The Selva, 12 de Outubro de 2016

The Selva

Contra os muros

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

Ricardo Jacinto, Gonçalo Almeida e Nuno Morão deram início na SMUP, dia 8 de Outubro, a um trio que não poderia ter um nome mais político, pois alude ao acampamento de refugiados em Calais e à vergonha que é construir-se mais um muro na Europa. Em termos musicais, o que fazem é deitar muros abaixo, tocando uma música improvisada que soa a outras músicas que foram escritas, assim desobedecendo ao fundamentalismo “não-idiomático”.

A não ser pela adopção da linguagem da improvisação, os músicos que constituem o novo projecto The Selva não são particularmente políticos, no sentido de que habitualmente não passam qualquer mensagem específica de carácter intervencionista – e inclusive num caso como o dos Albatre de Gonçalo Almeida, nascido no “underground” holandês e partilhando algumas características “punk-okupa” deste. Só a música propriamente dita explicita o seu posicionamento, tendo em conta a filosofia que desde a origem está por detrás da opção musical de improvisar em contexto igualitário, sem quaisquer funções hierárquicas, e de liberdade da expressão, seguindo apenas as determinações do momento.

Acontece, porém, que o nome escolhido para este trio de Ricardo Jacinto, o já referido Gonçalo Almeida e Nuno Morão tem uma carga imensa: The Jungle é a designação que foi dada ao acampamento que se instalou em Calais, na França, por refugiados que tentam atravessar o Canal da Mancha para iniciarem uma nova vida no Reino Unido. Nesse mesmo local, de modo a serem impedidos de tal objectivo, está a ser erigido um muro nas margens da auto-estrada, mais uma vedação numa Europa que se esqueceu da vergonha que era o Muro de Berlim e está a cair pelo precipício.

Ou seja, se o significado implícito da música improvisada se foi desvanecendo ao longo do tempo, perdendo as conotações libertárias e esquerdistas que tinha nas décadas de 1960 e 70, com este recém-estreado grupo da cena nacional esse alcance volta para o primeiro plano. Mas fica por aí: incluir na música, por exemplo, elementos “étnicos” da Síria, do Iraque, do Afeganistão, da Somália ou do Sudão (apenas cinco dos países de onde fugiram as pessoas que ficaram retidas em Calais) seria não só panfletário, coisa que a livre-improvisação sempre procurou não ser, como também uma tentativa algo ridícula de teatralização de uma condição existencial que não é propriamente a destes três portugueses.

Em vez disso, The Selva propõe-se fazer outra coisa, e esta sim, bem mais interessante: tocar uma música improvisada que não soa tipologicamente como a generalidade daquilo a que assim chamamos, tão cifrada estilisticamente é essa tal de “música improvisada” quanto o são todas as outras músicas idiomáticas, apesar da classificação de “não-idiomatismo” que lhe foi dada. O que se ouviu no concerto de apresentação na SMUP, a 8 de Outubro, funcionou como se os músicos em causa estivessem a escapar-se de uma outra Selva, a do condicionamento da criação musical ao tipo de conteúdos que foram predefinidos para esta área. Sim, mesmo a música que se apresenta como livre deixou de o ser, e este trio vem afirmar esse triste desfecho e, melhor ainda, está a contrariá-lo de forma muito inteligente.

Como? Improvisando algo que agora pode parecer Bach ou qualquer outro autor de música antiga que se tenha apaixonado pelo particular timbre do violoncelo e mais tarde tocar o refrão do que poderia ser um tema dos Soft Machine ou de alguma banda de rock progressivo, com a substancial diferença de que é um contrabaixo, com o seu som profundo e acústico, que define os pilares de sustentação. A proposta que The Selva nos faz é, pois, levar os procedimentos da improvisação para outros léxicos, confundindo a sua característica abordagem com toda uma série de factores que vamos reconhecendo ou julgando reconhecer, vindos da pop, da folk, da música erudita, do jazz e mais ainda. Sem nunca temer o tonalismo e a melodia, os padrões rítmicos definidos, os conceitos clássicos de beleza inerentes a um certo entendimento de lirismo e poesia, o “groove” ou o “swing”, os fraseados “cantabile” e tudo aquilo que se proibiu na música “livremente” improvisada.

Só por si, um programa assim seria algo de extraordinário, mas Jacinto, Almeida e Morão executam-no de um modo ainda mais entusiasmante: há alturas em que parece que estão a seguir partituras, incorporando passagens escritas nas improvisações, mas deixando-nos na dúvida sobre se assim é ou não. O que este par de ouvidos acha é que esses momentos são mimetizações improvisadas das músicas notadas existentes, mas foi propositadamente que não quisemos confirmar isso com o grupo no final do concerto na Parede. Não conhecer qual é realmente o “modus operandi” da fórmula The Selva, não desvendar o mistério, resulta particularmente delicioso. Não é, afinal, a improvisação simplesmente uma outra maneira de compor, escrevendo no ar? Quem não quer que se construam muros tem uma boa solução: não vá buscar tijolos…