Alforjs, 9 de Setembro de 2016

Alforjs

Hipnose total

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

Os espíritos foram invocados na Parede, a 7 de Setembro, pelo trio que vem criando uma música xamânica de carácter urbano já tornada em objecto de culto. Delírio iluminado a vermelho e negro.

Com os Alforjs, as coisas acontecem de maneira diferente. Num espaço, como o sótão da SMUP, em que o habitual é os grupos concentrarem-se no lado esquerdo de quem entra, aproveitando a concha que ali faz o tecto, ou junto à parede do fundo quando a música tem mais amplificação, Mestre André, Bernardo Álvares e Raphael Soares posicionaram-se exactamente a meio, levando a que nesta ocasião (o passado dia 7 de Setembro) fosse o público a encostar-se pelos cantos, rodeando o trio.

Os músicos posicionaram-se em torno de um tubo de luz negra como se este fosse uma fogueira, mas o vermelho do ambiente era de cima que vinha, atirado por um par de projectores. A audiência não era, decididamente, a habitual tanto nos concertos de jazz como nos de rock que têm lugar na Parede – o grupo tem fãs muito próprios e arrastou gente de Lisboa que ali não costumava ir. Quem usava peças de roupa branca brilhava no escuro. A quantidade de fotógrafos que girava de um lado para o outro também ajudava a perceber que a ocasião era especial.

Pois era, e isso porque os Alforjs são dificilmente categorizáveis. Digamos que tocam uma música xamânica urbana, juntando uma rítmica tribal a muita electrónica. O jazz está bastante presente, ora aplicado pelo contrabaixo de Álvares ora pelo saxofone tenor free de André, mas também o rock se faz sentir, e tanto na pulsação da bateria de Soares como na energia que se vai criando. Mas houve neste concerto sobretudo o resto: elementos das cerimónias de invocação dos espíritos dos continentes africano, sul-americano e asiático, que não necessariamente transpostos dos seus respectivos “ecossistemas” – antes re-imaginados, recriados, aludidos e misturados até ao total irreconhecimento das suas origens.

O quase constante “groove” era repetitivo e encantatório, assumindo todas as conotações deste procedimento, do krautrock ao techno, do psicadelismo ou do minimalismo às práticas étnicas de transe. Quando se mudava um plano, não era para levar a performance para outro sítio, mas para aumentar o seu efeito dramático ou, se quiserem, para subir um nível de transcendência. E quem assinalava essas mudanças, geralmente, era o baterista. Raphael Soares foi um implacável gestor de métricas. Se falhasse uma batida tudo desabaria, mas o antigo membro dos Sunflare nunca fraquejava. Mestre André rodava botões, umas vezes introduzindo atmosferas e outras ampliando o “beat”. Bernardo Álvares massacrava as duas mesmas cordas do seu instrumento-paquiderme, colando e mantendo todas as partes de pé, ao mesmo tempo que gritava para o microfone.

Os temas tocados foram os do álbum “Jengi”, este ano publicado, ainda que tivessem soado de maneira bem diferente. Para o fim, uma nova composição contradisse tudo o que foi feito antes. Se o “modus operandi” de efeito hipnótico era o mesmo, foi planante, introspectiva e de uma suavidade apaziguadora e “chill out”. A razão, provavelmente, deveu-se ao facto de, nessa tarde, antes do “soundcheck”, os três xamãs da nova música portuguesa terem ido à Praia das Avencas, a dois minutos da SMUP, dar uns mergulhos e apanhar um sol.