João Hasselberg & Spectral Songs, 12 de Dezembro de 2017

João Hasselberg & Spectral Songs

Entre extremos

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

O novo grupo europeu do contrabaixista esteve em Portugal para uma digressão destinada a apresentar um jazz «com conteúdo» que, apesar disso, não fosse elitista. Na Parede, o grupo fez algumas adaptações electrónicas ao seu figurino acústico, numa espécie de free-pop-folk-jazz que combinou os universos cobertos por editoras como NoBusiness, ECM, Rune Grammofon e Cuneiform. Sim, houve momentos que nos remeteram para Jan Garbarek e George Duke, para entusiasmo geral do público.

O contrabaixista e compositor João Hasselberg tem um novo projecto – o seu primeiro exclusivamente com músicos de outros países que têm Copenhaga como cidade de residência – e trouxe-o em digressão por Portugal no início de Dezembro. Chama-se Spectral Songs, usa por vezes aspectos do formato canção (ainda que as ditas “songs” dispensem voz, como é de assinalar), mas o factor espectral não parece referir qualquer vínculo com essa corrente da música erudita contemporânea (a espectral) que tem um particular entendimento da harmonia, sendo também verdade que uma das grandes paixões musicais de Hasselberg, Arvo Part, não se faz sentir – enquanto outra, a que tem por Charlie Haden, essa sim, é detectável.

No propósito do grupo formado com Jedrzej Lagodzinski (Polónia), Rudolfs Machst (Letónia) e Simon Albertsen (Noruega) está a tentativa de «provar que a música acústica instrumental pode ser uma música de diálogo intenso com a audiência», mas na curva dessa “tournée” que o mesmo fez pelos lados da Parede, com um concerto domingueiro (no dia 3) na SMUP, o âmbito foi electroacústico: o pianista (Machst) surgiu com um sintetizador e o líder dividiu a sua atenção entre o contrabaixo e uma série de pedais electrónicos, com a particularidade de os ter a seu lado, sobre o amplificador, ao alcance das mãos. O resultado acabou por ser o mesmo, um «diálogo intenso» com o público.

Ainda assim, a actuação deste dia terá sido substancialmente diferente das que o quarteto fez nas suas demais paragens por terras portuguesas, designadamente Coimbra (Salão Brazil), Porto (Passos Manuel), Évora (Teatro Garcia de Resende), Caldas da Rainha (Centro Cultural e de Congressos) e Lisboa (Hot Clube). As alterações na instrumentação acima descritas levaram inevitavelmente a uma mudança na configuração da música, se bem que esticando o âmbito de “improbabilidades” que define o conceito subjacente às intencionadas Spectral Songs. Passa este por associar uma abordagem derivada do free jazz a linhas melódicas de cunho pop ou folk, introduzidas ao longo de um tema e não propriamente como refrões ou “chorus” norteadores das derivações improvisadas.

Neste concerto, foi como se os típicos ambientes dos discos da NoBusiness e da ECM se combinassem, com um efeito de deliciosa estranheza, pelo meio emergindo ainda o paisagismo e o experimentalismo que encontramos nas edições da Rune Grammofon e um “groove” jazz-funk-rock que estaria bem no catálogo da Cuneiform – aliás, um solo de Machst no Roland lembrou George Duke nos tempos dos Mothers of Invention de Frank Zappa, tanto quanto os de Lagodzinski no saxofone tenor nos remetiam para Jan Garbarek.

Ou seja, se Hasselberg já nos tinha surpreendido com Whatever it is You’re Seeking, Won’t Come in the Form You’re Expecting” , “Truth Has to be Given in Riddles”, “Dancing Our Way to Death” (com Pedro Branco) e “From Order to Chaos”, este novo investimento confirma-o como um dos mais inventivos músicos saídos do circuito nacional do jazz. E também como um dos que melhor se fazem acompanhar: dificilmente encontraria melhor baterista para esta proposta não-conformista e constantemente armadilhada («estamos fartos de música sem conteúdo», lê-se na apresentação da banda) do que o irrequieto Albertsen, que é como que um Tony Oxley “on speed”, sempre fecundo nas soluções e sempre a trocar-nos as voltas, nesta ocasião fosse ao lidar com as métricas como a bordar texturas.

O jazz destas Spectral Songs toca os dois extremos que emolduram o género. Consegue ser uma música popular sem que o seu inerente “vanguardismo” se desvirtue e ser exploratória («introspectiva», segundo o seu mentor) não perdendo acessibilidade, tal como afiançava João Hasselberg antes de apanhar o avião que o trouxe até nós a partir da Dinamarca. Ficaremos atentos ao que se segue. Um CD?