Damasiewicz / Bokun / Mira / Antunes / Ferrandini, 26 de Setembro de 2016

Damasiewicz / Bokun / Mira / Antunes / Ferrandini

O caminho e a chegada

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

Houve pouca parra e muita uva no concerto que juntou dois polacos e três portugueses na Parede. E umas quantas surpresas também, tal como aqui ficará a saber…

Há duas maneiras de encarar a prática da improvisação na música. Ou se aceita que os momentos preciosos que podem acontecer numa determinada situação só se conseguem porque surgiram ao caminho de outros bem menos interessantes, e estes são vistos como um mal necessário, ou valoriza-se toda a viagem realizada segundo a relevância do ponto a que se chegou, numa lógica em tudo condizente com a máxima que diz que os fins justificam os meios. Na dança e até no teatro “improvisados” sabemos como se resolve a questão: as boas partes são fixadas e reproduzidas, deitando-se fora tudo o resto – a palha, as perdas de rumo, os equívocos, as hesitações, etc. O público não chega a assistir ao caminho, fica só com a chegada, com o que ficou coreografado e encenado. Na música, há também quem o faça quando se trata de um disco: retêm-se os melhores momentos, por vezes até com estratégias “composicionais” de corta e cola. Sim, é batota.

São muitos raros os concertos de música improvisada em que tudo é magnífico, e esses ou acontecem porque os músicos envolvidos são muito experimentados e sabidos, ou, sobretudo em primeiros encontros dos participantes, são obra desse tipo de operações do acaso a que chamamos sorte, mas que têm mais a ver com o prazer da descoberta do ou dos outro(s). No caso do quinteto que se formou, no passado dia 23 de Setembro, para um concerto na SMUP que juntou dois improvisadores polacos, Piotr Damasiewicz e um tal de Bokun (a organização não referiu o seu primeiro nome e trata-se de um músico desconhecido deste lado da Europa), a três portugueses, Miguel Mira, Hugo Antunes e Gabriel Ferrandini, essas duas circunstâncias combinaram-se.

Mira e Ferrandini constituem a secção rítmica do Rodrigo Amado Motion Trio, Mira e Antunes têm tocado ao vivo em duo, Antunes e Ferrandini andam a experimentar ideias a dois e Ferrandini já várias vezes esteve no palco com Damasiewicz, ora tendo este como convidado do Red Trio (oiça-se “Live in Munich”), ora integrando o quarteto do trompetista, ora com ele se apresentando em dueto. Era de pressupor, ainda, que Damasiewicz e Bokun viessem de parcerias anteriores, mas nada encontrei na Net que o confirmasse. Ou seja, havia vários planos de ligação interpessoal e várias “chegadas” já experimentadas em outras ocasiões, mas nunca com estes cinco juntos.

Talvez devido ao primeiro factor (as colaborações parciais realizadas), a procura de um caminho não demorou muito, e talvez devido ao segundo (a estreia absoluta do quinteto), sentia-se a existência de um elemento de surpresa. Houve palha decerto, mas a sucessão de situações musicalmente superlativas fez com que ela ardesse enquanto se prosseguia em frente. Quer isto dizer que foi um excelente concerto. O adjectivo justifica-se porque houve lugar à surpresa e esta veio, sobretudo, do quase anónimo polaco que tocava o violino (sobre quem ouvi um dos músicos comentar, antes da primeira nota, que se trata de um músico da clássica, «mas esperto») e de Gabriel Ferrandini, que está muito visivelmente em fase de mudança ao nível dos léxicos da bateria, e até dos processos.

Enquanto, na primeira improvisação da noite, Bokun se limitou a juntar umas pinceladas violinísticas à interacção conjunta, fiquei confuso com o desdém que demonstrava relativamente às técnicas clássicas do instrumento. Parecia um Ornette Coleman, tocando “mal” em aparente contestação da arrogância tão própria da “alta música”. Se não me tivessem dito que vinha dessa mesma alta música, julgaria tratar-se de um diletante – o aspecto físico ajudava, pois parecia um hippie de longos cabelos e barbas. Foi preciso que, mais adiante, ele começasse a atirar para as equações em cena uns quantos fraseados mais palavrosos, ainda que fragmentários na sua estruturação, para eu perceber o quanto dominava o seu cordofone. Clássicos esses fraseados continuavam a não ser, e até juro que ouvi blues naqueles “licks”. Introduzia os elementos certos nas alturas em que os mesmos eram necessários; quando se sentia a mais, retirava-se. Uma boa atitude, e não tão frequente quanto isso entre improvisadores, sobretudo aqueles que são especialistas em juntar medas de trigo seco quando o que se quer é verdura.

Como se sabe, Ferrandini está este ano a realizar uma residência artística que o tem levado a estabelecer as suas próprias leituras da história da bateria jazz. Será provavelmente essa a explicação para a metamorfose que nesta actuação na Parede ficou evidente: em vez de, como habitualmente, criar uma cama de texturas, tem uma intervenção estruturante no todo da música. Até recentemente era um baterista hiperactivo, mas agora está a tornar-se proactivo. O seu “jogo” ganhou um foco inusitado e cresceu em dinâmicas. Vai ser interessante assistir a esta evolução. De destacar, ainda, o modo como Mira e Antunes se completaram, fosse trocando as intervenções com arco e em pizzicato no violoncelo e no contrabaixo, respectivamente, ou fixando-se os dois na mesma abordagem. Se já do lado de Ferrandini vinham padrões rítmicos e vinham harmonias (é única, por cá, a forma como utiliza os címbalos), outros e outras se acrescentavam pela mão de ambos, com uma densidade que chegava a ser “drônica”. Sempre com a preocupação, partilhada com Bokun, de nunca parecer que os três eram a secção camerística de cordas do grupo.

Quanto a Damasiewicz, algo que agradou a quem, como eu, o conhecia melhor em registo free jazz: não foi por aí que ele andou com o seu trompete. Optou por trabalhar com timbres, e nesse sentido contrariando a postura de Bokun e dos demais, muito em linha com o que se vai fazendo na música erudita contemporânea. O melhor que fez na sessão tinha apenas três notas sustenidas e mantidas longamente no tempo, três notas que iam sendo repetidas, em surdina, num volume muito baixo, ouvindo-se precisamente porque eram os sons mais baixos, e mais estáticos, que ocorriam. O efeito foi de uma enorme beleza, dado o paradoxo definido relativamente à geral turbulência. Talvez a melhor improvisação seja aquela em que o caminho é a chegada e a chegada é o caminho, como uma serpente a devorar-se a si própria, e se esse é provavelmente um ideal impossível de atingir, ei-lo que motiva a existência desta cena. Na sexta-feira 23 não se andou muito longe daí…