Eventless Plot & convidados, 12 de Outubro de 2016

Eventless Plot & convidados

Abrandar, como Gustav Mahler

texto e fotografia João Ricardo

O projecto grego de electroacústica passou pelo Porto para uma actuação que teve a participação da harpista Angélica V. Salvi e do pianista Roberto Lourenço, para além de uma dupla de bailarinos. Os processos foram-se repetindo exaustivamente, só não aborrecendo graças a um conselho de um grande da história da música.

No passado dia 8 de Outubro a Sonoscopia acolheu os gregos Eventless Plot (Vasilis Liolios e Yiannis Tsirikoglou, sem Aris Giatas) e seus convidados: Angélica Salvi (harpa eléctrica), Roberto Lourenço (piano), Sónia Cunha e Carlos Silva (dança). Neste Microvolumes 3.61, o projecto formado em Salónica no ano de 2002 apresentou uma versão alargada de “Time | Tone Project”, composição electroacústica baseada numa partitura gráfica.

Pelo que nos foi dado a perceber, esta interpretação foi bastante livre. A projecção circular à vista de todos - músicos, bailarinos e público - exibia um ponteiro em movimento que marcava a progressão no tempo e assinalava os vários elementos (notas, tonalidades, formas, etc.) por onde passava. Contudo, a correspondência com o resultado produzido parecia não existir; a relação entre o registo musical e os elementos da linguagem visual foi pouco óbvia. Ainda assim, houve uma certa circularidade no conteúdo à medida que certas frases ou sons foram revisitados.

As dissonâncias produzidas por sintetizadores analógicos e/ou digitais criaram uma atmosfera esquisita. As modulações harmónicas dos osciladores serviram de leito às gravações de campo, aos sons “samplados”, à harpa e ao piano. Ondas sinusoidais a produzirem batimentos entre si, algumas nas frequências mais altas, quase sibilantes, eram pontuadas com harpejos provindos do piano de Lourenço e da harpa de Salvi, assim como por sons agrestes resultantes da fricção de vários objectos. A sobreposição e a combinação de harmónicos dos címbalos com os tons electrónicos gerados adensavam o programa.

Durante os cerca de 40 minutos de concerto os processos foram-se repetindo, com encontros e desencontros entre os vários elementos, sempre com muito espaço. O “suspense” na música só era quebrado pelos movimentos dos dois bailarinos no espaço exíguo em que se movimentavam. Se expectativas ou ansiedade houvesse relativamente ao devir, nunca foram denunciadas por uns ou por outros, mas a imprevisibilidade parecia domesticada… lá está, previsível. O ambiente era propenso à meditação e a certa altura veio-me à cabeça uma citação atribuída a Gustav Mahler: «Se achas que estás a aborrecer o público, abranda, não aceleres.»