Steamboat Switzerland, 6 de Outubro de 2016

Steamboat Switzerland

Que nem ginjas!

texto e fotografia João Ricardo

O trio suíço que cruza jazz, metal e a sonoridade típica dos Emerson, Lake & Palmer foi ao Porto dar-nos uma tareia musical. Desta vez substituindo o habitual órgão Hammond por um sintetizador analógico, assim acrescentando uma dimensão electrónica ao factor «Boulez on the rocks». A combinação perfeita.

No passado dia 1 de Outubro o espaço Maus Hábitos recebeu os Steamboat Switzerland para um concerto arrebatador, de tirar o fôlego, organizado pela Sonoscopia. O trio suíço composto por Dominik Blum (que trocou o habitual órgão Hammond por um sintetizador Korg MS20), Marino Pliakas (baixo eléctrico e efeitos) e Lucas Niggli (bateria e percussão), trouxe ao Porto uma combinação explosiva de jazz, metal e contemporaneidade.

Activos desde 1995, os veteranos Steamboat Switzerland entraram com tudo. Às primeiras notas fomos sugados por uma força centrípeta, qual remoinho de tufão de vento, para só nos libertarem no final (contundente). Uma vez dentro do turbilhão fomos levados entre o «dark power ambient» e o «Boulez on the rocks» assinalados no “website” da banda.

Foram interpretadas composições de Michael Wertmüller (baterista de Peter Brötzmann e ex-Alboth!) com um vigor próprio de quem anda nisto há muito tempo, sem desperdiçar energia, antes gerindo-a de forma magistral. A irreverência de Dominik Blum foi contagiante. Entre o “patching” do Korg MS20 (sintetizador analógico semi-modular - sem memória - que para ser programado precisa de ser ligado através de cabos, como um PBX), os sons sci-fi dele extraídos, os “feedbacks” com microfones e amplificadores de guitarra e as vociferações, esteve incansável. Incansável, também, esteve Lucas Niggli, que nos deu uma boa tareia (e às inúmeras baquetas partidas durante o concerto). A velocidade do tornado foi ditada pela sua marcação, ora no pedal duplo, demolidor, ora através das subtilezas percussivas, para aliviar a tensão.

Marino Pliakas foi a cola, o garante de que esta força da natureza não iria colapsar. O seu som de baixo saturado foi-se metamorfoseando com a ajuda de alguns pedais de efeitos e de muita destreza de mãos. Foi tecnicista, electrizante e massivo. Entre os três músicos houve um enorme e cúmplice entrosamento. Aos momentos mais densos sucederam passagens com atmosferas estrigadas. Note-se que o concerto foi ininterrupto, sem pausas entre temas.

A comparação a uns Emerson, Lake & Palmer parecia óbvia, mas a meu ver só faria sentido se a estes tivesse sido ministrada uma dose reforçada de esteróides anabolizantes. Este “Steamboat” (barco a vapor) obscuro, pesado, carregado, “arrastou-nos” numa viagem estonteante. No final, todas as moléculas do nosso corpo estavam em ebulição. O tremor nas pernas, os sorrisos pueris e a perda de noção do tempo decorrido eram comentados entre alguns dos presentes. E não, não foram as drogas!

Para quem escreve este texto, ex-guitarrista de metal, actual músico electrónico e ocasional repórter de jazz, este concerto foi a combinação perfeita. Caiu que nem ginjas!