Vijay Iyer Trio, 10 de Outubro de 2016

Vijay Iyer Trio

Sem preconceitos

texto Nuno Catarino fotografia Lena Adasheva

E eis que à terceira passagem pela Culturgest, com o repertório do recente álbum “Break Stuff” na ponta dos dedos, o grupo do pianista norte-americano veio mostrar-nos novamente o seu entendimento da flexibilidade estética do tempo presente.

Numa conversa recente com o saxofonista Desidério Lázaro, afirmava este sobre a editora Sintoma Records, que fundou: «Nasceu da ideia de juntar pessoas sem preconceitos... mas a nossa ideia caiu por terra porque as pessoas têm preconceitos!» Na sua edição de 3 de Outubro, o “site/newsletter” JazzLogical, que vem desenvolvendo um meritório trabalho regular de divulgação de espectáculos jazz, destaca justamente o concerto de Vijay Iyer Trio na Culturgest. Contudo, aproveita para acrescentar uma nota: «Distraída durante anos, tem sido reconfortante observar como a “vanguarda” nacional tem elogiado Vijay Iyer - será desta que começa a ouvir música?» Não se percebe a necessidade de tal mensagem, ou quem seria o destinatário, mas a “nota” é desde logo dispensável, explora o preconceito, o mesmo de que falava Desidério, a necessidade de compartimentar, dividir. É verdade que as pessoas têm preconceitos, mas estes devem ser evitados e não alimentados. Porque não podem as pessoas ouvir livremente o que lhes apetecer? Será Vijay “propriedade” do “mainstream”? Desnecessário, especialmente numa era em que as músicas cada vez mais se fundem (e a música de Iyer é perfeito exemplo disso).

Ignorando estas minudências, o pianista Vijay Iyer regressou à Culturgest ao leme do seu trio, naquela que foi a sua terceira actuação no espaço em cinco anos (tinha actuado em Outubro de 2011 e Maio de 2013). Para esta sua terceira visita a Portugal, veio acompanhado do habitual contrabaixista Stephan Crump (que falhou o concerto de 2013), mas agora sem o usual baterista Marcus Gilmore, que foi substituído por Justin Brown. Perante um auditório esgotado, o grupo começou por apresentar um tema breve, para depois se estender por um longo “medley” que foi o coração da performance. Seguiu-se uma sequência de temas mais curtos, culminando um concerto que terá ultrapassado a hora e meia de duração. Pelo meio, Vijay aproveitou para homenagear Rod Temperton, compositor do tema “Thriller” de Michael Jackson, recentemente falecido. Também homenageado foi Thelonious Monk, que faria 99 anos no dia 10 de Outubro.

Tendo-se estreado na ECM com “Mutations” em 2014, Iyer apresentou no ano passado o excelente “Break Stuff”, o mais recente registo em trio, e já em 2016 foi editado “A Cosmic Rhythm With Each Stroke”, em duo com o veterano Wadada Leo Smith. Seria naturalmente o material de “Break Stuff” a base do concerto desta noite. Como já se sabe, o pianismo de Vijay Iyer não é apenas tecnicamente exemplar, é intensamente rítmico e desenvolve uma excelente dinâmica com os parceiros. O contrabaixo de Crump mostrou o seu som puríssimo, impecável no acompanhamento rítmico mas sobretudo notável pelo discurso melódico. Na bateria, Brown foi uma excelente surpresa, sempre muito presente, interventivo e criativo (surpreendentemente, fez esquecer Gilmore!). O trio exibiu a sua música mutante, constantemente a crescer, a evoluir. Muito comunicativo, Iyer elogiou o público e a sua escuta atenta, expressando ainda o desejo de regressar em breve.

Sobre o concerto de 2013 escrevi: «O trio foi explanando os temas que combinam, inteligentemente, complexidade e intensidade, sendo especialmente marcados pela exuberância rítmica. A criatividade de Iyer desconstrói as composições, transforma e reinventa cada música, usa os extremos do teclado com à-vontade, mas mantém a melodia principal sempre próxima, nunca a deixando fugir da vista. E cada tema vai sendo desenvolvido sob uma tensão crescente, cozinhada em lume brando, que acaba por nunca explodir, mas que nos deixa presos naquela ansiedade trepidante.» Adequa-se àquilo que aconteceu na passada sexta-feira: nem vale a pena mexer uma vírgula, continua tudo actual. No concerto ouviu-se mesmo hip-hop instrumental e até alguma progressão harmónica coltraneana. De Monk ao hip-hop, de Coltrane à contemporaneidade, a música do Vijay Iyer Trio é a expressão da flexibilidade estética do tempo presente. Galgando preconceitos, é uma música riquíssima e que vai beber a todas as fontes.