Machida / Queijo / Augusto / Date, 27 de Setembro de 2016

Machida / Queijo / Augusto / Date

Uma atmosfera singular

texto e fotografia João Ricardo

Um tocador de steel drum e uma bailarina do Japão estiveram em Portugal para uma digressão que os levou a diversas cidades do Centro e do Norte. No Porto actuaram com dois prestigiados músicos locais da cena da improvisação. Fomos espreitá-los e aqui vos contamos o que aconteceu…

Yoshio Machida e Jorge Queijo já haviam colaborado em 2013 no conceituado SuperDeluxe de Tóquio. Daí resultou a edição de um CD pela editora japonesa Amorfon. Agora, os dois músicos, juntamente com a bailarina contemporânea Maiko Date, realizaram uma pequena digressão portuguesa que passou por Braga, Porto, Coimbra e Lisboa. É do concerto no Porto que vos damos conta.

No dia 16 de Setembro, Yoshio Machida, músico, compositor e artista visual japonês, também reconhecido pelas suas experiências com sintetizadores analógicos “vintage” (EMS Synthi AKS), esteve na Sonoscopia acompanhado por dois dos mais activos e multifacetados músicos portuenses, Jorge Queijo e Pedro Augusto (Live Low, GhunaX), e ainda pela bailarina japonesa Maiko Date. A improvisação com “steelpan” (ou “steel drum”) e “hang drum” de Machida foi complementada pela bateria de Queijo, pela electrónica modular de Augusto e pela expressiva e teatral dança de Date. Abriram as hostes os dois músicos “da casa” com um tema tenso e texturado. A marcação rítmica lembrava a pujança dos “taiko drums” japoneses, intercalada com texturas próximas da ficção científica provindas do sintetizador modular de Pedro Augusto.

Seguiu-se uma peça tocada por Queijo e Machida em que finalmente os sons encantatórios dos “drums” se fizeram escutar. A “steelpan” (instrumento nacional de Trinidad e Tobago) é geralmente um instrumento associado com a música caribenha, mas, neste caso, a exploração de Yoshio Machida foi mais rarefeita e equilibrada, evocativa mesmo de paisagens naturais. Surpreendente foi a serenidade das texturas e das sequências, como se uma calma aceitação das coisas tal como são nos invadisse, sem resistência. O som do pequeno “hang drum” (instrumento convexo) combinava na perfeição com a “steelpan” (instrumento côncavo) e a riqueza harmónica de ambos, misturada com os címbalos, mergulhava-nos num estado de (quase) sono hipnótico.

Mas a variedade não ficava por aqui. Maiko Date veio dar outra dimensão ao espectáculo. A sua abordagem contemporânea destacava-se não pela técnica em si, mas pela teatralidade da sua expressão e pela capacidade de nos agarrar a atenção, fazendo-nos mesmo esquecer que Machida ainda tocava. Aliás, vários foram os momentos em que Date interagiu com Machida e com o público, num misto de cumplicidade e provocação, como que a resgatar-nos do sonho. A esses momentos, sempre dóceis e bonitos, nunca faltou o devido vigor e até algum humor.

Para terminar, os quatro intervenientes brindaram o público com um momento raro de experimentação. Houve muita interacção entre todos, como se se tratasse de uma conversa em que vários temas iam sendo lançados para discussão e todos tinham algo a dizer. Podia facilmente ter-se tornado confuso, mas foi precisamente o oposto aquilo que aconteceu. O espaço dado criou uma atmosfera singular, muito performativa, senão mesmo cinemática.