Gabriel Ferrandini / Pedro Gomes + Rajada + Insalata Statica, 7 de Fevereiro de 2018

Gabriel Ferrandini / Pedro Gomes + Rajada + Insalata Statica

De como vale a pena surpreender

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

Se até no campo da improvisação e da música dita exploratória ou experimental há cartilhas, fazer algo de que não se está à espera só pode agradar. Assim foi em três concertos na SMUP nos quais esteve em causa uma atitude de não-conformismo. Aqui contamos como…

Todas as músicas têm uma vulgata, e isso acontece também nos domínios do jazz criativo e da música improvisada, por mais que o factor “experimentalismo” seja invocado. Quando assim não acontece, quem aprecia os desalinhamentos de género e a não-conformidade só pode ficar agradado. É o caso de quem vos escreve sobre os três últimos concertos (dois deles na mesma noite) da programação da SMUP, os de 26 de Janeiro e 1 de Fevereiro passados, juntando a dupla de Gabriel Ferrandini e Pedro Gomes, os Rajada de Pedro Sousa, Miguel Mira e Afonso Simões, em apresentação do seu disco homónimo e primeiro, e o octeto Insalata Statica de Giovanni Di Domenico, com o português João Lobo a integrar a trupe italiana e belga na bateria e, surpresa, ao piano.

Ferrandini é membro dos Caveira de Gomes, mas em vez do free rock particularmente intenso da banda, o que a dupla fez para os lados da Parede, no concelho de Cascais, foi bem diferente, na forma e no conteúdo. A actuação começou com a guitarra, muito pausadamente, e se ao longo da mesma houve alguns picos de energia, ou não estivesse envolvido aquele que é, talvez, o mais intenso baterista da cena nacional (Gabriel Ferrandini, precisamente), a suavidade das elaborações musicais dominou. E se estas foram, pelo que pareceu, integralmente improvisadas, a abordagem escolhida pela guitarra de Pedro Gomes andou muito perto dos domínios da folk – ou mais exactamente, da “weird folk” sucedânea dos pioneirismos de John Fahey, assim baptizada por uma revista afoita a rotular tendências e estilos como a britânica Wire.

Sem pedais e de dedos nus, a guitarra eléctrica foi tocada quase como se de uma acústica se tratasse, numa filigrana de notas e acordes com transparências e fragilidades que não se coadunavam com as intervenções tipo “saxofone barítono”, com uma coluna de ar por baixo, que conhecemos do Gomes mais roqueiro ou até mais exploratório. Esta opção permitiu que transparecesse um Ferrandini focado na gestão das dinâmicas e das subtilezas percussivas, dando a conhecer essa sua faceta a quem não estava familiarizado com ela. A viagem empreendida até aos últimos momentos, entregues a peles, pratos e taças com vibrações que se foram desvanecendo até chegarem ao silêncio, arrancou um entusiasmado aplauso do público, pelos vistos também sedento de música que desafie as suas molduras.

Seguiu-se o trio Rajada, agora designado como tal porque é esse o título do disco acabado de sair pela polaca Multikulti. E se na aparência mais superficial o alistamento deste vai para um free jazz que se deixa arrebatar pela free music, uma audição atenta da performance do grupo nesta ocasião possibilitou uma mais clara percepção de que há outras coordenadas em jogo. No saxofone tenor, Sousa não se deteve nas técnicas extensivas típicas da “new improv” que são um recurso seu em outros contextos, a não ser a da respiração circular, que é já uma marca pessoal. E também não se ficou pela lógica jazzística do fraseado, preferindo um discurso alinear, ziguezagueante, que era iminentemente textural. Imaginativa e pouco se repetindo em ideias, a sua prestação foi notável. E notável, inclusive, porque soube não acrescentar o desnecessário, num exemplar trabalho de contenção. Houve catadupas de sopro, sem dúvida, mas com peso e medida.

Pedro Gomes

Gabriel Ferrandini

Rajada

João Lobo e Giovanni Di Domenico

Jordi Grognard e Ananta Roosens

Niles Van Heertum

O violoncelo de Mira a fazer as vezes de um contrabaixo só se destacou num par de “solos” (se é que lhes podemos chamar desse modo, pois aconteciam por subtracção dos restantes elementos), mas foi essencial para o conjunto da música, funcionando como uma argamassa sustentada em hard bop, funk e até algo que se assemelhava aos “drones” de tambura da música clássica indiana. Bastava calar-se por um instante para tudo perder espessura. Por sua vez, a bateria de Simões era tudo menos a do jazz ou da livre-improvisação, sem ser igualmente a do rock, área de que o músico provém, aliás. O seu vocabulário incluía materiais de várias proveniências, mas, mais do que isso, evidenciava uma atitude que não é a comum nestes domínios.

Uma semana depois, os Insalata Statica voltaram a sublinhar as virtudes de um não encaixamento idiomático passivo. Se na anterior visita de Di Domenico à SMUP, também com Lobo consigo nos Going, assistimos a um curioso krautrock psicadélico, desta feita as referências estiveram no minimalismo. Que não simplesmente o de Steve Reich, com repetições de motivos (ainda que mais melódicos do que rítmicos, ao contrário do compositor norte-americano) e uma estruturação por elipse – pelo caminho remetendo-nos para o Mike Oldfield de “Tubular Bells”, para os exotismos da Penguin Café Orchestra ou até para o tipo de harmonizações dos Beach Boys, confirmando assim a inspiração pop que o líder do ensemble referira em entrevista sobre o projecto.

No centro da música estava o piano, tocado por Giovanni Di Domenico ou por João Lobo, como ocorreu na fase inicial do concerto, com o Fender Rhodes e até a harpa (Vera Cavallin) a funcionarem como extensões do mesmo. Esta ideia de extensão, de edificação colectiva da música, muito especificamente para a manutenção de nuvens tímbricas e harmónicas, fez com que bastas vezes as contribuições individuais se dissipassem no todo, casos da harpista e do segundo guitarrista (Laurens Smet, também baixo eléctrico). Mesmo o violino e o trompete de Ananta Roosens prolongavam as funções do clarinete de Jordi Grognard, com trocas pelo meio, enquanto o eufónio de Niles Van Heertum colava, ainda que como a cereja (acústica) no topo do bolo (eléctrico), com o trabalho da primeira guitarra (Miquel Casaponsa) e do baixo ou das duas guitarras. Quando não eram as orquestrações ou a recorrência de melodias o que mais importava, vinham passagens de “groove” e de “riffing” em uníssono (sim, trata-se de um projecto predominantemente composto) em que Lobo se destacava, fosse pelo guião ou pelas suas qualidades pessoais.

Nesta proposta de Di Domenico há um pormenor mais a referir: a peça (homónima também) em diversas partes usa e abusa de súbitos cortes, mas quando parecia que se mudava de direcção reapareciam alguns elementos que tinham sido deixados para trás, expostos de outra maneira ou diferentemente integrados no caudal. As rupturas ainda mais pronunciavam o efeito das repetições e esse jogo tornou-se especialmente cativante. No fim, foi a explosão, com a assistência de pé e o pianista / compositor visivelmente agradado com a reacção. Ou seja, fazer outra coisa que não o previsível ou o que está demarcado vale bem a pena.