrumento saltou, tal a violência dos ataques. Nos outros 10 minutos que perdeu a arranjar o instrumento, percebeu-se o quão importante a sua intervenção era para o conjunto da música – a intensidade dos seus companheiros continuou a mesma, mas o corpo, a dimensão, daquilo que se ouvia diminuiu drasticamente até ele, finalmente, poder voltar.

Pouco habitualmente o free jazz, e de resto também a música improvisada dita “não-idiomática”, terá sido tão primário, tão visceral, tão orgânico quanto o desta formação que se submete às directrizes do instante e que actua como se cada vez fosse a última, e isso até quando toca com menos energia, e várias foram as ocasiões com esse registo, não menos tensas do que as outras. Mathisen recorria a apenas duas ou três notas quando definia um “drone” com o saxofone soprano e mantinha-se fiel a esses materiais durante longos períodos de tempo, sem nunca nos cansar. Wildhagen batia nas peles e nos pratos como o Animal dos Marretas, tudo arrastando diante de si. O público, como seria de esperar, entrou um delírio.

Se o anterior concerto nos tinha feito sonhar, este mexeu-nos com a adrenalina. No fundo, é tudo música e é tudo improvisação. Entrámos com o pé direito na nova temporada. A ver se se mantém o nível, que está já muito, muito alto (tudo indica que sim: vêm aí nem mais nem menos do que o Angles 9 de Martin Kuchen).