Evan Parker / Barry Guy / Paul Lytton, 11 de Outubro de 2016

Evan Parker / Barry Guy / Paul Lytton

Ponto de pérola

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

O já bem rodado trio do saxofonista que “inventou” a improvisação livre no Reino Unido foi o prato forte da edição deste ano do Out.Fest, na passada sexta 7 de Outubro. Mas não elevou a temperatura até ao ponto de caramelo de que estávamos à espera: Parker evidenciou algum cansaço, não acompanhando a exuberância dos seus parceiros.

O jazz e a improvisação estão sempre presentes nos programas do Out.Fest, festival do Barreiro que em Outubro de cada ano procura mostrar o que vai acontecendo na área das chamadas “músicas exploratórias”, sem se preocupar com questões idiomáticas específicas. Este ano trouxe figuras exponenciais como Agustí Fernández, Lê Quan Ninh e o trio de Evan Parker, Barry Guy e Paul Lytton, e chamou nomes da cena nacional como Yaw Tembé, jovem trompetista swazi que juntou a Parker, Jamal Moss e Orphy Robinson, e Manuel Mota, este para uma intervenção a solo. Como habitualmente também, até nas restantes participações no evento, aquelas que não conotamos imediatamente com os “jazzes”, tivemos de novo muito presente o factor improviso, como foi o caso com os Acid Mothers Temple, a dupla Irmler / Liebzeit, juntando elementos das lendárias bandas de krautrock Faust e Can, ou até o electronicista Sonic Boom com o seu projecto Experimental Audio Research.

Para a jazz.pt, o Evan Parker Trio era muito claramente o prato forte da edição de 2016 do Out.Fest. A última vez que o saxofonista britânico e os seus pares tinham estado em Portugal enquanto trio foi em 2009, com Peter Evans como convidado, e de uma apresentação na Casa da Música saiu um disco de qualidade superlativa, “Scenes in the House of Music”. A curiosidade de saber em que ponto estava este já longevo grupo (mantém-se em actividade desde a década de 1970) era, pois, muita, bem como a de verificar como é que uma abordagem “old school” de música improvisada acústica se relacionaria com as restantes propostas de uma noite do festival virada sobretudo para a electrónica. A primeira evidência foi a de que a combinação funcionou muito bem, tendo Parker, Guy e Lytton destoado apenas de Klein devido à displicência da prestação desta – em relação a Sonic Boom (que fez um óptimo concerto), foi curiosamente como que a outra face da mesma moeda, a moeda do Som e do que se pode fazer com ele.

Barry Guy

Evan Parker

Sonic Boom

Klein

E em que ponto está o Evan Parker Trio? Se nos centrássemos nas performances de Guy e Lytton no Auditório Augusto Cabrita diríamos que em ponto de caramelo. O contrabaixista estava em noite alta, passando em fracções de segundo de um ataque exuberante dos materiais sonoros que ia compilando a um acariciamento das cordas com muitos espaços de silêncio, indo de um extremo ao outro das dinâmicas e utilizando preparações e técnicas extensivas. Beliscões nas cordas, glissandos de belo efeito harmónico, recurso a traves de metal e a baquetas de bombo iam-se sucedendo, incorporadas entre manejos classicistas de arco e pizzicatos em síncopes quebradas. O baterista acompanhou-o ora com igual impetuosidade, ora com o mesmo radical sentido minimalista, de uma maneira ou de outra com a proverbial imaginação que o tornou numa das referências maiores do seu instrumento.

O problema (pequeno, mas bem evidente) é que Parker não esteve tão solto quanto é habitual nele, evidenciando algum cansaço e optando por um discurso jazzístico mais “dentro da caixa” – com a sua admiração por John Coltrane a fazer-se notar – que contrastava com o dos seus companheiros. O resultado de conjunto foi, em consequência, algo inferior ao que deles ouvimos há sete anos, mas ainda assim assistimos a uma excelente actuação. Digamos que a uma actuação em ponto de pérola.