Pedro Sousa, 4 de Outubro de 2016

Pedro Sousa

Corrigindo Arquimedes

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

O jovem saxofonista apresentou-se a solo num concerto que mostrou como funciona o seu cérebro. A música foi construída em espirais improvisadas, sempre resistindo à atracção da circunferência, numa abordagem que lembrou o “throat singing” do Tibete e de Tuva.

Segundo Arquimedes, matemático grego que viveu no século III antes de Cristo, uma espiral move-se a velocidade angular constante a partir de um ponto de origem fixo, afastando-se ou aproximando-se dele no seu percurso. No concerto a solo de Pedro Sousa na SMUP, a 29 de Setembro, as construções improvisadas que o jovem músico fez com os seus saxofones barítono e tenor corresponderam integralmente a essa projecção geométrica, mas a velocidade nunca foi constante.

Se as espirais que Sousa produziu fossem desenhadas e mostradas ao barbudo que também foi físico, engenheiro, astrónomo e inventor, este com certeza que ficaria estupefacto com a descoberta de que as coisas do cosmos podem não ser tão lineares quanto a idealização geométrica as definiu. Mas também é verdade que a música tocada na ocasião tem outras coordenadas que não as da arrumada Antiguidade pensante, e estas derivam da Teoria do Caos, que vem dizer que o dito Caos é também uma ordem, só que diferente. As espiralações saxofonísticas de Sousa não seguiram a atracção da circunferência, a mais perfeita forma existente e que se diz ter dimensão divina, consistindo o seu interesse precisamente nessa contrariação. Ora, acontece que o mesmo Sousa tem formação superior em escultura, o que quer dizer que a sua relação com a geometria será mais próxima do que a do comum dos mortais. Contestar a geometria musicalmente, no seu caso, é um gesto escultórico.

Um solo de saxofone nunca é fácil, seja para quem toca como para quem ouve, e uma hora e meia de solo (!!) ainda mais complicada se torna, para ambas as partes – Pedro Sousa não aligeirou a situação, fosse para ele próprio como para nós. Foi, no entanto, uma delícia ver como funciona a sua mente. O nível de despojamento a que se permitiu neste concerto equivalia a abrir-se o crânio de alguém para verificar como é que os electrões do seu cérebro fazem faísca. E era por espirais que as situações se desenvolviam – um motivo surgia, regra geral melódico, funcionando como um pólo a partir do momento em que era repetido, para logo depois sofrer pequenas modificações, ser contestado por outros elementos (bruitismos, dissonâncias, microtonalismos, atonalismos, harmónicos) e o conjunto se transformar na espiral seguinte, com outros elementos a agirem de igual modo para distintas consequências.

São muitos os improvisadores que dizem não pensar em nada enquanto tocam, mas isso só pode ser uma ilusão: no caso de Sousa ficou bem evidente que ele estava constantemente a tomar decisões. Intuir também é pensar; aliás, a intuição é a melhor forma de pensamento, como de resto muitos neurologistas admitem. Quando se chega ao domínio da dedução e da racionalidade o resultado é habitualmente menos feliz. Não se tratava propriamente de blocos musicais, pois tal implicaria outro tipo de organização e uma maior diferenciação de conteúdos, mas as “imperfeitas” figuras deste soprador que tem tocado com Thurston Moore (sim, o dos Sonic Youth), Johan Berthling, Gabriel Ferrandini e Pedro Lopes, figuras que assustariam qualquer dos Arquimedes das “certezas” que vão simplificando o nosso mundo, iam-se espiralando diante de nós com uma enorme nitidez, uma dando lugar a outra ora lentamente, ora em catadupa.

Com basto recurso à respiração circular, Pedro Sousa mais parecia um monge tibetano ou um xamã de Tuva dobrando a voz, com um grave e um agudo a surgirem em simultâneo. Este “throat singing” que transformava os saxofones em gargantas ia à partida contra as características físicas de instrumentos que são monofónicos por natureza, mas o certo é que atravessaram toda a performance – alturas houve em que do barítono e do tenor saíam três sons numa só coluna de ar, deixando-nos algo abismados. E algo abismados, até, porque o crescimento deste saxofonista que ainda não há muito tempo se dedicava à electrónica e à guitarra tem sido estonteante, para mais sabendo-se do seu regime de autodidactismo. Se este jovem da linha de Cascais está a tocar assim hoje, na continuidade da linhagem do free jazz que tem passado por Peter Brotzmann e Mats Gustafsson (mas que também admira bandas rock como Don Caballero e Meshuggah, como referiu minutos antes do concerto e depois até se confirmou pela prática), imagine-se o que será daqui por uns 10 anos. O que nos poderá trazer esta (outra) espiral lançada à distância chega a ser assustador…